2-Lalú e Benedicta
Eram meus avós maternos. Nasceram e
viveram, boa parte da vida, na Paraíba do Sul. Ele dentista prático licenciado,
ela costureira. Ele conseguindo conciliar kardecisno e comunismo. Ela católica,
apostólica, romana; praticante radical, uma verdadeira xiita.
Mas não pensem que essas,
aparentemente inconciliáveis, diferenças ideológicas perturbavam a vida do
casal. Nada disso, viviam muito bem. Acredito que se amavam verdadeiramente.
Não aquele amor meloso, roliudiano, egoísta, cheio de palavras bonitas, mas vazias.
Se amavam, simplesmente, mesmo com visões diferentes de ser e viver. A
humanidade - para ele, comunista, e para ela, católica –, era a razão
verdadeira de suas existências.
Tiveram cinco filhos de sangue e criaram
seis adotivos. Viviam modestamente, mas provendo o lar de tudo aquilo
necessário para uma vida modesta, mas digna.
Não sei exatamente porque resolveram
sair da Paraíba e vir para o antigo Distrito Federal. Aqui passaram a morar no
Méier. Ele continuou exercendo a profissão de dentista, ela a de costureira.
Vitimado por uma cirrose hepática, Lalú se
foi, deixando na casa da rua Hermengarda a sua Benedicta com os filhos ainda
solteiros, Saulo, Aldail e Maria Justina. Por essa época, Célia e Cleia já
estavam casadas.
Certo dia, minha mãe, que depois de
casada passou a morar com os sogros, resolveu voltar comigo para o lar paterno.
A mistura nora e sogra produz, quase sempre, algo explosivo. Aí, fomos viver
com a minha avó, trocando Todos os Santos pelo Meier.
Tenho poucas lembranças da casa dos meus
avós paternos, um imóvel bem cuidado, com jardim cheio de flores, vários
cômodos, grande quintal abrigando pés de jamelão e oferecendo um porão cheio de
coisas velhas que me encantavam. Uma antiga “vitrola” que tocava discos de
Dorival Caymmy, completam essas escassas reminiscências.
A casa da vovó Benedicta também era
grande, com quatro quartos espaçosos, sala de bom tamanho, despensa, onde
fazíamos as refeições e uma cozinha com paredes encardidas e cujos portais
estavam carcomidos por cupins. Não era uma casa bonita, mas dava para abrigar,
com relativo conforto, aquela grande família: vovó, minha mãe, eu, meus três
tios, Rosane e Levaldina. Rosane e Levaldina eram meninas que d. Benedicta
abrigava.
Criar filhos de outras pessoas parecia
ser uma fatalidade para minha avó. Quando se casou com Lalú, levou consigo
Alcides, uma criança que pegara para criar. Vejam que coisa fora de propósito:
uma moça solteira, bem jovem, responsável por uma criança que ainda
engatinhava. Ao longo de sua vida foi “colecionando” menores desvalidas: Edi,
Ercília, Maria Eugênia, Conceição, Levaldina, Rosane e Maria “Cachucha”, a última adotada. Com exceção
de Levaldina, Rosane e Maria “Cachucha”,
as demais já estavam casadas e eram mães.
A casa da vovó Benedicta também era grande,
com quatro quartos espaçosos, sala de bom tamanho, despensa, onde fazíamos as
refeições e uma cozinha com paredes encardidas e cujos portais estavam
carcomidos por cupins.
Um dia a mãe de Rosane, depois de se
aprumar na vida, levou a menina. Aí, Levaldina passou a ser minha única
companheira de folguedos naquela casa grande e cheia de gente adulta. Era quase
uma irmã, durante certo período estudamos na mesma escola. Escola, não é bem o
termo, uma escolinha, que funcionava na casa de duas irmãs no Engenho de
Dentro. Ali as duas velhotas amontoavam as crianças que, entre reguadas e
puxões de orelhas, iam sendo alfabetizadas. O encanto de estudar na escolinha
de d. Isaura e d. Isabel ficava por conta da viagem de bonde, nós adorávamos.
Mas não só isso, as duas mestras vendiam uma bala de leite que era o sonho da
garotada. Quando uma das mestras abria o pote onde ficavam guardadas as balas,
a garotada parava e ficava olhando encantada para aquela guloseima e imaginando
quem poderia estar adquirindo a preciosidade. Só os bem aquinhoados tinham
acesso as cobiçadas balas. Naquela improvisada escola, ficávamos sentados em
desconfortáveis bancos de madeira que se espalhavam pelas dependências da velha
casa do Engenho de Dentro. Só aqueles que estavam fazendo as tarefas escolares
sentavam na grande mesa da sala. O restante da criançada ficava mesmo ociosa,
esperando a vez para ser chamada e exibir os trabalhos escolares. A escola
tinha também os seus tabus. Um deles era se falar do filho de uma das
professoras, que morrera precocemente.
Mas viver com a vovó tinha também os
seus sacrifícios. Sendo católica praticante “fundamentalista”, não se levantava
sem antes rezar muito, percorrer todas as continhas do terço e beijar, uma a
uma, as imagens dos santinhos que guardava no seu missal. Aos domingos não
tinha jeito, todas as crianças eram obrigadas a acompanhá-la à missa. Quando
voltávamos da igreja era aquele ritual macabro: vovó matava a galinha que seria
servida no almoço domingueiro. Jamais deixou que assistíssemos ao sacrifício da
“penosa”. O único galináceo que
escapou da faca ninja de d. Benedicta foi um galo branco, muito brabo, que dava
esporadas até na sombra.
Vovó não admitia palavrões, gente
sentada à mesa sem camisa e espelho descoberto em dia de trovoada. Quando os
coriscos começavam a riscar o céu, ela pegava palha benta e queimava. Era a
forma mais eficaz que conhecia para aplacar os elementos.
Os domingos da nossa infância eram
especiais; pela manhã a missa, na hora do almoço era servida a macarronada com
galinha assada, tudo devidamente acompanhado pelas melodias cantadas por
Francisco Alves, “O Rei da Voz”. O programa tinha Lúcia Helena como
apresentadora, que, com aquela voz maravilhosa, grave e pausada, assim
anunciava o cantor: “Ao soar o carrilhão
as doze badaladas, ao se encontrarem os ponteiros no meio dia, os ouvintes da
Rádio Nacional também se encontram com Francisco Alves, o Rei da Voz”. Era
um negócio muito bacana, emocionante.
Após o almoço, meu pai vinha nos
visitar. Algumas vezes íamos para a Quinta da Boa Vista, em outras ocasiões
para o Jardim do Méier. Eu adorava colocar barquinhos de papel no laguinho do
parque e assistir ao teatrinho de marionetes, que sempre acabava do mesmo
jeito, com todos os bonecos brigando. O passeio
terminava no Bar Imparcial, já à noitinha, onde comíamos um super
sanduíche de salame e o velho mergulhava num douradíssimo e borbulhante
chope.
Eram assim os domingos da minha
infância passados na casa de Lalú e Benedicta. Mas isso até mudarmos para Vaz
Lobo. Aí começava uma nova fase na vida daquela pequena família que, durante os
anos de vacas magras, vivera na casa dos sogros.

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