Monday, July 24, 2006

Eu e a fábrica

EU E A FÁBRICA

Rogério Torres


Das imagens mais caras que guardo da infância, boa parte me vem de São Bento, onde morei por pouco mais de um ano. Nos anos cinqüenta do século que se foi, o Núcleo Colonial de São Bento era um local muito bonito, quase um paraíso. De imediato, chamava a atenção do visitante a grande e pesada porteira de madeira que separava a Rio-Petrópolis da comprida estrada que dava acesso às casas dos colonos. Essa estrada, de terra batida, era guarnecida por pés de eucaliptos que estavam sempre a perfumar o local. Quinhentos ou seiscentos metros mais adiante, surgia imponente e muito alva a centenária fazenda que pertencera aos beneditinos, na época bem tratada ajardinada e que servia de sede ao Núcleo Colonial. As casinhas dos funcionários do Ministério da Agricultura eram padronizadas e embora simples, eram graciosas e confortáveis. Não possuíam muros ou cercas e na frente ostentavam um belo gramado, parecia coisa de filme norte-americano.
Mas essa não era a única imagem que me tocava, existiam outras e dentre elas a Rio-Petrópolis. Essa estrada octogenária era na época pouco movimentada. Em suas margens havia muita vegetação e pouquíssimas construções. De São Bento para o centro de Caxias poderíamos citar, como pontos de especial interesse, a Indústria Rei, o Centro Pan-americano de Febre Aftosa, a casa das bombas, no rio Sarapuí, a Estação Transmissora do Departamento dos Correios e Telégrafos e, já bem próximo da cidade, o imponente e austero prédio da Companhia União Manufatora de Tecidos. Na ignorância de minha puberdade, jamais imaginei a importância daquele estabelecimento para a economia do município ou mesmo para a do Brasil. Apenas duas coisas ali mexiam com a minha cabeça: uma era o “bicicletário” dos operários, repleto de “magrinhas” “Philips”, “Hercules” e “Monarcks”, eu era vidrado em bicicletas; a outra coisa que me deixava curioso eram as quatro letras em azul, pregadas no torreão da fábrica e que formavam o acrônimo CUMT. Na minha cabecinha púbere, já perturbada pelos hormônios, e estimulado pelos livrinhos de Carlos Zéfiro, aquele CUMT me lembrava sacanagem. E todo dia, quando o ônibus que me levava para a escola passava pela fábrica de tecidos, eu não podia deixar de olhar com admiração e malícia para aquele CUMT.
O tempo foi passando, eu amadureci e a fábrica envelheceu. O modelar estabelecimento que outrora produzira um dos melhores linhos do mundo, o Brasperola, sucumbira diante das novas tecnologias têxteis e das fibras sintéticas.
Do passado opulento sobraram apenas lembranças e o imponente edifício, agora com suas quatro letras desbotadas e maculado pelas horrorosas pichações grafadas em sua fachada.
No governo do prefeito Washington Reis a Secretaria de Cultura anunciou que a área seria desapropriada, o prédio reformado e ali criado um espaço dedicado às artes. Seria uma espécie de alternativa mais inteligente e barata ao inoperante “Monstrengo Cultural” parido pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Acreditamos, mas fomos enganados. Da noite para o dia, sem estardalhaço, sem uma placa indicando qualquer coisa ( tipo de obra, engenheiro responsável et cetera.), o local foi tomado por operários e máquinas que praticamente já derrubaram tudo. Foi uma violência contra uma cidade que vê, sem nada poder fazer, os efeitos “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Pegou mal, prefeito.

PS: Quem desejar conhecer a história da Companhia União Manufatora de Tecidos, entre em contato com o Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias. Lá o pesquisador encontrará um criterioso trabalho elaborado pelo professor Stélio Lacerda que faz um retrato fiel e de corpo inteiro da CUMT.

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