Wednesday, October 07, 2015

.: 11 de Setembro foi uma Farsa - Afirmam Cientistas

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Colocar explosivo nos prédios altos para que, em caso de altas vibrações, eles não caiam sobre os que estão em volta? Que negócio estranho. Autodestruição?

Saturday, June 14, 2014


13 -A cidade partida

 

Não aquela cidade do livro do Zuenir Ventura, onde de um lado está acampada a violência e do outro a sociedade civil se mobilizando para sobreviver ao crime.

 

Não, a nossa era, felizmente, partida apenas geograficamente. Melhor dizendo, era partida pela estrada de ferro Leopoldina. Isso durou até o governo do prefeito Francisco Correia, quando o viaduto da rua Paulo Lins ainda não havia sido construído. Claro que a construção de um viaduto, atravessando a linha do trem era, para a época, algo arrojado. Muitos diziam que ele não iria suportar o grande movimento de carros, ônibus e caminhões. Para provar que sua obra era segura, Chico Correia arranjou um caminhão e encheu-o com areia, pendurado no estribo do veículo, atravessou triunfalmente o viaduto que construíra. Agora a oposição não tinha mais o que falar.

 

 

                     

                                   Prefeito Francisco Corrêa

Mas antes da construção do viaduto, o lado da Praça do Pacificador se comunicava com o outro lado, o da feira, através de cancelas. No centro, essas cancelas começavam na Plínio Casado ou na Rio-Petrópolis, cruzando a linha do trem, davam acesso à Avenida Duque de Caxias ou Presidente Vargas. Da Praça do Pacificador até o cemitério, tínhamos quatro ou cinco cancelas. Havia uma, a principal, que ficava nas imediações do Bar Assunção, onde hoje está a C&A, que já foi Cine Paz.

 

Desnecessário é dizer que eram perigosíssimas. Muitos desastres ali aconteceram, alguns com perda de preciosas vidas. Um desses acidentes, e que me chocou bastante, foi o que vitimou seu Antônio, um corretor de imóveis, oriundo de Itaperuna, nosso amigo, sessentão, corpulento e muito bem humorado.

Foram muitas as desgraças acontecidas nas famigeradas cancelas. Mas o tragicômico aconteceu com Pernambuco, um peixeiro muito conhecido por suas bebedeiras. Certo dia, depois de uma de suas carraspanas, caiu na linha do trem, veio o “mata-sapo” e decepou-lhe uma das pernas. Recuperado do acidente, tomou outro porre, caiu na linha e, novamente, o “mata-sapo” arrancou-lhe a perna que sobrara. Pernambuco podia ser visto, já velho, morando de favor num dos boxes do Mercado São Miguel, onde hoje funciona o Shopping Ela. Foi essa a história que me contaram, se não for verdade...queiram me desculpar.

 

 

 

                        

                           O viaduto uniu a cidade partida.

 

Mas não só desgraças essas passagens de nível ofereciam. Uma havia, quase em frente à casa do Tenório, que desembocava no “Buraco do Bené”, um barzinho muito pequeno, mas famoso por suas comidinhas: caranguejos, tripas de porco, moelas de galinha e cachaças.

 A turma do sereno se reunia no local para degustar os crustáceos, devidamente acompanhados de “cervas” geladíssimas e de “água que passarinho não bebe” e que, em alguns momentos, tem o poder de “amansar corno”. As paredes do Buraco eram enfeitadas com cascas de caranguejos devidamente assinadas por seus degustadores. A higiene não era o ponto forte do estabelecimento. Vez por outra, um ratinho passava, fazendo a alegria da freguesia, exclusivamente masculina. Os tabuleiros com os salgadinhos, expostos à sanha dos glutões, eram freqüentemente visitados por mimosas baratinhas, muito graciosas e envernizadinhas, essas que as mulheres chamam de francesinhas.

Banheiro não havia; quando a bexiga apertava, a gente se aliviava na linha do trem. Que perigo!

