Tuesday, June 03, 2014


11-Sarapuí, ouvindo o mundo e falando para as estrelas

 

                                                                    

 

 

        Até a década de 80, quem atravessasse a ponte sobre o Sarapuí, no Gramacho, em direção ao São Bento, e olhasse para a esquerda, veria ao longe uma construção imponente e moderna, que lembrava a  famosa Pampulha, projetada por Oscar Niemeyer. Atualmente ela não pode mais ser vista, foi escondida pelas habitações precárias construídas nas margens do Sarapuí.

        Poucos caxienses sabem que ali funcionou a Radiotransmissora do Departamento dos Correios e Telégrafos. Mas o que ela representava para o Brasil, sabe-se menos ainda. Naquele momento, final dos anos 50, a Radiotransmissora do Sarapuí, era o que havia de mais avançado em tecnologia de telecomunicações.  Além disso, ela simbolizava uma das faces da “feroz” luta nacionalista travada pelo controle das telecomunicações.

        Sarapuí fora escolhido para sediar a Radiotransmissora por ser local excepcional para a recepção em ondas curtas. Não custa lembrar também que ali, bem junto da estrada Rio-Petrópolis, se localizava a “radio-escuta”, uma repartição governamental que tinha como objetivo descobrir emissoras pró-nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. Mais além, no quilômetro 8, ficava o Núcleo Colonial de São Bento, nele estava sediada a Rádioreceptora do Departamento de Correios e Telégrafos (DCT). Como se pode ver, Duque de Caxias sediava um importantíssimo complexo de estações rádiotelegráficas. Todo e qualquer telegrama, obrigatoriamente, passava por nosso município.

Contava João do Caio, antigo funcionário do Ministério da Agricultura, que os moradores do Núcleo Colonial foram os primeiros a saber do término da Segunda Guerra Mundial, informados pelos rádiotelegrafistas que no momento operavam os aparelhos de ondas curtas.  A Radiotransmissora e a Radioreceptora eram tão importantes para a “segurança nacional” que qualquer obnubilação do panorama político ou social, no país, levava o governo a enviar tropas do Exército para as duas repartições do DCT. Essas medidas visavam impedir que as comunicações fossem interrompidas por possíveis atentados ou sabotagens. Quando morei no Núcleo Colônial, vi, pelo menos, por três vezes, desembarcarem dos caminhões do Exercito dezenas de soldados que, ato contínuo, cercavam o edifício, “art déco”, em pó de pedra, que abrigava os pesados receptores RCA-Victor.

        Mas deixemos a Radioreceptora nas brumas do esquecimento e vamos voltar para a sua coirmã do Sarapuí.

A Radiotransmissora do Sarapuí fora construída para atender às disposições do Plano Postal Telegráfico, num momento em que o Brasil procurava recuperar o atraso vivido por suas telecomunicações.

Independente de outros fatores, esse atraso fora agravado pela guerra . As empresas estrangeiras, que forneciam equipamentos de telecomunicações, haviam se voltado para as necessidades imediatas geradas pelo conflito e, além disso, muitas delas foram destruídas ou desativadas.

        Mas a guerra também trouxera para o Brasil o aumento das exportações de produtos primários e da própria produção de manufaturados para o consumo interno. O Brasil crescia, mas sem manter correspondência com as telecomunicações. Na impossibilidade de se importar equipamentos para suprir as necessidades ensejadas pelo desenvolvimento econômico, íamos solucionando o problema com ações improvisadas. Assim, o que restara dos nossos equipamentos de telecomunicações foi sendo deteriorado, sucateados. Agravava ainda mais o problema as restrições impostas pela política econômica adotada no país, além das tarifas postais defasadas.

        Ao final dos anos 50, as telecomunicações viviam, aqui, uma situação que beirava o caos. O Departamento de Correios e Telégrafos era uma instituição completamente desacreditada. Sobre a “eficiência” dos seus serviços corriam as mais variadas piadas. A imprensa não se cansava de divulgar notícias que beiravam o absurdo. Na edição do dia 4 de março de 1957, da Folha da Cidade, na página 4, podia se ler a seguinte manchete:”O doente já estava enterrado quando chegou o telegrama a São Paulo”. O tal telegrama levara quatro dias para chegar, comunicando a morte do infeliz. Na edição de 27 de outubro de 1957, do mesmo jornal, estava escrito: “Telegrama demorou 12 dias para chegar a Niterói”.  Quando se desejava um serviço que merecesse confiança só havia uma solução: apelar para a Western.

