7 - Uma
cidade explosiva
A
Caxias de antigamente, ou melhor, dos anos 50 e 60, fervilhava ao refletir o
panorama politicamente conturbado do Brasil. É bom notar que a cidade era
tipicamente proletária, formada por migrantes, em sua maioria do nordeste brasileiro
ou do norte fluminense. Gente humilde, trabalhadora e ordeira, mas consciente
da omissão das autoridades municipais em relação às necessidades básicas de um
município que crescia veloz e desordenadamente. Por outro lado, essa gente era
explorada por patrões que, em muitos casos, burlavam as leis trabalhistas. O
comerciário, por exemplo, era submetido a uma jornada de trabalho, em alguns
casos, superior a 12 horas diárias, de segunda a sábado.
Mas
toda a efervescência política da cidade era "camuflada" pelas
manchetes escandalosas de "Luta Democrática" e de "O Dia",
que preferiam estampar na primeira página, em letras garrafais, assassinatos,
estupros e acidentes horrorosos. O "Quarto
Poder" explorava o lado "folclórico", no mau sentido, de uma
cidade em que a luta de classe era indisfarçável.
Tenório
sempre foi apresentado ao público como um pistoleiro do “Velho Oeste”, um
autêntico Billy the Kid. Jamais a imprensa dos idos de 50 e 60 procurou
esclarecer que a luta entre Tenório e Amaral Peixoto se fazia em função de
disputas políticas. Aliás, sempre se omitiu essa luta que envolvia os
interesses conflitantes dos partidos aliados a Getúlio Vargas (PTB/PSD) e a
oposição representada pela UDN, do deputado de Caxias. E foi essa luta sem
trégua que criou para o deputado a fama de pistoleiro, aliás, fama que o
deputado soube explorar em seu favor. Não exatamente como pistoleiro, mas como
justiceiro. O chapéu de copa alta e aba curta, a barbicha e a sisudez davam a
Tenório um aspecto diabólico. Sua capa preta, espécie de toga, que na prática
servia para esconder suas armas e que na percepção popular representava o manto
da justiça, criariam um eficiente marketing
para si. Para completar a imagem, um Cadillac amarelo, conversível, servia-lhe
de condução. A “fortaleza”, localizada na Rio-Petrópolis, era o castelo
inexpugnável do teatral político. Sua figura, convenhamos, se aproximava muito
daquelas vindas das histórias em quadrinhos. Duque de Caxias era a nossa Gotham
City. Tenório era o nosso Batman, com batcaverna e batmóvel. Valha-nos
Deus.
Não
foram poucos os atentados que Tenório sofreu dos sicários de Amaral Peixoto.
Albino Imparato e Bereco chegaram em Caxias com o objetivo de “infernizar” a
vida do deputado. A dupla aterrorizou a cidade e causou muitos incômodos para
Tenório, mas acabaria pagando caro pela ousadia. A justiça “divina” tarda, mas
não falha.

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