Saturday, May 24, 2014


3- De Vaz Lobo para São Bento.

 

 

Chegou, finalmente, o dia da mudança. Tudo fora preparado para o bota-fora. O que não prestava foi jogado no lixo, inclusive minhas duas gatinhas - Chinha Preta e Chinha Branca -, colocadas num saco de estopa entregue ao funcionário do Departamento de Limpeza Urbana, que recolhia o lixo com uma carroça cinza, pesada, puxada por um burro sonolento, defecador e sempre coberto de moscas. Apesar das recomendações para que não maltratasse as bichinhas, o homem pegou o saco, de qualquer jeito, e pendurou na traseira da carroça cinza e infecta do Departamento de Limpeza Urbana (D.L.U.(). Meus pais me explicaram que os animais não se acostumariam com a nova casa, portanto seria melhor que fossem doados para outras pessoas. Doados? Tive minhas dúvidas, mas o que fazer?  Criança, sempre ouvi dizer, não tem vontade.

 

 

 

 

 

            

 

 

Um caminhão baú da Lusitana (aquela que dizia que o mundo girava e ela rodava) ou das Brasileiras, não me lembro exatamente qual, parou na rua Joaí e, rapidamente, foram embarcados os cacarecos: um fedorento fogão de querosene, alguns trens de cozinha, os móveis de sala, que incluía um itajer, mesa com quatro cadeiras desengonçadas, minha cama Patente Faixa Azul (hoje raridade, disputada por colecionadores) e os móveis de quarto de meus pais, onde se destacava uma penteadeira com um espelho redondo, em art déco, muito interessante, além de um balaio  contendo as ferramentas do meu pai. Apesar de nossos móveis e utensílios serem muito antigos e desgastados, o velho não abria mão do “luxo” de transportá-los em empresas famosas como as citadas acima. Alegava que elas eram eficientes e não quebravam nada. Que ironia, as poucas coisas que possuíamos já apresentavam severas marcas feitas pelo tempo. Fato comprovado por uma espetacular queda que meu pai teve ao sentar, inadvertidamente, numa das cadeiras quebradas e amarradas com barbante que, silenciosamente, aguardava sorrateira, algum desavisado. O tombo espetacular foi testemunhado por mim e um amigo do meu pai que naquele dia visitava nossa casa. Morri de vergonha... 

 

E lá fomos nós para a nova vida, em um lugar que parecia o fim do mundo, porém bem mais interessante que Vaz Lobo, um bairro pobre, feio e parecendo ser inimigo do progresso. Deixamos para trás a casinha em que morávamos, geminada com a de nosso senhorio, seu Manuel, um português de pele amorenada, estatura mediana, educado, mas marido severo e pai rigoroso, que gostava de dar uns "catiripapos” na mulher, dona Rita. Também à distância ficava o Colégio Republicano e a professora Wanda, minha primeira paixão; o Colégio Manoel Machado, com o professor Wilson, que apesar de não ter um braço escrevia à máquina com grande desenvoltura. Felizmente, nunca mais teria que assistir as aulas do professor Ildefonso, um mulato magro, calvo, sisudo, que parecia odiar os alunos. Encerrava-se, sem muitas saudades, uma etapa de minha existência. Vaz Lobo fora apenas um “acidente” em minha vida. Uma verdadeira trombada de lotação, mas que hoje me dá saudades.

 

Sei que estes comentários sobre Vaz Lobo podem dar a você, leitor, a ideia de que eu só via pontos negativos naquele local. Ledo engano. O bairro, que fica entre Madureira e Irajá, me deixou algumas lembranças gratas. Uma delas já confessei, foi a primeira paixão, a professora Wanda. Outra, era o som de uma radiovitrola, vindo da casa vizinha, que tocava, quase o dia todo, melodias que estavam nas paradas de sucesso. Uma delas me fez descobrir a “música popular brasileira”. Era cantada por Elizete Cardoso e tinha como autores Helano de Paula e Chocolate. Seu título: “Canção de Amor”. Era linda, linda, linda. Mas tinha também os circos que por lá apareciam: Olimecha, Zoo-Americano e outros que o tempo apagou da minha memória. Certo dia chegou um circo bem “mequetrefe”, mas com aquela rumbeira espetacular. Que mulher bonita e ondulante, confesso que me apaixonei pela garota de corpo escultural, esquecendo, momentaneamente dona Wanda. Acho que estava começando a despertar para as coisas do sexo. "Santo Deus", quantas fantasias, quantas besteiras passaram pela minha cabeça, que sensação de pecado.