        Mas sem uma infraestrutura confiável nas telecomunicações, como atingir o binômio: desenvolvimento e industrialização, tão perseguido pelos planos econômicos de então (SALTE, governo Dutra e Metas de Juscelino Kubitschek)?

        Devemos lembrar que o momento político vivido no Brasil dos anos 50 era de quase xenofobia econômica. As empresas estrangeiras eram vistas com desconfiança. Assim, a aplicação de capitais multinacionais no setor das telecomunicações, considerado prioritário para a segurança nacional, não parecia ser uma solução adequada para o momento. Mas, por outro lado, o governo não tinha condições, naquele momento, de solucionar o problema com recursos próprios.

        Como complicador, tínhamos ainda uma legislação conflitante e contraditória. Vários ministérios detinham algum tipo de atuação na área das telecomunicações.

        Outra questão para ser resolvida era a tecnológica. Apenas as Forças Armadas detinham alguma tecnologia capaz de nos permitir caminhar, mesmo claudicantemente, com os próprios pés. E eram elas que entendiam ser as telecomunicações essenciais para a segurança nacional.

Efetivamente, as primeiras preocupações do governo com a defesa da segurança nacional do Estado tem suas raízes plantadas no fim dos anos 20, com a criação do Conselho de Defesa Nacional (Decreto nº 17.999, de 29 de novembro de 1927). Este Conselho foi constituído pelo Presidente Washington Luís e seus Ministros de Estado; tinha como objeto coordenar a produção de conhecimentos sobre questões de ordem econômica, financeira, bélica e moral, relacionadas com a defesa do Estado.

        No período varguista (1930/1945), mais que em momentos anteriores, cuidou-se de erigir uma estrutura jurídica e institucional que garantisse a legalidade e efetividade das ações destinadas à salvaguarda do Estado. Assim, em 10 de janeiro de 1933, é criada a Delegacia Especial de Segurança Política e Social, através do Decreto22.332. Em 4 de abril de 1935, foi promulgada a primeira “Lei de Segurança Nacional” e, como consequência dela, o Tribunal de Segurança Nacional (1936), diretamente subordinado à Justiça Militar.

         O fim da Segunda Guerra Mundial, com o consequente advento da Guerra Fria, fará aumentar a preocupação dos militares com a segurança nacional, diante do bicho-papão do comunismo. Dessa forma, o Brasil procura se identificar com os interesses hegemônicos dos Estados Unidos. Oficiais brasileiros passam a frequentar cursos ministrados em escolas militares norte-americanas: National Security People, National War College e Industrial College of the Armed Forces.

        Entre as principais estratégias para a execução de uma política que garantisse a segurança nacional - sempre tutelada pelos militares -, as telecomunicações ocupavam lugar de destaque. Mas, na prática, elas continuaram precárias. O governo Dutra, com o Plano SALTE (saúde, alimentação, trabalho, energia), pouco ou nada fez pelo setor. Aliás poucos foram os benefícios trazidos por esse Plano que acabaria sendo abandonado. No segundo governo de Vargas a situação pouco se modificou.

        O salto qualitativo das telecomunicações no Brasil terá início no governo JK, através do “Código Brasileiro de Telecomunicações”. O Código (Lei 4.117) - cuja elaboração e discussão se iniciara no governo de Juscelino, mas seria promulgado pelo Congresso Nacional em 1962, no governo de João Goulart – era o documento legal que consolidava e regulamentava o setor das telecomunicações e radiodifusão no Brasil.

        A Radiotransmissora do Sarapuí seria inaugurada num momento em que o Brasil, embalado pelo “desenvolvimentismo” do governo JK, se lançava, num esforço hercúleo, para avançar 50 anos em 5.

        Em sua edição de 1º de setembro de 1956 (1º caderno, página 5) o jornal ” A Noite”  trazia a seguinte chamada: “3 Milhões de Telegramas por Dia”. A informação divulgada pelo jornal, afirmava que, quando estivesse pronta, a Estação Rádiotransmissora do Sarapuí poderia permutar até 3 milhões e duzentos mil telegramas diários com os seus correspondentes de todo o Brasil. Elogiava o edifício, considerado moderno, belo e funcional, plantado sobre uma área pantanosa de 1 milhão e 600 mil metros quadrados. Ao final, a reportagem esclarecia que: “Para  execução dessa tarefa, que é a de colocar o DCT em condições de cumprir seus múltiplos encargos, foi criada, por portaria ministerial de 1949, a Comissão Executiva do Plano Postal Telegráfico, formada por um órgão deliberativo, três escritórios (Telecomunicações, Postal e Administração) e uma Seção de Construção Civil”.

