A Rio Petrópolis
4 - A Rio-Petrópolis.
A
Avenida Rio-Petrópolis, mais tarde Presidente Kennedy e hoje Leonel Brizola,
foi inaugurada no final dos anos 20 por Washington Luís. Era um luxo na época
e, dizem as más línguas, devorou muito dinheiro público. Chegou a ser chamada
de “estrada de ouro”, tal o volume de
recursos que devorou. Sua construção foi
muito difícil, principalmente no trecho da Baixada Fluminense, devido aos
terrenos lodosos que exigiam consolidação através de demoradas obras de aterro
e de fundações. Além de tudo, a malária, ainda endêmica na região, vitimava um
grande número de trabalhadores, somando novas dificuldades às já existentes.
Mas todo esse esforço hercúleo não foi em vão, pois a Rio-Petrópolis se tornou um dos mais importantes fatores de
sustentação do progresso de Duque de Caxias. Também, não devemos esquecer, que
foi e ainda é motivo de justo orgulho da engenharia nacional e símbolo da
capacidade de realização e tenacidade do trabalhador brasileiro.
Newley
Lopes Martins, empresário já falecido, certa vez, na porta do Bar Elite, contou
para um grupo de amigos esta pequena curiosidade sobre a velha estrada. Disse
ele que Getúlio Vargas, quando se dirigia para Petrópolis, fazia seu motorista
parar e permitir aos meninos - que o esperavam na entrada de Caxias - tomar uma
carona no estribo do veículo até o centro do distrito. É possível que assim
fosse, afinal o ditador tinha atitudes bem populistas. Em Petrópolis, por
exemplo, saía distribuindo balas para as crianças durante suas caminhadas. Que
doce República!
Nos
anos 50, ela não tinha o movimento que tem hoje e, certamente, era muito mais
bonita. Poucas construções existiam em suas margens, quase que totalmente
dominadas por árvores pau-ferro, vegetação baixa e muito verde. Seguindo para
Caxias, logo depois da Indústria Rei, se destacava o Centro Pan-americano de
Febre Aftosa, da Organização Mundial de Saúde. Mais adiante se cruzava o rio
Sarapuí com o seu dique e respectiva “casa da bomba”. Era comum a gente ver
jacarés sobre o dique, se aquecendo com os primeiros raios de sol da manhã que
nascia. Ali, a estação ferroviária de Gramacho era o local mais movimentado da
Rio-Petrópolis. Uma grande construção, bem afastada da estrada, com linhas
arquitetônicas modernas, lembrando a Igreja São Francisco de Assis, na
Pampulha, se destacava. Era a estação rádio-transmissora do DCT. Poucos caxienses sabem que ali
funcionou a Radio Transmissora do Departamento dos Correios e Telégrafos. Mas o
que ela representava para o Brasil, sabe-se menos ainda. Naquele momento, final
dos anos 50, a Transmissora do Sarapuí, era o que havia de mais avançado em
tecnologia de telecomunicações. E, além disso, ela representava uma das faces
da luta nacionalista travada pelo controle das telecomunicações. Sarapuí fora
escolhido para sediar a Transmissora por ser local excepcional para a recepção
em ondas curtas.
Contrastando com a “nossa Pampulha”, numa
construção de madeira na beira da estrada, quase junto do Sarapuí, ficava a
“rádio-escuta”. Com equipamentos que não mais funcionavam, a rádio-escuta era
apenas uma lembrança da Segunda Guerra Mundial. Fora ali instalada para pegar
estações clandestinas que poderiam passar para o Eixo informações sobre nossos
navios. Essa “rádio” possuía uma caminhonete Morris, preta, fechada e cheia de
equipamentos de escuta, mas que, verdadeiramente, só servia para transportar o
chefe daquela inutilidade do governo. Não me lembro o nome desse chefe, sei que
era amigo do meu pai e gostava de me dar a direção da tal caminhonete para
testar os meus dotes de piloto-menino. Eu até que me saia bem, só “amarelando”
na avenida Botafogo, estrada de barro que ligava a Washington Luís ao Sarapuí.