 

Eu, Barboza, Menezes e outros amigos noctívagos, para fugirmos da rotina do Garoto Fluminense, algumas vezes acampávamos por lá. Era divertido. De fato, Nelson Pereira dos Santos, diretor do filme “O Amuleto de Ogum”, tinha razão ao afirmar que Caxias era a capital cultural do Brasil. Era mesmo, hoje não sei.

 

. Um dia, entusiasmado com o sucesso do “Buraco”, Bené resolveu mudar o estabelecimento para um lugar maior, menos escondido e que pudesse oferecer mais conforto à sua fiel clientela. Não prestou, perdeu a graça, virou mais uma dessas lanchonetes horrorosas. Aí o povo, na sua inteligente crueldade, começou a chamar o local de “Buracão do Bené”. Não durou muito, em pouco tempo o “Buracão” fechou.

Naquele tempo Caxias era assim, de repente aparecia um bar novo, com uma “cenografia” diferente que iria atrair os noctívagos, boêmios e afins. Bares e restaurantes tinham charme, reuniam gente interessante, com papo-cabeça. Hoje vejo essas lanchonetes “chinesas”, horrorosas, com o pessoal se espremendo para comer aquele pastel cheio de óleo, espalhando gordua para todos os lados. Nesses estabelecimentos ninguém se conhece, não sabemos quem é o dono e o funcionamento obedece ao horário comercial. Neles não há lugar para o noctívago, para aquele que deseja apenas fazer hora. Só uma coisa me faz perdoar esses exóticos estabelecimentos: é o combate que dão aos “festifudes” tipo “Maquidonalde”- ainda mais burocráticos e frios -, que hibernam nas praças de alimentação dos shoppings.

Fato curioso, também, são os funcionários, chineses e cearenses se esfalfando para empanturrar a clientela com pastéis, coxinhas de galinha, joelhos de porco, caldo de cana, Coca-Cola e água de coco. Esse reencontro étnico, entre antigos e novos migrantes da Ásia, dentro de uma lanchonete, só poderia mesmo acontecer no Patropi.

 

Claro está que hoje temos casas oferecendo shows, mas tudo muito comercial, carregado de decibéis, luzes ofuscantes e com menininhos e menininhas de classe média exibindo aquelas tatuagens breguíssimas. Hoje quem passa pelas imediações do Shopping Center ou da UNIGRANRIO vê aquele montão de gente comendo, bebendo em meio a música funkeira, esporrenta, vinda dos falantes dos carros dos alunos. 

Aquele local onde rolava o papo-cabeça, onde se curtia uma espécie de solidão acompanhada e onde todas as noites derrubávamos o governo, desapareceu. Tudo mudou, nem ditaduras explícitas temos mais para derrubar. As lanchonetes, com seus incômodos banquinhos e “ficha no caixa”, iriam tomar o lugar dos aconchegantes botequins, com suas mesas, garçons e contas no “pendura”.

 Aqui, a “era” das lanchonetes parece ter começado com a inauguração da Las Vegas, que ficava de cara para a Praça do Pacificador. A novidade foi muito bem aceita pelo público. A Las Vegas obedecia a uma “racionalidade” típica dos grandes centros e dos novos tempos. Tudo muito bem iluminado, funcionários uniformizados, as mercadorias expostas em tabuleiros lembrando um jogo de xadrez. As coisas eram arrumadinhas e tão quadradinhas quanto a clientela que freqüentava o estabelecimento para saborear o misto quente, o sundae e a banana split. O clima que ali reinava não permitia longos papos; bebida, só acompanhada de comida. Quem desejasse “fazer hora” que fosse para fora do estabelecimento. Nem mesmo próximos de suas portas a presença de grupinhos era bem vista.  Mas elas foram vencendo e assim surgiu a “Mexicana”, o Solmar e outras mais. Os grandes restaurantes, como o Oceano e o Cruz de Malta acabaram banidos pela “racionalidade” dos “festifudes”.

Nos anos 70, durante o governo Renato Moreira, foi construído o viaduto do Centenário, unindo a cidade partida e acabando definitivamente com as perigosas cancelas.