 

 

 

 

 

          

   



 

 

 

Alguns amiguinhos também me trazem boas recordações. Mas a lembrança que talvez tenha deixado em minha consciência a impressão mais profunda foi a descoberta da ação transformadora do homem sobre a natureza. Explico: certo dia, caminhando por uma rua em cuja esquina havia um posto de gasolina, observei os empregados descarregando um caminhão-tanque enorme. Foi um verdadeiro “estalo de Vieira”. Naquele instante percebi que quase tudo à minha volta era produto do trabalho humano. Na inocência de meus 8 anos, nunca tinha pensado que as casas, os carros, o pão, as roupas e tudo mais, eram coisas fabricadas por gente igual a mim. Percebi que o outro existia independente de mim ou da minha consciência. Descobri que eu era parte do mundo e não este parte de mim. Entrava, assim, no “estágio operatório concreto”. Será que estou falando besteira?

 

Seria ingrato se não citasse, com uma pitada de saudade, o Cine Vaz Lobo como local de boas lembranças. Foi nesse “poeira” que assisti, pela primeira vez, e em companhia de minha mãe, um arremedo de “programa de auditório” que os artistas da Rádio Nacional “mambembavam” pelos bairros cariocas. O rádio era o máximo e a televisão ainda engatinhava. Poucos tinham condições financeiras para comprar um aparelho - crediário era uma coisa feito cabeça de bacalhau, muito rara -, além de tudo a recepção era péssima e os programas improvisadíssimos. A tv. não tinha a menor credibilidade. O que imperava mesmo era o rádio, através das ondas da Nacional, da Tupi, da Mayrink Veiga. Claro, estas emissoras não eram as únicas, mas, certamente, as mais importantes. Tempo bom...bom?

 

Recordações menos nítidas me vêm à consciência: o bondinho que ligava Irajá a Madureira, parecendo andar pela calçada, pois seus trilhos ficavam no mesmo nível desta. O famoso Mercado de Madureira, o Teatro de Zaquia Jorge (pioneira do teatro nos subúrbios) e o Império Serrano. Tudo isso redimia Vaz Lobo.

 

O bondinho deixou na minha cabeça, durante muito tempo, uma imagem sinistra. Certo dia, numa curva muito fechada, saltou dos trilhos e esmagou uma estudante da minha escola contra o muro diante do qual a jovem passava. Foi uma tragédia, a consternação foi geral no meu colégio.

 

                 

                                        

 

 

 

 

 

  

 

 

 

Ir ao Mercado de Madureira era uma festa para mim. Aquele era um dos poucos passeios que eu podia fazer. Acompanhando minha mãe, percorria todos os boxes. A “coroa” era exigente quanto ao preço e à qualidade daquilo que comprava. Afinal, a responsabilidade de esticar o minguado orçamento doméstico era de d. Cleia. Mas, em alguns momentos, demonstrando liberalidade, coisa raríssima, permitia que eu levasse para casa um cachimbinho de barro, um pião ou um pintinho recém-nascido, que durava pouco mais de dois dias. 

                

 Mas voltemos para São Bento. Um mugido rouco e prolongado me acordara naquela manhã ensolarada. Curioso, fui até a janela do quarto para saber quem era o “atrevido” (ou atrevida) que interrompera o meu sono naquela primeira noite passada em nossa nova casa de São Bento.

 

Postada, pachorrentamente, bem embaixo da janela do meu quarto estava a autora do inconveniente mugido. Era uma esquálida, porém simpática, vaquinha holandesa chamada Cozinheira. Cheia de bernes e carrapatos, Cozinheira parecia, com seu mugido rouco e prolongado, desejar dar as boas vindas para a pequena família que agora fazia da casa da Estação Receptora de São Bento o seu novo lar.

