Caparaó, a Sierra Maestra que não deu certo
Quem vai de Porciúncula em direção a
Carangola, pela RJ 220, tem a sua atenção voltada para uma desbotada placa da
rodovia que indica a entrada para Caparaó. Os que procuram naquela região os
esportes ligados ao montanhismo ou ali vão por simples lazer, talvez nem saibam
que aquela bela e tranquila região foi cenário da primeira insurgência armada
contra o golpe de 1964.
Guardadas as devidas proporções, diríamos
que Caparaó - região localizada entre a divisa de Minas Gerais e Espírito Santo
- foi a nossa Sierra Maestra que não deu certo. A região do Parque Nacional de
Caparaó, com o seu Pico da Bandeira, com quase 3.000 metros de altitude, era
considerado por grupos de esquerda um local estratégico para a criação de focos
rebeldes. Militantes da POLOP (Política Operária) já haviam estudado a região
e, logo após o golpe de 1964, tentado se estabelecer ali com sargentos e
marinheiros, mas o plano foi abortado. Até mesmo a Polícia Militar mineira
havia treinado no local, cooptada por forças que tramavam a derrubada de Jango.
Tudo aconteceu entre 1966 e 1967.
Promovida pelo Movimento Nacionalista
Revolucionário, liderado pelo ex-governador Leonel Brizola, a guerrilha
teve o apoio financeiro de Fidel Castro e era formada majoritariamente por
ex-militares expulsos das Forças Armadas, alguns treinados em Cuba. Eram eles: Amadeu
de Almeida Rocha, professor do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros;
Amadeu Felipe da Luz Ferreira, ex-sargento; Hermes Machado Neto, cartógrafo;
Bayard Demaria Boiteux, professor de matemática do Colégio Pedro II; Avelino
Bioni Capitoni, ex-marinheiro de 1ª classe; Edival Augusto de Melo, 2º sargento
da Marinha; Juarez Alberto de Souza Moreira, capitão reformado pelo AI- nº1;
Gregório Mendonça, instrutor militar; Araken Vaz Galvão, reformado pelo AI – nº
1 como sargento; Deodato Fabrício Batista, ex-3º sargento do Exército; Amaranto
Jorge Rodrigues Moreira, marinheiro cassado pelo AI –nº 2; Jorge José da Silva,
ex-cabo da Marinha; Itamar Maximiano Gomes, subtenente; Anivanir de Souza
Leite, ex-sargentO cssado pelo AI – nº 1; Jelcy Rodrigues Correia, subtenente.
O
grupo de guerrilheiros começou a chegar na região em novembro de 1966,
instalando-se num sítio da família do sargento para-quedista Anivanir Martins
Leite, como criadores de cabras. Quando o grupo aumentou, subiu em direção ao
pico da serra, para não ser visto pelo população. Os guerrilheiros possuíam
fuzis, metralhadoras e dinamite. Não tinham a pretensão de derrubar a ditadura
sozinhos. Acreditavam que conseguiriam resistir ao cerco do Exército até a
eclosão de outros movimentos guerrilheiros, em oposição aos ditadores, que,
acreditavam, viriam das cidades. Nada disso aconteceu.
O
embrionário movimento guerrilheiro foi frustrado antes mesmo de atingir os seus
objetivos. Os integrantes limitaram-se a fazer exercícios de treinamento e de
reconhecimento na região, enquanto esperavam a ordem de entrar em ação. Haviam
perdido o suporte financeiro de Cuba, que resolveu apoiar Carlos Marighella.
Abandonados e desassistidos, os integrantes do grupo rebelde passaram a roubar
e abater animais, para não morrer de fome. Nesse momento os guerrilheiros já
enfrentavam conflitos internos. Nem todos concordavam com a continuação de um
movimento, que, todo indicava, teria desfecho trágico.
Assustada com aquela vizinhança
incômoda, a população denuncia o grupo, que é preso pela Policia Militar
mineira. A resistência por parte dos guerrilheiros foi pequena, quase não houve
troca de tiros entre estes e os policiais. Esgotados, famintos e debilitados
pela peste bubônica, não foi difícil capturá-los.
O grupo seria descoberto quando um dos
componentes foi fazer compras no comércio local. Depois de capturados, foram
levados para o presídio de Linhares, em Juiz de Fora, onde foram torturados e,
em consequência disso, um deles veio a falecer.
Muitos moradores da região foram também
detidos, para averiguação, acusados de colaborarem com o MNR.
Após a desarticulação da guerrilha, as
Forças Armadas tentaram desqualificar o movimento, criando para ele a imagem de
bando de criminosos comuns e não de revolucionários. Mas a polícia mineira
provou que os rebeldes eram ex-militares. Diante disso, o Exército e a Força
Aérea realizaram uma grande operação visando capturar os demais guerrilheiros
que possivelmente estivessem escondidos na serra. Mas ninguém foi encontrado. A
operação serviu como uma grande demonstração de força e poder. Essa demonstração de força e poder deixou a
população apavorada, isto porque alguns
moradores foram torturados para que confessassem a participação no movimento
rebelde.
Conta o professor Bayard Demaria
Boiteux - ex- dirigente do Partido
Socialista e comandante do MNR no Rio de Janeiro, autor do livro “A Guerrilha
de Caparaó e outros relatos” – que o Exército, a Aeronáutica e o CENIMAR
realizaram um espetáculo grandioso com aviões e helicópteros roncando os seus
motores, tanques exibindo os ameaçadores canhões; os aviões bombardeando
indiscriminadamente as populações indefesas. Nesse “espetáculo” figuravam
10.000 militares contra 14 guerrilheiros.
Para acalmar e conquistar o apoio da
população, os militares passam a oferecer serviços na área de saúde: vacinação,
consultas médicas, extração de dentes, distribuição de remédios e até o
fornecimento de alimentos. Em Espera Feliz, a banda musical do 11° Batalhão da
Polícia Militar fez apresentações para a população, foram promovidos bailes e
até seções de cinema em praça pública. Os caminhões do Exército ofereciam
carona para os moradores da zona rural e veterinários se apresentavam aos
fazendeiros da região para tratamento dos animais doentes ou que necessitassem
de vacina.
As crianças da escola local mereceram
especial atenção por parte dos militares. Algumas foram levadas para passeios
de sobrevoo de avião pela serra. A distribuição de balas e organização de
brincadeiras também não faltaram. Palestras
sobre o “perigo do comunismo” foram ministradas nas escolas, igrejas e praças
públicas.
Quando os militares deixaram o local,
uma sensação de insegurança se apossou daquela gente simples do Caparaó, que
agora tinha pelo comunismo um grande pavor.
Nossa Sierra Maestra, efetivamente, não
dera certo.

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