Tuesday, June 03, 2014


12 - A feira

 

 

 

Já que estamos nas proximidades da Praça do Pacificador, por que não lembrar a feira de domingo?

Quando fui morar em Caxias, a feira já não era mais o que fora nos anos 40. Mudara muito e, segundo os antigos, para pior. Ouvia falar que nos tempos áureos ela era tal e qual a feira de Caruaru. Ali se vendia de tudo, inclusive gado. Era tipicamente nordestina; é bom lembrar que a feira de São Cristóvão ainda não existia. Nordestino que se prezasse, fosse ele deputado da Capital Federal ou um simples porteiro de algum edifício da zona sul do Rio de Janeiro, domingo partia para Caxias em busca das coisas que só encontraria em suas terras de origem: rapadura, farinha da boa, cachaça de Pernambuco ou da Paraíba, ave de arribação, carne-de-sol, manteiga-de-garrafa  e comidinhas da Bahia: acarajé, abará, caruru, vatapá e mungunzá, feitas por negras em alvíssimas vestimentas típicas. Também se podia escutar violeiros fazendo desafios, cantando martelos agalopados e vendedores de folhetos que contavam as histórias de Joãozinho e Mariquinha, de Pedro Malazarte, do Pavão Misterioso, de Carlos Magno e os Doze Pares de França, as “pelejas” do Cego Aderaldo com o Zé Pretinho e também os versos desconcertantes do
Zé Limeira.

                              O Marechal Floriano

Antes de entrar pra Marinha

Perdeu tudo quanto tinha

Numa aposta com um cigano

Foi vaqueiro vinte ano

Fora os dez que foi sargento

Nunca saiu do convento

Nem pra lavar a corveta

Pimenta só malagueta

Diz o Novo Testamento!

Impressionante mesmo era ver e ouvir um sanfoneiro cego que através de uma engenhoca, muito bem construída, se acompanhava com uma verdadeira bateria comandada pelos seus pés. Ao lado, sua companheira ia recolhendo as moedas que os passantes lhe atiravam.

A feira de Caxias transcendia os estreitos limites do tempo e do espaço presentes, projetando-se para épocas e “distâncias infinitas”, como diria Barboza Leite. Nela, imagens atemporais poderiam surgir inesperadamente, insinuando, caoticamente, rastros medievos, renascentistas ou futuristas. Cores, sons e movimentos se misturavam, compondo uma ópera louca iluminada pelo sol morno da manhã.

Moleque, ainda na adolescência, foi ali que me iniciei na numismática. Partia religiosamente, todos os domingos, para comprar moedinhas antigas que eram vendidas num terreno baldio que ficava em frente ao Mercado Municipal. Lá se comercializava de tudo, inclusive pássaros silvestres (papagaios eram disputadíssimos), tartarugas, calangos, cabritos, porcos e peixinhos de aquário. Hoje é crime. Antes, não era; hoje, já era.

 

Mas a numismática não era o único atrativo que a feira me oferecia. A barraca de discos do Chico também me virava a cabeça.  Num desengonçado tabuleiro que ficava armado em frente as escadas da estação ferroviária, Chico amontoava pilhas e mais pilhas de velhos discos de 78 rotações. Alguns desses discos remontavam à época das gravações mecânicas. Ali, a freguesia se acotovelava no diminuto espaço do tabuleiro para examinar aquelas raridades.

 Num cantinho, sob a canina vigilância do Chico, ficavam os cobiçados long-plays. Em matéria de discos, os LPs representavam o máximo em tecnologia, eram novidade. Deles, Chico não deixava que nos aproximássemos. Ele próprio fazia questão de exibi-los e, na medida que mostrava os discos, fazia comentários sobre as músicas, os intérpretes a gravadora etc. Podemos dizer que esses comentários funcionavam como uma crítica canhestra, mas que, em muitos casos, ajudava o freguês a se decidir.