 

 

 


              

 

 

Depois de tomar o café, engolido apressadamente, fui explorar as imediações de nossa casa. O que vi naquela manhã era completamente diferente do que vira e vivera até então. Tudo me parecia sem limites, o quintal, as terras da estação rádio-receptora, toda espetada com antenas para captar os sinais de ondas curtas que nos ligavam com o mundo. Até um rio eu tinha à minha disposição, com peixes e “frangos d’água”. São Bento, pelos idos dos anos 50, guardava alguns vestígios dos tempos em que a caça e a pesca ainda testemunhavam um passado de abundância, ecologicamente quase correto. O Núcleo Colonial possuía ainda muitos pássaros, tatus, alguns jacarés, bastante preás, cobras , muitos morcegos e uma variedade incrível de insetos. Quando seu Abílio varria as calçadas da “rádio”, recolhia dezenas de besouros, de todos os tipos e tamanhos. Ali tudo era diferente dos demais lugares que eu tinha visto até então, um verdadeiro paraíso. Muito verde, árvores frutíferas, gado pastando juntinho de nossa casa, o rio Iguaçu, que passava a poucos metros do fundo de nosso quintal. Tudo com dois aromas especiais: do mato e do gado que era criado por seu Abílio, um pernambucano magrinho, de pele muito branca e que era o servente da “radio”. Esse primeiro contato com o meu pequeno paraíso foi verdadeiramente fascinante. Fantasiava os futuros passeios de bicicletas e, talvez, quem sabe, memoráveis cavalgadas. São Bento era tudo aquilo que qualquer garoto sonhava.

 

O Núcleo Colonial de São Bento estava subordinado ao Ministério da Agricultura. Suas terras, antes pertencentes aos padres beneditinos, haviam sido adquiridas pela União com a finalidade de se implantar um projeto agro-pecuário. A empreitada parecia não ter vingado, porém deixou no local uma infra-estrutura capaz de dar sustentação a um conjunto habitacional com fortes características rurais. As habitações eram padronizadas, amplas e com um traçado simples, porém formavam um conjunto gracioso.  Contribuía para isso os jardins gramados e a ausência de muros separando as residências. Parecia coisa de cinema americano.

 

Um comprido e largo caminho de terra batida, ladeado por perfumados eucaliptos, ligava o Núcleo à antiga estrada Rio-Petrópolis. Nesse ermo, o silêncio só era quebrado pelo canto dos bem-te-vis, pelo ronco do trator do “japonês”, por alguma carroça ou pelo barulhento motor do “fordeco 29” que entregava um pão horroroso – nem é bom lembrar - que comíamos no café da manhã. Não é tarefa muito fácil estabelecer os limites geográficos do Núcleo Colonial. Mas não custa tentar: do lado esquerdo da estrada que seguia em direção às casas dos funcionário  do Ministério da Agricultura, ficava o trecho de uma ferrovia desativada ou quase; do lado direito a “defesa vegetal” e o Centro Pan-americano; depois do São Bento Esporte Clube vinham as choupanas dos japoneses, que terminavam quase na “parada da Leopoldina”. Fato curioso era o modo de vida desses emigrantes. Eram discretos e viviam isolados, pouco se relacionando com os demais moradores. Vendiam ovos, principalmente, mas possuíam pequenas áreas cultivadas pelas imediações. Fato curioso era um determinado tipo de ovo vendido por eles, possuía duas gemas.

 

 

 

 

 

 

          

    



 

A administração do Núcleo Colonial - naquele tempo dirigida por um funcionário rigoroso, apelidado de Timoshenko, em alusão ao famoso e duro general russo, herói da Segunda Guerra Mundial - ficava na antiga sede da Fazenda de São Bento, vetusta construção do século 18. Ali, segundo a crença de muitos moradores, habitavam fantasmas de padres e escravos. Era com um certo temor que a criançada para lá se dirigia, movida pelo desejo de furtar laranjas e jabuticabas. Bem menos assustador e mais fácil seria burlar a canina vigilância de “seu” Cezar” - um telegrafista que passava a maior parte dos dias do mês dentro da “rádio” fazendo “gronga” (trabalhar no lugar de um colega mediante remuneração deste) - e surrupiar mangas dos terrenos da “rádio”, nome pelo qual se conhecia a estação rádio-receptora do Departamento de Correios e Telégrafos. Seu Cezar se achava o dono das mangueiras que cercavam a “rádio”.

