Saturday, May 24, 2014

Caparaó, a Sierra Maestra que não deu certo


       Caparaó, a Sierra Maestra que não deu certo

 

     Quem vai de Porciúncula em direção a Carangola, pela RJ 220, tem a sua atenção voltada para uma desbotada placa da rodovia que indica a entrada para Caparaó. Os que procuram naquela região os esportes ligados ao montanhismo ou ali vão por simples lazer, talvez nem saibam que aquela bela e tranquila região foi cenário da primeira insurgência armada contra o golpe de 1964.

Guardadas as devidas proporções, diríamos que Caparaó - região localizada entre a divisa de Minas Gerais e Espírito Santo - foi a nossa Sierra Maestra que não deu certo. A região do Parque Nacional de Caparaó, com o seu Pico da Bandeira, com quase 3.000 metros de altitude, era considerado por grupos de esquerda um local estratégico para a criação de focos rebeldes. Militantes da POLOP (Política Operária) já haviam estudado a região e, logo após o golpe de 1964, tentado se estabelecer ali com sargentos e marinheiros, mas o plano foi abortado. Até mesmo a Polícia Militar mineira havia treinado no local, cooptada por forças que tramavam a derrubada de Jango.

       Tudo aconteceu entre 1966 e 1967. Promovida pelo Movimento Nacionalista Revolucionário, liderado pelo ex-governador Leonel Brizola, a guerrilha teve o apoio financeiro de Fidel Castro e era formada majoritariamente por ex-militares expulsos das Forças Armadas, alguns treinados em Cuba. Eram eles: Amadeu de Almeida Rocha, professor do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros; Amadeu Felipe da Luz Ferreira, ex-sargento; Hermes Machado Neto, cartógrafo; Bayard Demaria Boiteux, professor de matemática do Colégio Pedro II; Avelino Bioni Capitoni, ex-marinheiro de 1ª classe; Edival Augusto de Melo, 2º sargento da Marinha; Juarez Alberto de Souza Moreira, capitão reformado pelo AI- nº1; Gregório Mendonça, instrutor militar; Araken Vaz Galvão, reformado pelo AI – nº 1 como sargento; Deodato Fabrício Batista, ex-3º sargento do Exército; Amaranto Jorge Rodrigues Moreira, marinheiro cassado pelo AI –nº 2; Jorge José da Silva, ex-cabo da Marinha; Itamar Maximiano Gomes, subtenente; Anivanir de Souza Leite, ex-sargentO cssado pelo AI – nº 1; Jelcy Rodrigues Correia, subtenente.

       O grupo de guerrilheiros começou a chegar na região em novembro de 1966, instalando-se num sítio da família do sargento para-quedista Anivanir Martins Leite, como criadores de cabras. Quando o grupo aumentou, subiu em direção ao pico da serra, para não ser visto pelo população. Os guerrilheiros possuíam fuzis, metralhadoras e dinamite. Não tinham a pretensão de derrubar a ditadura sozinhos. Acreditavam que conseguiriam resistir ao cerco do Exército até a eclosão de outros movimentos guerrilheiros, em oposição aos ditadores, que, acreditavam, viriam das cidades. Nada disso aconteceu.     

        O embrionário movimento guerrilheiro foi frustrado antes mesmo de atingir os seus objetivos. Os integrantes limitaram-se a fazer exercícios de treinamento e de reconhecimento na região, enquanto esperavam a ordem de entrar em ação. Haviam perdido o suporte financeiro de Cuba, que resolveu apoiar Carlos Marighella. Abandonados e desassistidos, os integrantes do grupo rebelde passaram a roubar e abater animais, para não morrer de fome. Nesse momento os guerrilheiros já enfrentavam conflitos internos. Nem todos concordavam com a continuação de um movimento, que, todo indicava, teria desfecho trágico.

Assustada com aquela vizinhança incômoda, a população denuncia o grupo, que é preso pela Policia Militar mineira. A resistência por parte dos guerrilheiros foi pequena, quase não houve troca de tiros entre estes e os policiais. Esgotados, famintos e debilitados pela peste bubônica, não foi difícil capturá-los.

       O grupo seria descoberto quando um dos componentes foi fazer compras no comércio local. Depois de capturados, foram levados para o presídio de Linhares, em Juiz de Fora, onde foram torturados e, em consequência disso, um deles veio a falecer.

Muitos moradores da região foram também detidos, para averiguação, acusados de colaborarem com o MNR.

Após a desarticulação da guerrilha, as Forças Armadas tentaram desqualificar o movimento, criando para ele a imagem de bando de criminosos comuns e não de revolucionários. Mas a polícia mineira provou que os rebeldes eram ex-militares. Diante disso, o Exército e a Força Aérea realizaram uma grande operação visando capturar os demais guerrilheiros que possivelmente estivessem escondidos na serra. Mas ninguém foi encontrado. A operação serviu como uma grande demonstração de força e poder.  Essa demonstração de força e poder deixou a população  apavorada, isto porque alguns moradores foram torturados para que confessassem a participação no movimento rebelde.

Conta o professor Bayard Demaria Boiteux -  ex- dirigente do Partido Socialista e comandante do MNR no Rio de Janeiro, autor do livro “A Guerrilha de Caparaó e outros relatos” – que o Exército, a Aeronáutica e o CENIMAR realizaram um espetáculo grandioso com aviões e helicópteros roncando os seus motores, tanques exibindo os ameaçadores canhões; os aviões bombardeando indiscriminadamente as populações indefesas. Nesse “espetáculo” figuravam 10.000 militares contra 14 guerrilheiros.

 Para acalmar e conquistar o apoio da população, os militares passam a oferecer serviços na área de saúde: vacinação, consultas médicas, extração de dentes, distribuição de remédios e até o fornecimento de alimentos. Em Espera Feliz, a banda musical do 11° Batalhão da Polícia Militar fez apresentações para a população, foram promovidos bailes e até seções de cinema em praça pública. Os caminhões do Exército ofereciam carona para os moradores da zona rural e veterinários se apresentavam aos fazendeiros da região para tratamento dos animais doentes ou que necessitassem de vacina.

As crianças da escola local mereceram especial atenção por parte dos militares. Algumas foram levadas para passeios de sobrevoo de avião pela serra. A distribuição de balas e organização de brincadeiras também não faltaram.  Palestras sobre o “perigo do comunismo” foram ministradas nas escolas, igrejas e praças públicas.

Quando os militares deixaram o local, uma sensação de insegurança se apossou daquela gente simples do Caparaó, que agora tinha pelo comunismo um grande pavor.

Nossa Sierra Maestra, efetivamente, não dera certo.  

 

 

 

 

 

 

 

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