Mudando para o Edifício 25 de Agosto
5 - Mudando para o
Edifício
25 de Agosto.
Um dia
o “velho” Etienne Xavier da Cunha, meu pai, se cansou das tarefas extras e da
falta de recursos em São Bento. Embora fosse responsável apenas pela manutenção
dos equipamentos de telecomunicação, o que já era bastante, por ser morador de
uma das duas casas que o DCT mantinha nos terrenos da “rádio”, era obrigado a
trabalhar quase que 24 horas por dia. Se faltasse luz, por causa de um
temporal, ou por outro motivo qualquer, era obrigado a sair de casa, em alguns
casos, de madrugada e colocar em funcionamento um gerador movido por motor
diesel, cuja partida era dada com uma manivela pesadíssima. Assim sendo,
resolveu se mudar para o centro de Caxias. Escolheu para a futura residência o
edifício 25 de Agosto, naquele momento recém-inaugurado. Nosso apartamento
ficava na Plínio Casado, bem em frente à estação ferroviária. Era uma
residência razoavelmente confortável, bem localizada, mas com um grave
inconveniente, não tinha abastecimento regular de água, e a pouca que escorria
das torneiras era fornecida por carros-pipa. Duas vezes por dia, pela manhã e
ao entardecer, Teófilo, o zelador, ligava a bomba para que enchêssemos baldes,
latas e uma pequena caixa que instaláramos como reserva. Esse improvisado
abastecimento era insuficiente para as mínimas necessidades. Maus tempos.
Mesmo
assim, morar no centro era uma grande vantagem. Tudo ficava perto: padaria,
armazém, farmácia, colégio e, principalmente, os cinemas. Eu adorava cinema e
tinha, bem próximo de minha casa, pelo menos três boas salas de projeção, o
Paz, o Caxias e o Brasil. Estudantes pagavam meia entrada e os programas eram
duplos, víamos dois filmes pelo preço de um. Muitas vezes a gente saía de um
cinema e entrava em outro, vendo no mesmo dia quatro filmes. O Paz era o que
apresentava os filmes que estavam em cartaz nos cinemas do Rio. O
Nosso apartamento ficava na Plínio Casado, bem em frente à estação
ferroviária.
Caxias
tinha o melhor som, em estereofonia, era, de todos, o maior. O Brasil, modesto,
com filmes mais antigos, mas nem por isso dispensável. Foi no Brasil que vi um
filme fascinante: Trapézio, dirigido por Carol Reed e estrelado por Burt
Lancaster, Gina Lollobrigida e Tony Curtis. Era um filme sobre o mundo do
circo, enfocando a atuação dos trapezistas. Imaginem o “estrago” que
Lollobrigida fez na minha cabeça, com aquele bocão e aquele corpão.
Quando
falei dos cinemas fui injusto. Me esqueci do Cinema Popular, ou melhor, do
Pau-de-Arara, como era conhecido pelo distinto público que o freqüentava. O
Popular, ou Pau-de-Arara, como queiram, ficava no nº 145 da Nilo Peçanha, onde
hoje está localizada uma das filiais das Lojas Americanas. Suas sessões
começavam quando a noite chegava, pois ficava ao ar livre. Era uma espécie de
“drive-in” proletário, de quem andava a pé, quando muito de bicicleta. Com um
pouco de exagero, poderíamos dizer que foi o precursor daqueles cinemas em que
as fitas eram assistidas pelos casais dentro dos automóveis dando aquele
amasso.
Embora
com modestíssimas instalações, o Popular possuía um som excelente, projeção de
boa qualidade e uma programação que não era de se jogar fora. Era freqüentado
apenas pelo público masculino, devido à “permissividade” que ali reinava. Em
seu “território livre” quase tudo era permitido, desde que não ultrapassasse os
limites admitidos pelo guarda Pisa na Fulô, encarregado de manter a ordem e os
bons costumes dentro daquele espaço dedicado à “sétima arte”. O pobre servidor
municipal adquirira esse apelido devido aos calos e cravos que, martirizando os
seus pés, obrigavam-no a andar manquejando, assim, meio como quem pisa em ovos
ou em “fulôs”. A alcunha, que lhe assentara como uma luva, caíra no gosto
popular e difundira-se. Como não podia deixar de ser, chamar o guarda de Pisa
na Fulô, fazia o caboclo nordestino ficar roxo de raiva. Não foram poucas as
vezes que retirou do cinema, sob fortes “borrachadas”, algum engraçadinho que,
durante a sessão, acreditando-se protegido pela penumbra, ficara gritando o seu
gracioso apelido: “Pisa na Fulô...Pisa na Fulô...Pisa na Fulô...”.É bom lembrar
que “Pisa na Fulô” era um baião cantado por Luiz Gonzaga.
Mas
apesar da liberdade, ou melhor, libertinagem, que ali grassava, tudo corria
dentro de relativa normalidade, desde que o filme não arrebentasse, obrigando a
interrupção da sessão ou o programa fosse do interesse da platéia. Caso
contrário, as manifestações de desagrado eram demonstradas claramente através
de vôos rasantes de pontas de cigarros acesas sobre as cabeças dos cinéfilos,
sacos plásticos com areia ou algo menos útil e menos cheiroso. Mas ninguém se
zangava - fazia parte do jogo - no máximo, as pessoas tentavam se livrar dos
petardos e, como vingança, devolvê-los aos seus legítimos proprietários.
Algumas vezes - mesmo o filme sendo do interesse da assistência -, a disciplina
poderia ser quebrada. Isso acontecia quando algum morador da “Galeria dos
Morcegos”, edifício de apartamentos vizinho ao Pau de Arara, acendia a lâmpada
de sua varanda, prejudicando a projeção. Nesse momento os palavrões, tal como
as balas dos revólveres do “mocinho”, ricocheteavam por todos os lados,
disparados a plenos pulmões pelo seleto público.
Das
sacadas de seus apartamentos, das quais se tinha uma visão privilegiada dos
filmes que eram projetados, permaneciam as famílias, de maneira confortável e
graciosamente, assistindo às sessões. Inconformados, aqueles que haviam pago o
ingresso ficavam provocando a vizinhança. “Casquinha” era a palavra menos
ofensiva dirigida aos moradores caroneiros.
Mesmo
quando chovia, a sessão prosseguia normalmente – ou quase. Nessas ocasiões
corríamos todos para as laterais do cinema que eram cobertas por uma espécie de
marquise de folhas de zinco. Perdíamos o “conforto” dos bancos de madeira, mas,
pelo menos, podíamos ver, abrigados da chuva, o indefectível “happy end”.
Quanta emoção, a chuva tamborilando no telheiro de zinco e o mocinho,
finalmente, num extremo ato de coragem, beijando a sua eleita.
O cinema
foi o paraíso dos “gazeteiros” do Ginásio Ana Maria Gomes, que, mesmo ali
dentro, eram impiedosamente caçados pelos monitores do professor Américo
Salgado. O Popular foi imbatível num momento em que o cinema era a “maior
diversão”. Tinha mais prestígio que a televisão. Além disso, os vídeos nem
haviam sido inventados. Mas quando a “novela das oito” começou a superar o
“western”, o Pau de Arara foi vendido para as Casas da Banha, que ali
instalaram mais uma filial. John Wayne, definitivamente, fora vencido por
Tarcísio Meira. Era a nossa vitória sobre o imperialismo Yankee. Que
vitória. Era o fim.
O Pau
de Arara desapareceu, e com ele, um tempo em que o filme era assistido
coletivamente, em tela gigante, no escurinho, ao lado da namorada e chupando
“drops de anis”, como na canção da tia Rita Lee.

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