 

A rádio-receptora despertava em mim um certo orgulho. Afinal, era ali que o meu pai trabalhava, com o pomposo título de “assessor de eletrônica”. Era através da “rádio” que o Brasil se ligava com o mundo, recebendo telegramas e notícias das agências internacionais. Isso, numa época em que as comunicações se faziam através de ondas curtas, e não por satélites, como hoje. Foi pela “rádio” que - talvez antes mesmo do presidente da República – os pacatos moradores de São Bento ficaram sabendo do fim da Segunda Guerra Mundial. Essa história, quase inacreditável, era contada por João do Caio, que jurava estar junto com os radiotelegrafistas quando a noticia foi transmitida em código Morse.

 

 

 

   

  

         

 

 

Importante local de lazer para aquela pequena comunidade era o São Bento Esporte Clube. Ali, aos sábados e domingos, próximo das 19 horas, começava a esperadíssima seção de cinema. Uma surrada máquina projetora de 16 milímetros rodava velhos filmes que, de tão cortados e emendados, não mais apresentavam lógica em seus roteiros. Mas o que fazer? A televisão ainda estava muito distante de nossas possibilidades de consumo. O forte do clube era mesmo o futebol. O campo do São Bento conheceu tempos gloriosos, com a presença de grandes craques em seu gramado. Em diferentes épocas ali jogaram Garrincha e Roberto Dinamite.

                      

      

 

 

 

 

 

 

                  

                                     

 

Mas independente da presença de famosos jogadores, o campo de futebol do clube era, aos domingos pela manhã, ponto de reunião obrigatória do público masculino que cultivava o viril esporte bretão ou ia para torcer pelo time local.

 

Dependendo do adversário, a partida poderia assumir a feição de um verdadeiro “clássico”. Nesses momentos, o clube se engalanava com a presença maciça da população. Foi num desses “clássicos”, onde os ânimos geralmente se exaltam, que saiu um grande conflito entre as torcidas do São Bento e do Pau Grande. A porrada comeu solta e só foi terminar quando o pessoal do Pau Grande correu para o ônibus e se mandou; mesmo assim, debaixo de apupos, pedradas e pauladas. Essa história até hoje ainda é lembrada pelos mais velhos com um maroto orgulho, revelado num risinho sardônico.

 

São Bento tinha outros heróis, além dos heróis de chuteiras. Um deles, famoso por sua valentia, se consagrara perante a crédula garotada através de um feito que misturava fantasia e realidade. Na verdade mais fantasia que realidade, melhor dizendo: acho que era só fantasia mesmo. Era voz corrente a existência de um misterioso túnel ao pé da colina que ficava próxima do centenário prédio da Fazenda de São Bento. Ninguém se aventurava penetrar nessa misteriosa galeria que, para alguns, servira, nos tempos da escravidão, para dar fuga aos negros cativos.  

 

 

 

Certo dia, Pedro Sinal – esta era a alcunha do herói – resolveu acabar de vez com o mistério que envolvia o escuro e profundo túnel. Afinal queríamos saber o que havia lá dentro e onde terminava aquela medonha gruta. Munido de sua natural coragem e de uma lanterna elétrica, foi penetrando, cautelosamente, nas entranhas do assustador buraco. Já havia percorrido uma distância razoável, quando a lanterna que portava se apagou sem motivo aparente. Impossibilitado de prosseguir e um pouco assustado, Pedro Sinal retrocedeu, deixando atrás de si, sepultados definitivamente, os mistérios do túnel dos escravos e a sua fama de valente. Depois desse fato, ninguém se atreveu a repetir a façanha daquele herói admirado e invejado pela criançada do local.

 

Outra figura inesquecível era a de um homem – prefiro omitir o seu nome – de meia idade, negro, magro, alto e com olhos esbugalhados. Corria a boca pequena, entre a garotada, ser ele um lobisomem. Tínhamos verdadeiro pavor dessa criatura, apesar de ser uma pessoa bem educada e de atitudes simpáticas. Não sei como a lenda surgiu, mas, para nós, moleques crédulos, tudo era verdade.

 

Histórias de lobisomem, padres-fantasmas, mulas-sem-cabeça e saci-pererê, povoaram a infância daqueles que viveram entre o rio Iguaçu e a velha fazenda dos padres beneditinos. Afinal éramos crianças, inocentes e felizes.

