Tuesday, June 03, 2014



7 - Uma cidade explosiva
 
 
 
A Caxias de antigamente, ou melhor, dos anos 50 e 60, fervilhava ao refletir o panorama politicamente conturbado do Brasil. É bom notar que a cidade era tipicamente proletária, formada por migrantes, em sua maioria do nordeste brasileiro ou do norte fluminense. Gente humilde, trabalhadora e ordeira, mas consciente da omissão das autoridades municipais em relação às necessidades básicas de um município que crescia veloz e desordenadamente. Por outro lado, essa gente era explorada por patrões que, em muitos casos, burlavam as leis trabalhistas. O comerciário, por exemplo, era submetido a uma jornada de trabalho, em alguns casos, superior a 12 horas diárias, de segunda a sábado.
 
Mas toda a efervescência política da cidade era "camuflada" pelas manchetes escandalosas de "Luta Democrática" e de "O Dia", que preferiam estampar na primeira página, em letras garrafais, assassinatos, estupros e acidentes horrorosos. O "Quarto Poder" explorava o lado "folclórico", no mau sentido, de uma cidade em que a luta de classe era indisfarçável.
Tenório sempre foi apresentado ao público como um pistoleiro do “Velho Oeste”, um autêntico Billy the Kid. Jamais a imprensa dos idos de 50 e 60 procurou esclarecer que a luta entre Tenório e Amaral Peixoto se fazia em função de disputas políticas. Aliás, sempre se omitiu essa luta que envolvia os interesses conflitantes dos partidos aliados a Getúlio Vargas (PTB/PSD) e a oposição representada pela UDN, do deputado de Caxias. E foi essa luta sem trégua que criou para o deputado a fama de pistoleiro, aliás, fama que o deputado soube explorar em seu favor. Não exatamente como pistoleiro, mas como justiceiro. O chapéu de copa alta e aba curta, a barbicha e a sisudez davam a Tenório um aspecto diabólico. Sua capa preta, espécie de toga, que na prática servia para esconder suas armas e que na percepção popular representava o manto da justiça, criariam um eficiente marketing para si. Para completar a imagem, um Cadillac amarelo, conversível, servia-lhe de condução. A “fortaleza”, localizada na Rio-Petrópolis, era o castelo inexpugnável do teatral político. Sua figura, convenhamos, se aproximava muito daquelas vindas das histórias em quadrinhos. Duque de Caxias era a nossa Gotham City. Tenório era o nosso Batman, com batcaverna e batmóvel. Valha-nos Deus. 
 
Não foram poucos os atentados que Tenório sofreu dos sicários de Amaral Peixoto. Albino Imparato e Bereco chegaram em Caxias com o objetivo de “infernizar” a vida do deputado. A dupla aterrorizou a cidade e causou muitos incômodos para Tenório, mas acabaria pagando caro pela ousadia. A justiça “divina” tarda, mas não falha.
 
 

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