Num determinado trecho tínhamos que atravessar um mata-burro, um pontilhão
formado por dois troncos de árvore paralelamente dispostos. Os veículos
deveriam passar com as quatro rodas, justinho, sobre os dois troncos. Não era
fácil.
Além de
abrigar a “boate” Pampanini, verdadeiro bas-fond,
Gramacho possuía o trecho mais perigoso da Rio-Petrópolis, “a curva da morte”,
uma curva muito fechada que antecedia a subida do “corte 8” . Do outro lado do “corte 8” , isto é, quando se descia a
colina, dois pontos se contrapunham: o cemitério e a Companhia União Manufatora
de Tecidos - um dos marcos da industrialização do município -,
desnecessariamente arrasada, não se sabe por quem. Até as árvores foram
arrancadas. Hoje ali reina o abandono, a desolação. Foi um crime perpetrado
contra o patrimônio histórico e ambiental de nossa cidade. Sobre a Companhia
União Manufatora de Tecidos, o professor Stélio Lacerda escreveu um livro
interessantíssimo, historiando aquele significativo símbolo dos primórdios da
nossa industrialização.
Não
muito longe dali ficava a casa do deputado Tenório Cavalcanti, que ainda não
havia se transformada em fortaleza - projetada por Sérgio Bernardes e com
direito a painéis de Pacot - e era uma habitação comum, não muito diferente das
demais casas construídas pela classe média.
Finalmente,
estávamos no centro de Caxias, e, a primeira coisa que chamava a atenção de
quem vinha pela Rio-Petrópolis era a Igreja de Santo Antônio, ainda em obras.
Mas um pouco antes da Igreja de Santo Antônio havia uma esquina tornada famosa
pelo “trottoir”. Era a “Esquina do Pecado”, Nela as “mulheres da vida” faziam
ponto, mas não só ali. Na rua Nunes Alves e nos terrenos que futuramente
abrigariam o Shopping Center, a prostituição também corria solta. Quando
anoitecia, era para os terrenos do Shopping Center que os homens carentes de
amor levavam as meretrizes. Naquele ermo, sob a luz das estrelas e tendo como
“ninho de amor” uma folha de jornal, satisfaziam aos seus apetites. Por
cobrarem 30 cruzeiros, nós, jovens irreverentes e cruéis, dizíamos serem estas
pobres mulheres “Mulher de 30” ,
em alusão à música que Miltinho estava
cantando e fazia um tremendo sucesso na época.
Nada sobrou da velha fábrica de tecidos, até as árvores foram
arrancadas.
O
próximo ponto interessante era o entroncamento da Rio-Petrópolis com a Nilo
Peçanha. Nesse cruzamento algumas coisas também se destacavam: a Praça 23 de
Outubro, o Banco Itajubá e um semáforo, cujo poste de sustentação era fixado
numa plataforma redonda sobre a qual ficava o guarda da prefeitura (em raras
ocasiões) operando o trambolho quase sempre enguiçado. Do lado oposto ao Banco
Itajubá ficava o Bar Elite, até hoje funcionando e reunindo, próximo de suas
portas, gente da Caxias de antigamente: Renda, Everaldo, Wilson, Silvério,
André da Farmácia; todos eméritos jogadores de “porrinha”. Pelas manhãs era
comum a gente ver ali estacionadas as motocicletas Harley Davidson da Polícia
Rodoviária Federal. Nos anos 50 não existiam ruas para pedestres ou calçadões,
os carros, ônibus, caminhões e carroças imperavam como senhores absolutos das
tumultuadas ruas do município.
Durante
uns dois anos fiz diariamente essa “maratona”, viajando pela Rio-Petrópolis de
São Bento para Caxias e vice-versa.

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