Na outra extremidade da barraca, Vicente - um mulato magrinho, monossilábico e sempre equilibrando uma guimba de cigarro no canto da boca – gerenciava a “seção de 78 rotações”.

 

Foi nesse saboroso ambiente de raridades e novidades que comecei a formar a minha “discoteca”. Meu primeiro disco (meu mesmo, comprado com o curto dinheiro da mesada) foi um 78 rotações de Glenn Miller. Era um disco de selo vermelho, se não me engano da RCA-Victor. Realizada a compra, meti o disco debaixo do braço e fui direto para  casa. Num só fôlego subi os três lances de escadas do edifício 25 de Agosto e, como quem vai apagar incêndio, entrei na pequena sala de nosso apartamento. Coloquei o disco na “aparelhagem de som” e comecei a ouvir os primeiros acordes de “Chattanooga Choo Choo”, tocada pela famosíssima orquestra de Glenn Miller. Passei o domingo todo escutando aquela melodia que ainda hoje trago bem guardada na memória. A feira era isso: um mundo fabuloso, dentro de nosso pequeno mundo.

 

O grande menestrel da feira de Caxias foi Barboza Leite, ele próprio nordestino, cearense de Uruoca. Fez um folheto belíssimo intitulado “A Grande Feira de Duque de Caxias”. Aqui está um pedacinho dessa jóia:

 

“A feira é um panorama

de efeito gigantesco

feito de sonhos e dramas

tangenciando o dantesco.

Também nela o grotesco

se alia ao maravilhoso

como o mendigo andrajoso

que esmola não pede, exige

e, aos circunstantes aflige

com seu aspecto horroroso.”

 

11-Sarapuí, ouvindo o mundo e falando para as estrelas

 

                                                                    

 

 

        Até a década de 80, quem atravessasse a ponte sobre o Sarapuí, no Gramacho, em direção ao São Bento, e olhasse para a esquerda, veria ao longe uma construção imponente e moderna, que lembrava a  famosa Pampulha, projetada por Oscar Niemeyer. Atualmente ela não pode mais ser vista, foi escondida pelas habitações precárias construídas nas margens do Sarapuí.

        Poucos caxienses sabem que ali funcionou a Radiotransmissora do Departamento dos Correios e Telégrafos. Mas o que ela representava para o Brasil, sabe-se menos ainda. Naquele momento, final dos anos 50, a Radiotransmissora do Sarapuí, era o que havia de mais avançado em tecnologia de telecomunicações.  Além disso, ela simbolizava uma das faces da “feroz” luta nacionalista travada pelo controle das telecomunicações.

        Sarapuí fora escolhido para sediar a Radiotransmissora por ser local excepcional para a recepção em ondas curtas. Não custa lembrar também que ali, bem junto da estrada Rio-Petrópolis, se localizava a “radio-escuta”, uma repartição governamental que tinha como objetivo descobrir emissoras pró-nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. Mais além, no quilômetro 8, ficava o Núcleo Colonial de São Bento, nele estava sediada a Rádioreceptora do Departamento de Correios e Telégrafos (DCT). Como se pode ver, Duque de Caxias sediava um importantíssimo complexo de estações rádiotelegráficas. Todo e qualquer telegrama, obrigatoriamente, passava por nosso município.

Contava João do Caio, antigo funcionário do Ministério da Agricultura, que os moradores do Núcleo Colonial foram os primeiros a saber do término da Segunda Guerra Mundial, informados pelos rádiotelegrafistas que no momento operavam os aparelhos de ondas curtas.  A Radiotransmissora e a Radioreceptora eram tão importantes para a “segurança nacional” que qualquer obnubilação do panorama político ou social, no país, levava o governo a enviar tropas do Exército para as duas repartições do DCT. Essas medidas visavam impedir que as comunicações fossem interrompidas por possíveis atentados ou sabotagens. Quando morei no Núcleo Colônial, vi, pelo menos, por três vezes, desembarcarem dos caminhões do Exercito dezenas de soldados que, ato contínuo, cercavam o edifício, “art déco”, em pó de pedra, que abrigava os pesados receptores RCA-Victor.