 

 

        No dia 10 de dezembro de 1957, uma terça-feira, o Presidente Juscelino Kubitschek se deslocava do Palácio do Catete em direção a Duque de Caxias.  Vinha inaugurar, às 18 horas e 30 minutos, aquela que seria a maior Rádiotransmissora as América Latina e uma das maiores do mundo, com capacidade para transmitir 1 milhão e 66 mil mensagens por dia.

        “O Semanário”, jornal dirigido por Oswaldo Costa, com posições intransigentemente nacionalistas, na edição de 26 a 2 de janeiro de 1958, apresentava num “box”, na primeira página, a seguinte chamada: “A Central de Sarapuí é a resposta aos derrotistas empenhados em só encontrar soluções alienígenas para os problemas brasileiros.” Coronel Alberto Bittencourt.

        Juscelino, no mesmo tom nacionalista e otimista, afirmava: “Um dos passos mais avançados que dá o Brasil no seu sistema de comunicações”.

        Abrindo a grande reportagem, os redatores de “O Semanário” escreveram:

 

        “Referimo-nos em nosso número anterior, à inauguração da Central de Sarapuí, no Município de Duque de Caxias, dissemos que o Brasil havia dado, com ela, um passo gigantesco na solução do seu problema de telecomunicações. No momento em que trustes estrangeiros – ou mais precisamente, a International Telegraph & Thelephone Corporation, controlada pelo Grupo Morgan – tentam apossar-se dêsse sistema, através de manobras da Western Telegraph Company,  o acontecimento a que aludimos se reveste da maior importância e por isso deve ser saudado com efusão por todos os brasileiros. Dêle se ocupou, na Câmara, o deputado Sérgio Magalhães, chamando a atenção de seus pares para o fato digno de nota, dêsse empreendimento estatal coincidir, felizmente, com o andamento, naquela casa do Congresso Nacional, do Código de Telecomunicações.”

        E o redator, em seu texto, desmentia a frase de Oswaldo Aranha, que dizia ser o Brasil um deserto de homens e idéias. O vigoroso nacionalismo que se propagava por todo o país vinha desmentir parte dessa assertiva pessimista. Enaltecia o Presidente JK pela escolha do coronel Alberto Bittencourt para dirigir o Departamento de Correios e Telégrafos, não só por sua capacidade, mas pela crença do ilustre militar no poder de realização do Estado brasileiro. Também lembrava que a Central do Sarapuí fora inteiramente planejada e construída por técnicos brasileiros. Mais adiante, reportou as palavras do deputado Sérgio Magalhães em discurso na Câmara, quando dizia que outros serviços, como o dos telefones, deveriam estar a cargo do departamento especializado dirigido pelo coronel Bittencourt; pois, se assim fosse, estariam em perfeito funcionamento.

        Em sua fala o coronel Bittencourt lembrou a promessa do Presidente Kubitschek em relação às telecomunicações:

        “Se eleito Presidente da República, convocarei uma equipe de técnicos nacionais e estrangeiros para no período de seis meses estudar o II Plano Postal Telegráfico e uma completa remodelação de métodos e serviços no Departamento de Correios e Telégrafos. Farei questão de dar à minha velha casa de trabalho (JK foi telegrafista dos Correios, o grifo é nosso) uma atenção carinhosa e de garantir ao Brasil um serviço de comunicações a altura das necessidades do seu progresso.”

        Finalizando o seu discurso, o coronel Alberto Bittencourt pedia ao Ministro Lúcio Meira para que solicitasse ao Presidente Juscelino dar início à inauguração  da Central Radiotransmissora do Sarapuí. Em rápidas palavras o Presidente congratulou-se com todos os telegrafistas do país, considerados como “companheiros de luta”, pois também exercera essa profissão. 

        A leitura deste texto pode dar a ideia que as obras da Rádiotransmissora do Sarapuí tiveram início no governo de JK. Consultando o Diário Oficial da União de 26/11/1953, podemos observar que nele existe, em nome daquela repartição do DCT, um edital de concorrência pública para a construção de uma estrada que desse acesso às instalações do conjunto arquitetônico. Também na página 10 de ” A Noite”, edição de 16 de agosto de 1952 (cinco anos antes da inauguração, ainda no governo de Vargas), já se falava da Rádiotransmissora como “pedra angular” para a execução do Plano Postal Telegráfico. A reportagem informava ainda que as obras estavam sendo chefiadas, pessoalmente, pelo engenheiro Píndaro Camarinha, Diretor de Material do DCT. Como se vê, o grande mérito de JK, tudo indica, foi o de dar continuidade e celeridade à obra, iniciada no governo anterior.

