Tuesday, June 03, 2014

A Rio Petrópolis


4 - A Rio-Petrópolis.

 

 

 

 

A Avenida Rio-Petrópolis, mais tarde Presidente Kennedy e hoje Leonel Brizola, foi inaugurada no final dos anos 20 por Washington Luís. Era um luxo na época e, dizem as más línguas, devorou muito dinheiro público. Chegou a ser chamada de “estrada de ouro”, tal o volume de recursos que devorou.  Sua construção foi muito difícil, principalmente no trecho da Baixada Fluminense, devido aos terrenos lodosos que exigiam consolidação através de demoradas obras de aterro e de fundações. Além de tudo, a malária, ainda endêmica na região, vitimava um grande número de trabalhadores, somando novas dificuldades às já existentes. Mas todo esse esforço hercúleo não foi em vão, pois a Rio-Petrópolis  se tornou um dos mais importantes fatores de sustentação do progresso de Duque de Caxias. Também, não devemos esquecer, que foi e ainda é motivo de justo orgulho da engenharia nacional e símbolo da capacidade de realização e tenacidade do trabalhador brasileiro.

       

Newley Lopes Martins, empresário já falecido, certa vez, na porta do Bar Elite, contou para um grupo de amigos esta pequena curiosidade sobre a velha estrada. Disse ele que Getúlio Vargas, quando se dirigia para Petrópolis, fazia seu motorista parar e permitir aos meninos - que o esperavam na entrada de Caxias - tomar uma carona no estribo do veículo até o centro do distrito. É possível que assim fosse, afinal o ditador tinha atitudes bem populistas. Em Petrópolis, por exemplo, saía distribuindo balas para as crianças durante suas caminhadas. Que doce República!

       

Nos anos 50, ela não tinha o movimento que tem hoje e, certamente, era muito mais bonita. Poucas construções existiam em suas margens, quase que totalmente dominadas por árvores pau-ferro, vegetação baixa e muito verde. Seguindo para Caxias, logo depois da Indústria Rei, se destacava o Centro Pan-americano de Febre Aftosa, da Organização Mundial de Saúde. Mais adiante se cruzava o rio Sarapuí com o seu dique e respectiva “casa da bomba”. Era comum a gente ver jacarés sobre o dique, se aquecendo com os primeiros raios de sol da manhã que nascia. Ali, a estação ferroviária de Gramacho era o local mais movimentado da Rio-Petrópolis. Uma grande construção, bem afastada da estrada, com linhas arquitetônicas modernas, lembrando a Igreja São Francisco de Assis, na Pampulha, se destacava. Era a estação rádio-transmissora do DCT. Poucos caxienses sabem que ali funcionou a Radio Transmissora do Departamento dos Correios e Telégrafos. Mas o que ela representava para o Brasil, sabe-se menos ainda. Naquele momento, final dos anos 50, a Transmissora do Sarapuí, era o que havia de mais avançado em tecnologia de telecomunicações. E, além disso, ela representava uma das faces da luta nacionalista travada pelo controle das telecomunicações. Sarapuí fora escolhido para sediar a Transmissora por ser local excepcional para a recepção em ondas curtas.

 

 Contrastando com a “nossa Pampulha”, numa construção de madeira na beira da estrada, quase junto do Sarapuí, ficava a “rádio-escuta”. Com equipamentos que não mais funcionavam, a rádio-escuta era apenas uma lembrança da Segunda Guerra Mundial. Fora ali instalada para pegar estações clandestinas que poderiam passar para o Eixo informações sobre nossos navios. Essa “rádio” possuía uma caminhonete Morris, preta, fechada e cheia de equipamentos de escuta, mas que, verdadeiramente, só servia para transportar o chefe daquela inutilidade do governo. Não me lembro o nome desse chefe, sei que era amigo do meu pai e gostava de me dar a direção da tal caminhonete para testar os meus dotes de piloto-menino. Eu até que me saia bem, só “amarelando” na avenida Botafogo, estrada de barro que ligava a Washington Luís ao Sarapuí. Num determinado trecho tínhamos que atravessar um mata-burro, um pontilhão formado por dois troncos de árvore paralelamente dispostos. Os veículos deveriam passar com as quatro rodas, justinho, sobre os dois troncos. Não era fácil.  

 

Além de abrigar a “boate” Pampanini, verdadeiro bas-fond, Gramacho possuía o trecho mais perigoso da Rio-Petrópolis, “a curva da morte”, uma curva muito fechada que antecedia a subida do “corte 8”. Do outro lado do “corte 8”, isto é, quando se descia a colina, dois pontos se contrapunham: o cemitério e a Companhia União Manufatora de Tecidos - um dos marcos da industrialização do município -, desnecessariamente arrasada, não se sabe por quem. Até as árvores foram arrancadas. Hoje ali reina o abandono, a desolação. Foi um crime perpetrado contra o patrimônio histórico e ambiental de nossa cidade. Sobre a Companhia União Manufatora de Tecidos, o professor Stélio Lacerda escreveu um livro interessantíssimo, historiando aquele significativo símbolo dos primórdios da nossa industrialização. 

 

Não muito longe dali ficava a casa do deputado Tenório Cavalcanti, que ainda não havia se transformada em fortaleza - projetada por Sérgio Bernardes e com direito a painéis de Pacot - e era uma habitação comum, não muito diferente das demais casas construídas pela classe média.

 

Finalmente, estávamos no centro de Caxias, e, a primeira coisa que chamava a atenção de quem vinha pela Rio-Petrópolis era a Igreja de Santo Antônio, ainda em obras. Mas um pouco antes da Igreja de Santo Antônio havia uma esquina tornada famosa pelo “trottoir”. Era a “Esquina do Pecado”, Nela as “mulheres da vida” faziam ponto, mas não só ali. Na rua Nunes Alves e nos terrenos que futuramente abrigariam o Shopping Center, a prostituição também corria solta. Quando anoitecia, era para os terrenos do Shopping Center que os homens carentes de amor levavam as meretrizes. Naquele ermo, sob a luz das estrelas e tendo como “ninho de amor” uma folha de jornal, satisfaziam aos seus apetites. Por cobrarem 30 cruzeiros, nós, jovens irreverentes e cruéis, dizíamos serem estas pobres mulheres “Mulher de 30”, em alusão à música que Miltinho estava  cantando e fazia um tremendo sucesso na época.

 

 

 

 

 

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Nada sobrou da velha fábrica de tecidos, até as árvores foram arrancadas.

 

 

O próximo ponto interessante era o entroncamento da Rio-Petrópolis com a Nilo Peçanha. Nesse cruzamento algumas coisas também se destacavam: a Praça 23 de Outubro, o Banco Itajubá e um semáforo, cujo poste de sustentação era fixado numa plataforma redonda sobre a qual ficava o guarda da prefeitura (em raras ocasiões) operando o trambolho quase sempre enguiçado. Do lado oposto ao Banco Itajubá ficava o Bar Elite, até hoje funcionando e reunindo, próximo de suas portas, gente da Caxias de antigamente: Renda, Everaldo, Wilson, Silvério, André da Farmácia; todos eméritos jogadores de “porrinha”. Pelas manhãs era comum a gente ver ali estacionadas as motocicletas Harley Davidson da Polícia Rodoviária Federal. Nos anos 50 não existiam ruas para pedestres ou calçadões, os carros, ônibus, caminhões e carroças imperavam como senhores absolutos das tumultuadas ruas do município.

Durante uns dois anos fiz diariamente essa “maratona”, viajando pela Rio-Petrópolis de São Bento para Caxias e vice-versa.

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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