        Mas deixemos a Radioreceptora nas brumas do esquecimento e vamos voltar para a sua coirmã do Sarapuí.

A Radiotransmissora do Sarapuí fora construída para atender às disposições do Plano Postal Telegráfico, num momento em que o Brasil procurava recuperar o atraso vivido por suas telecomunicações.

Independente de outros fatores, esse atraso fora agravado pela guerra . As empresas estrangeiras, que forneciam equipamentos de telecomunicações, haviam se voltado para as necessidades imediatas geradas pelo conflito e, além disso, muitas delas foram destruídas ou desativadas.

        Mas a guerra também trouxera para o Brasil o aumento das exportações de produtos primários e da própria produção de manufaturados para o consumo interno. O Brasil crescia, mas sem manter correspondência com as telecomunicações. Na impossibilidade de se importar equipamentos para suprir as necessidades ensejadas pelo desenvolvimento econômico, íamos solucionando o problema com ações improvisadas. Assim, o que restara dos nossos equipamentos de telecomunicações foi sendo deteriorado, sucateados. Agravava ainda mais o problema as restrições impostas pela política econômica adotada no país, além das tarifas postais defasadas.

        Ao final dos anos 50, as telecomunicações viviam, aqui, uma situação que beirava o caos. O Departamento de Correios e Telégrafos era uma instituição completamente desacreditada. Sobre a “eficiência” dos seus serviços corriam as mais variadas piadas. A imprensa não se cansava de divulgar notícias que beiravam o absurdo. Na edição do dia 4 de março de 1957, da Folha da Cidade, na página 4, podia se ler a seguinte manchete:”O doente já estava enterrado quando chegou o telegrama a São Paulo”. O tal telegrama levara quatro dias para chegar, comunicando a morte do infeliz. Na edição de 27 de outubro de 1957, do mesmo jornal, estava escrito: “Telegrama demorou 12 dias para chegar a Niterói”.  Quando se desejava um serviço que merecesse confiança só havia uma solução: apelar para a Western.

        Mas sem uma infraestrutura confiável nas telecomunicações, como atingir o binômio: desenvolvimento e industrialização, tão perseguido pelos planos econômicos de então (SALTE, governo Dutra e Metas de Juscelino Kubitschek)?

        Devemos lembrar que o momento político vivido no Brasil dos anos 50 era de quase xenofobia econômica. As empresas estrangeiras eram vistas com desconfiança. Assim, a aplicação de capitais multinacionais no setor das telecomunicações, considerado prioritário para a segurança nacional, não parecia ser uma solução adequada para o momento. Mas, por outro lado, o governo não tinha condições, naquele momento, de solucionar o problema com recursos próprios.

        Como complicador, tínhamos ainda uma legislação conflitante e contraditória. Vários ministérios detinham algum tipo de atuação na área das telecomunicações.

        Outra questão para ser resolvida era a tecnológica. Apenas as Forças Armadas detinham alguma tecnologia capaz de nos permitir caminhar, mesmo claudicantemente, com os próprios pés. E eram elas que entendiam ser as telecomunicações essenciais para a segurança nacional.

Efetivamente, as primeiras preocupações do governo com a defesa da segurança nacional do Estado tem suas raízes plantadas no fim dos anos 20, com a criação do Conselho de Defesa Nacional (Decreto nº 17.999, de 29 de novembro de 1927). Este Conselho foi constituído pelo Presidente Washington Luís e seus Ministros de Estado; tinha como objeto coordenar a produção de conhecimentos sobre questões de ordem econômica, financeira, bélica e moral, relacionadas com a defesa do Estado.

        No período varguista (1930/1945), mais que em momentos anteriores, cuidou-se de erigir uma estrutura jurídica e institucional que garantisse a legalidade e efetividade das ações destinadas à salvaguarda do Estado. Assim, em 10 de janeiro de 1933, é criada a Delegacia Especial de Segurança Política e Social, através do Decreto22.332. Em 4 de abril de 1935, foi promulgada a primeira “Lei de Segurança Nacional” e, como consequência dela, o Tribunal de Segurança Nacional (1936), diretamente subordinado à Justiça Militar.

