1- Caxias de antigamente,
primeira impressões
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estas linhas tentando explicar, se for possível, o significado da palavra
antigamente, ao menos como eu a entendo. Antigamente é algo que passou, um
quadro pendurado na “parede da memória”.
Antigamente pode ser uma coisa que aconteceu há cinco, dez, cem ou mil anos.
Como se vê, antigamente é coisa imponderável, que não pode ser medida, que não
tem exatidão.
É de
uma Caxias de antigamente que pretendo falar. E o meu antigamente situa-se,
mais ou menos, entre os anos 50 e 80 do século que passou. Acho que é isso.
Pisei
pela primeira vez o solo da terra disputada pelo Pacificador, por Tenório e
Joãozinho da Goméia no início dos anos 50.
Vinha com
o meu pai para conhecer São Bento, local onde iríamos morar. Na época, estava
com uns 10 ou 11 anos. Não me lembro bem. Lembro, porém, que mudaríamos de Vaz
Lobo para São Bento acompanhando o meu velho, transferido dos Correios da Praça
15 (hoje Paço Imperial) para a estação rádio receptora do DCT, que ficava no
Núcleo Colonial de São Bento, bem em frente da velha fazenda dos padres
beneditinos.
Caxias
me pareceu um local muito diferente de tudo aquilo que até então eu tinha
visto. Nascido no Engenho de Dentro e tendo morado em Todos os Santos, Méier e
Vaz Lobo, bairros do antigo Distrito Federal, estranhei muito a cidade. Tudo
era diferente, começando pelo ônibus que nos levou para São Bento. Era um
veículo do tipo (mas não exatamente) “Camões”, uma bem humorada alusão ao poeta
português cego de um olho. O veículo tinha um dos pára-brisas recuado, o que
justificava o apelido. Sua mecânica era inglesa e a carroceria fabricada pela
Grassi, de São Paulo. Uma única porta servia de entrada e saída para os
passageiros. Outro aspecto curioso era o grande número de carroças puxadas por
cavalos e burros. O trem, que no Distrito Federal era elétrico e metálico, aqui
era a vapor, maria-fumaça, com vagões de madeira, mais velhos que a Sé de
Braga.
A Praça
do Pacificador abrigava uma improvisada e feia rodoviária de madeira, além de
uma bica d’água onde os “rola-rola” e as latas de banha eram enfileiradas pela
gente pobre que ali recolhia o “precioso líquido”. Poços e carros-pipa
completavam o improvisado “sistema de abastecimento” da cidade. Entre a praça e
a via férrea funcionava um parque de diversões, na verdade um “mafuá”, que
abrigava jogos de azar.
A
Rio-Petrópolis, a partir da praça e seguindo até a casa do Tenório, era, ao
anoitecer, o território dominado pelas boates, cabarés, “hotéis de alta
rotatividade”, prostitutas, “otários”
e rufias. Era também na Rio-Petrópolis que ficavam as lojas que vendiam armas,
munição, material para caça, pesca e fogos de artifício. Curiosamente, um
desses estabelecimentos era batizado com o nome do padroeiro da cidade: Casa
Santo Antônio. Porém de "santo ou santa" a casa não tinha nada. Mas
existiam outras duas com os sugestivos nomes de Casa São Pedro e Casa São João,
obviamente também dedicadas ao inocente comércio de fogos e armas.
Lembrando
o velho Sérgio Buarque, digo que o antigo Estado do Rio era “o lado debaixo do Equador”, local onde o
pecado não existia. O que não se podia fazer na Capital Federal - cheia de
"otoridades" civis, militares e eclesiásticas a zelar por nossa moral
e bons costumes, aqui se fazia escancaradamente.
Poucas
eram as ruas calçadas, a iluminação pública ficava limitada ao centro e aos bairros
da classe média. Mas, assim mesmo, vez por outra, lá vinha um apagão e dos
grandes.
O jogo
do bicho funcionava escancarada e livremente em lojas unicamente restringidas
por um quebra-vento. No Distrito Federal não era assim, o “escritório” do
bicheiro era o poste da Light. A loteria
“Três Batutas”, do João Bicheiro, durante muitos anos imperou na Caxias de
antigamente. Mas tivemos também a Paratodos Loterias, O Cravo da Sorte e Caçula
Loterias.
Estas
foram, inicialmente, as minhas primeiras impressões sobre aquela cidade estranha
que, a partir daí, passaria a ser minha também.

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