        Mas todo esse esforço para se construir a maior Central Rádiotransmissora da América do Sul não resultou no que se esperava. O sistema de transmissão em ondas curtas estava com os seu dias contados. Em breve, os satélites artificiais dominariam os espaços e logicamente as telecomunicações. Os soviéticos com o seu Sputnik  (satélite, companheiro de viagem), lançado no dia 4 de outubro de 1957, aproximadamente dois meses antes da inauguração da Transmissora do Sarapuí, haviam dado início a uma nova era. O Sputnik era uma esfera de aproximadamente 58,5 cm. Pesando 83,6 kg. Sua função básica era transmitir um sinal de rádio intermitente (bip) que podia ser sintonizado por qualquer radioamador. No auge da Guerra Fria, isso era algo inadmissível nos Estados Unidos. Mas ali estava a pequena lua soviética passando 15 vezes por dia, com o seu “irritante” bip, bip, sobre a cabeça dos norte-americanos.

        Curiosa e paradoxalmente, o sinal do Sputnik, que parecia anunciar o curto reinado da maior radiotransmissora da América do Sul, era captado em Caxias por um radioamador da rua Capitão Damasceno, segundo Folha da Cidade na edição de 13/10/1957:

Ouvido em Caxias sinal do satélite.  Radio-amador Francisco Ponce, de Caxias, captou os sinais emitidos pela “lua mirim” lançada ao espaço pela Rússia – Um dos (radioamadores N. do A.) mais antigos do Brasil – A Rússia tomará conhecimento.”

        Duas questões ainda persistem:

Quando a Radio Transmissora do Sarapuí encerrou definitivamente as suas atividades?

Quem foi o arquiteto que projetou o seu moderno e funcional edifício?

Não sei, exatamente, a destinação que foi dada à edificação, sei apenas que ela ainda pode ser vista do Google Earth. Diziam alguns que  havia sido invadida. Ouros afirmavam que fora depredada. Vista do Google, a Radiotransmissora parece abandonada, sepultada numa favela paupérrima, dormindo o sono dos mortos. Mas tudo poderia ser diferente se o Prefeito Renato Moreira tivesse conseguido vencer a pesada burocracia oficial. Quem explica o fato é o professor e historiador Stélio Lacerda, na época, seu Secretário de Educação:

 

               Quando era diretor do Departamento de Educação e Cultura da municipalidade, acompanhei o prefeito Renato Moreira da Fonseca (1975-79) em jornada de trabalho a escolas municipais do 2º distrito, especialmente no Parque Fluminense e Parque Comercial, que integravam o programa de reforma de prédios escolares – corria o ano de 1976.

              No retorno daquela visita de inspeção às obras, na altura de Sarapuí, o prefeito resolveu conhecer as dependências da Estação Radiotransmissora do outrora Departamento de Correios e Telégrafos. Soubera que era um dos símbolos da modernidade tecnológica dos anos 1950, quando as comunicações não se realizavam via satélite, e que se encontrava praticamente desativada.

              Assim que a viatura oficial estacionou no pátio da estação, um funcionário veio receber os visitantes – era o zelador daquele patrimônio público. Receptivo, mostrou as instalações e áreas adjacentes, ainda razoavelmente conservadas. Era uma construção de grande porte, localizada relativamente próxima ao centro de Duque de Caxias, e cujo desuso levaria à degradação.

              Impressionado com o que vira, o prefeito comentou que se o governo federal concedesse à prefeitura – por este ou aquele instrumento legal – aquele patrimônio, ali instalaria a sede do Executivo. Assim, a administração municipal evitaria a dispersão de seus departamentos e demais órgãos como vinha ocorrendo à medida que a cidade crescia - era preciso agrupar os órgãos públicos municipais de modo a propiciar mais eficiência na prestação de seus serviços.

                Além disso, diante da proximidade ao centro, haveria facilidade de acesso à administração e, com os setores ali concentrados, rapidez no atendimento aos pleitos comunitários. Sabia o prefeito, porém, que seria uma empreitada de longo prazo, sujeita à burocracia das esferas de governo. Infelizmente, para a cidade, foram infrutíferas as tentativas de conseguir a cessão de uso da antiga Estação Radiotransmissora do DCT à municipalidade.

                Fica o registro daquele episódio, guardado no fundo da memória. Decorridas quase quatro décadas fica a pergunta: o que foi feito daquele grandioso acervo público, testemunha da época anterior à revolução tecnológica nas comunicações?

                           

                             Teresópolis, janeiro/2013

 

 

 

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                 Selo comemorativo da inauguração da Rádio Transmissora

 

 

 

 

 

 

 

 

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