         O fim da Segunda Guerra Mundial, com o consequente advento da Guerra Fria, fará aumentar a preocupação dos militares com a segurança nacional, diante do bicho-papão do comunismo. Dessa forma, o Brasil procura se identificar com os interesses hegemônicos dos Estados Unidos. Oficiais brasileiros passam a frequentar cursos ministrados em escolas militares norte-americanas: National Security People, National War College e Industrial College of the Armed Forces.

        Entre as principais estratégias para a execução de uma política que garantisse a segurança nacional - sempre tutelada pelos militares -, as telecomunicações ocupavam lugar de destaque. Mas, na prática, elas continuaram precárias. O governo Dutra, com o Plano SALTE (saúde, alimentação, trabalho, energia), pouco ou nada fez pelo setor. Aliás poucos foram os benefícios trazidos por esse Plano que acabaria sendo abandonado. No segundo governo de Vargas a situação pouco se modificou.

        O salto qualitativo das telecomunicações no Brasil terá início no governo JK, através do “Código Brasileiro de Telecomunicações”. O Código (Lei 4.117) - cuja elaboração e discussão se iniciara no governo de Juscelino, mas seria promulgado pelo Congresso Nacional em 1962, no governo de João Goulart – era o documento legal que consolidava e regulamentava o setor das telecomunicações e radiodifusão no Brasil.

        A Radiotransmissora do Sarapuí seria inaugurada num momento em que o Brasil, embalado pelo “desenvolvimentismo” do governo JK, se lançava, num esforço hercúleo, para avançar 50 anos em 5.

        Em sua edição de 1º de setembro de 1956 (1º caderno, página 5) o jornal ” A Noite”  trazia a seguinte chamada: “3 Milhões de Telegramas por Dia”. A informação divulgada pelo jornal, afirmava que, quando estivesse pronta, a Estação Rádiotransmissora do Sarapuí poderia permutar até 3 milhões e duzentos mil telegramas diários com os seus correspondentes de todo o Brasil. Elogiava o edifício, considerado moderno, belo e funcional, plantado sobre uma área pantanosa de 1 milhão e 600 mil metros quadrados. Ao final, a reportagem esclarecia que: “Para  execução dessa tarefa, que é a de colocar o DCT em condições de cumprir seus múltiplos encargos, foi criada, por portaria ministerial de 1949, a Comissão Executiva do Plano Postal Telegráfico, formada por um órgão deliberativo, três escritórios (Telecomunicações, Postal e Administração) e uma Seção de Construção Civil”.

 

 

        No dia 10 de dezembro de 1957, uma terça-feira, o Presidente Juscelino Kubitschek se deslocava do Palácio do Catete em direção a Duque de Caxias.  Vinha inaugurar, às 18 horas e 30 minutos, aquela que seria a maior Rádiotransmissora as América Latina e uma das maiores do mundo, com capacidade para transmitir 1 milhão e 66 mil mensagens por dia.

        “O Semanário”, jornal dirigido por Oswaldo Costa, com posições intransigentemente nacionalistas, na edição de 26 a 2 de janeiro de 1958, apresentava num “box”, na primeira página, a seguinte chamada: “A Central de Sarapuí é a resposta aos derrotistas empenhados em só encontrar soluções alienígenas para os problemas brasileiros.” Coronel Alberto Bittencourt.

        Juscelino, no mesmo tom nacionalista e otimista, afirmava: “Um dos passos mais avançados que dá o Brasil no seu sistema de comunicações”.