 

A “rádio” era uma espécie de enclave dentro de São Bento. O pessoal do Ministério da Agricultura tinha uma espécie de rivalidade, bem disfarçada, em relação aos servidores do DCT, mas nada que pudesse perturbar as relações entre as famílias deste ou daquele órgão.

 

Apesar de São Bento ser quase um paraíso, tinha lá seus pontos negativos. Não existia comércio próximo, tudo era comprado num dos raros armazéns do Lote 8, um local que ficava quase em frente ao Núcleo Colonial de São Bento. Neles só eram encontrados os gêneros básicos e de qualidade apenas sofrível, mas caros pra cacete. Água encanada também não havia, a que tínhamos era de poço e geralmente salobra. Os telegrafistas e os moradores das casas da “radio” bebiam uma água que a caminhonete do DCT apanhava na Cidade das Meninas. A condução também era escassa, irregular nos horários, com ônibus velhos e mal cuidados, excetuando o da empresa que fazia a linha Caxias-Mantiquira, a Duque de Caxias Ltda. E tinha mais um agravante, os coletivos passavam na Rio-Petrópolis, o que obrigava o pessoal do Núcleo Colonial a caminhar pelo menos um quilômetro até o ponto mais próximo. Ir ou voltar para o Colégio Duque de Caxias, onde eu estudava, era algo complicado. Na ida, a condução demorava muito, mas na volta a coisa piorava.  No horário do almoço, os ônibus ficavam estacionados nos pontos próximos da estação ferroviária e do Edifício 25 de Agosto com seus motores ligados, e nós, pobres passageiros, dentro deles esperando, num calor de rachar, não raro, mais de uma hora, até que partissem. Na verdade, poucas eram as empresas organizadas. Geralmente, organizadas mesmo, eram aquelas que ligavam Caxias ao antigo Distrito Federal. Talvez assim fosse devido à fiscalização mais severa que se fazia na capital do país. Interessante é lembrar que os ônibus tinham duas placas, uma de Duque de Caxias e outra do Distrito Federal.

 

Mas nem só de ônibus esculhambados dependiam os moradores de São Bento. Algumas vezes pegávamos uma providencial carona nos carros oficiais ou particulares. Eu, por exemplo, era useiro e veseiro em pegar carona na ambulância Studebaker do Ministério da Agricultura. Ela não carregava doentes, o que era raro em São Bento, mas estudantes, filhos de funcionários que, como eu, seguiam para as suas escolas. O responsável pelo transporte da garotada era o João do Caio. Dirigindo muito bem, João ia voando pela Rio–Petrópolis até Caxias. Adorávamos o modo como ele pilotava a ambulância. João era o nosso Ayrton Senna. Naquele tempo ninguém estava preocupado com limite de velocidade, não havia “pardais”, cinto só para segurar as calças e “lei-seca era coisa de filme de Al Capone.

 

            

                      

 

 

João do Caio, sobre quem já falei, era uma pessoa muito interessante. Se fôssemos “eleger” um cronista para São Bento, sem dúvidas, sairia vencedor. Sabia tudo sobre o Núcleo Colonial, mas tinha uma característica que o impedia de assumir a “historiografia-oral-local”: era um tímido inveterado. Fora, inclusive, motorista de ministros, mas isso não abalava o seu jeitão acanhado. Só uma coisa fazia João alterar o seu ânimo e o tom de voz; era quando falava do PTB, partido que amava de verdade. Era um petebista doente. João morreu recentemente, levando consigo páginas memoráveis da história de São Bento. Uma pena...

         

Agora, carona que eu gostava era a que me oferecia o motorista que servia a um dos donos da Indústria Rei. Além do carro, que era um Tatraplan T603, super aerodinâmico, vinha em seu interior, linda, leve e solta, a louríssima estudante Érika, uma garota muito bonita. A família Engels, dona da Indústria Rei, fabricava chuveiros elétricos e fogões, vivia numa bela casa cercada por muito verde e que possuía uma bela piscina no terraço. O fundo da piscina era de vidro, um vidro muito grosso, vindo da Alemanha. De dentro da casa podia se ver as pessoas nadando no aquário de luxo. Hoje, tudo isso desapareceu e o local foi favelizado, aliás, como foi também São Bento e o Centro Pan-americano de Febre Aftosa.

          

                       

             

 

 

 

 

 

 

 

 

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