        Abrindo a grande reportagem, os redatores de “O Semanário” escreveram:

 

        “Referimo-nos em nosso número anterior, à inauguração da Central de Sarapuí, no Município de Duque de Caxias, dissemos que o Brasil havia dado, com ela, um passo gigantesco na solução do seu problema de telecomunicações. No momento em que trustes estrangeiros – ou mais precisamente, a International Telegraph & Thelephone Corporation, controlada pelo Grupo Morgan – tentam apossar-se dêsse sistema, através de manobras da Western Telegraph Company,  o acontecimento a que aludimos se reveste da maior importância e por isso deve ser saudado com efusão por todos os brasileiros. Dêle se ocupou, na Câmara, o deputado Sérgio Magalhães, chamando a atenção de seus pares para o fato digno de nota, dêsse empreendimento estatal coincidir, felizmente, com o andamento, naquela casa do Congresso Nacional, do Código de Telecomunicações.”

        E o redator, em seu texto, desmentia a frase de Oswaldo Aranha, que dizia ser o Brasil um deserto de homens e idéias. O vigoroso nacionalismo que se propagava por todo o país vinha desmentir parte dessa assertiva pessimista. Enaltecia o Presidente JK pela escolha do coronel Alberto Bittencourt para dirigir o Departamento de Correios e Telégrafos, não só por sua capacidade, mas pela crença do ilustre militar no poder de realização do Estado brasileiro. Também lembrava que a Central do Sarapuí fora inteiramente planejada e construída por técnicos brasileiros. Mais adiante, reportou as palavras do deputado Sérgio Magalhães em discurso na Câmara, quando dizia que outros serviços, como o dos telefones, deveriam estar a cargo do departamento especializado dirigido pelo coronel Bittencourt; pois, se assim fosse, estariam em perfeito funcionamento.

        Em sua fala o coronel Bittencourt lembrou a promessa do Presidente Kubitschek em relação às telecomunicações:

        “Se eleito Presidente da República, convocarei uma equipe de técnicos nacionais e estrangeiros para no período de seis meses estudar o II Plano Postal Telegráfico e uma completa remodelação de métodos e serviços no Departamento de Correios e Telégrafos. Farei questão de dar à minha velha casa de trabalho (JK foi telegrafista dos Correios, o grifo é nosso) uma atenção carinhosa e de garantir ao Brasil um serviço de comunicações a altura das necessidades do seu progresso.”

        Finalizando o seu discurso, o coronel Alberto Bittencourt pedia ao Ministro Lúcio Meira para que solicitasse ao Presidente Juscelino dar início à inauguração  da Central Radiotransmissora do Sarapuí. Em rápidas palavras o Presidente congratulou-se com todos os telegrafistas do país, considerados como “companheiros de luta”, pois também exercera essa profissão. 

        A leitura deste texto pode dar a ideia que as obras da Rádiotransmissora do Sarapuí tiveram início no governo de JK. Consultando o Diário Oficial da União de 26/11/1953, podemos observar que nele existe, em nome daquela repartição do DCT, um edital de concorrência pública para a construção de uma estrada que desse acesso às instalações do conjunto arquitetônico. Também na página 10 de ” A Noite”, edição de 16 de agosto de 1952 (cinco anos antes da inauguração, ainda no governo de Vargas), já se falava da Rádiotransmissora como “pedra angular” para a execução do Plano Postal Telegráfico. A reportagem informava ainda que as obras estavam sendo chefiadas, pessoalmente, pelo engenheiro Píndaro Camarinha, Diretor de Material do DCT. Como se vê, o grande mérito de JK, tudo indica, foi o de dar continuidade e celeridade à obra, iniciada no governo anterior.

        Mas todo esse esforço para se construir a maior Central Rádiotransmissora da América do Sul não resultou no que se esperava. O sistema de transmissão em ondas curtas estava com os seu dias contados. Em breve, os satélites artificiais dominariam os espaços e logicamente as telecomunicações. Os soviéticos com o seu Sputnik  (satélite, companheiro de viagem), lançado no dia 4 de outubro de 1957, aproximadamente dois meses antes da inauguração da Transmissora do Sarapuí, haviam dado início a uma nova era. O Sputnik era uma esfera de aproximadamente 58,5 cm. Pesando 83,6 kg. Sua função básica era transmitir um sinal de rádio intermitente (bip) que podia ser sintonizado por qualquer radioamador. No auge da Guerra Fria, isso era algo inadmissível nos Estados Unidos. Mas ali estava a pequena lua soviética passando 15 vezes por dia, com o seu “irritante” bip, bip, sobre a cabeça dos norte-americanos.

        Curiosa e paradoxalmente, o sinal do Sputnik, que parecia anunciar o curto reinado da maior radiotransmissora da América do Sul, era captado em Caxias por um radioamador da rua Capitão Damasceno, segundo Folha da Cidade na edição de 13/10/1957:

Ouvido em Caxias sinal do satélite.  Radio-amador Francisco Ponce, de Caxias, captou os sinais emitidos pela “lua mirim” lançada ao espaço pela Rússia – Um dos (radioamadores N. do A.) mais antigos do Brasil – A Rússia tomará conhecimento.”

        Duas questões ainda persistem:

Quando a Radio Transmissora do Sarapuí encerrou definitivamente as suas atividades?

Quem foi o arquiteto que projetou o seu moderno e funcional edifício?

Não sei, exatamente, a destinação que foi dada à edificação, sei apenas que ela ainda pode ser vista do Google Earth. Diziam alguns que  havia sido invadida. Ouros afirmavam que fora depredada. Vista do Google, a Radiotransmissora parece abandonada, sepultada numa favela paupérrima, dormindo o sono dos mortos. Mas tudo poderia ser diferente se o Prefeito Renato Moreira tivesse conseguido vencer a pesada burocracia oficial. Quem explica o fato é o professor e historiador Stélio Lacerda, na época, seu Secretário de Educação:

 

               Quando era diretor do Departamento de Educação e Cultura da municipalidade, acompanhei o prefeito Renato Moreira da Fonseca (1975-79) em jornada de trabalho a escolas municipais do 2º distrito, especialmente no Parque Fluminense e Parque Comercial, que integravam o programa de reforma de prédios escolares – corria o ano de 1976.

              No retorno daquela visita de inspeção às obras, na altura de Sarapuí, o prefeito resolveu conhecer as dependências da Estação Radiotransmissora do outrora Departamento de Correios e Telégrafos. Soubera que era um dos símbolos da modernidade tecnológica dos anos 1950, quando as comunicações não se realizavam via satélite, e que se encontrava praticamente desativada.

              Assim que a viatura oficial estacionou no pátio da estação, um funcionário veio receber os visitantes – era o zelador daquele patrimônio público. Receptivo, mostrou as instalações e áreas adjacentes, ainda razoavelmente conservadas. Era uma construção de grande porte, localizada relativamente próxima ao centro de Duque de Caxias, e cujo desuso levaria à degradação.

              Impressionado com o que vira, o prefeito comentou que se o governo federal concedesse à prefeitura – por este ou aquele instrumento legal – aquele patrimônio, ali instalaria a sede do Executivo. Assim, a administração municipal evitaria a dispersão de seus departamentos e demais órgãos como vinha ocorrendo à medida que a cidade crescia - era preciso agrupar os órgãos públicos municipais de modo a propiciar mais eficiência na prestação de seus serviços.

                Além disso, diante da proximidade ao centro, haveria facilidade de acesso à administração e, com os setores ali concentrados, rapidez no atendimento aos pleitos comunitários. Sabia o prefeito, porém, que seria uma empreitada de longo prazo, sujeita à burocracia das esferas de governo. Infelizmente, para a cidade, foram infrutíferas as tentativas de conseguir a cessão de uso da antiga Estação Radiotransmissora do DCT à municipalidade.

                Fica o registro daquele episódio, guardado no fundo da memória. Decorridas quase quatro décadas fica a pergunta: o que foi feito daquele grandioso acervo público, testemunha da época anterior à revolução tecnológica nas comunicações?

                           

                             Teresópolis, janeiro/2013

 

 

 

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                 Selo comemorativo da inauguração da Rádio Transmissora