11-Sarapuí, ouvindo
o mundo e falando para as estrelas
Até a década de 80, quem atravessasse a
ponte sobre o Sarapuí, no Gramacho, em direção ao São Bento, e olhasse para a
esquerda, veria ao longe uma construção imponente e moderna, que lembrava
a famosa Pampulha, projetada por Oscar
Niemeyer. Atualmente ela não pode mais ser vista, foi escondida pelas
habitações precárias construídas nas margens do Sarapuí.
Poucos caxienses sabem que ali funcionou
a Radiotransmissora do Departamento dos Correios e Telégrafos. Mas o que ela
representava para o Brasil, sabe-se menos ainda. Naquele momento, final dos
anos 50, a Radiotransmissora do Sarapuí, era o que havia de mais avançado em
tecnologia de telecomunicações. Além
disso, ela simbolizava uma das faces da “feroz” luta nacionalista travada pelo
controle das telecomunicações.
Sarapuí fora escolhido para sediar a
Radiotransmissora por ser local excepcional para a recepção em ondas curtas.
Não custa lembrar também que ali, bem junto da estrada Rio-Petrópolis, se
localizava a “radio-escuta”, uma repartição governamental que tinha como
objetivo descobrir emissoras pró-nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial.
Mais além, no quilômetro 8, ficava o Núcleo Colonial de São Bento, nele estava
sediada a Rádioreceptora do Departamento de Correios e Telégrafos (DCT). Como
se pode ver, Duque de Caxias sediava um importantíssimo complexo de estações
rádiotelegráficas. Todo e qualquer telegrama, obrigatoriamente, passava por
nosso município.
Contava João do Caio, antigo funcionário do
Ministério da Agricultura, que os moradores do Núcleo Colonial foram os
primeiros a saber do término da Segunda Guerra Mundial, informados pelos
rádiotelegrafistas que no momento operavam os aparelhos de ondas curtas. A Radiotransmissora e a Radioreceptora eram
tão importantes para a “segurança nacional” que qualquer obnubilação do
panorama político ou social, no país, levava o governo a enviar tropas do
Exército para as duas repartições do DCT. Essas medidas visavam impedir que as
comunicações fossem interrompidas por possíveis atentados ou sabotagens. Quando
morei no Núcleo Colônial, vi, pelo menos, por três vezes, desembarcarem dos
caminhões do Exercito dezenas de soldados que, ato contínuo, cercavam o
edifício, “art déco”, em pó de pedra, que abrigava os pesados receptores
RCA-Victor.
Mas deixemos a Radioreceptora nas brumas
do esquecimento e vamos voltar para a sua coirmã do Sarapuí.
A Radiotransmissora do Sarapuí fora
construída para atender às disposições do Plano Postal Telegráfico, num momento
em que o Brasil procurava recuperar o atraso vivido por suas telecomunicações.
Independente de outros fatores, esse atraso
fora agravado pela guerra . As empresas estrangeiras, que forneciam
equipamentos de telecomunicações, haviam se voltado para as necessidades imediatas
geradas pelo conflito e, além disso, muitas delas foram destruídas ou
desativadas.
Mas a guerra também trouxera para o
Brasil o aumento das exportações de produtos primários e da própria produção de
manufaturados para o consumo interno. O Brasil crescia, mas sem manter
correspondência com as telecomunicações. Na impossibilidade de se importar
equipamentos para suprir as necessidades ensejadas pelo desenvolvimento
econômico, íamos solucionando o problema com ações improvisadas. Assim, o que
restara dos nossos equipamentos de telecomunicações foi sendo deteriorado,
sucateados. Agravava ainda mais o problema as restrições impostas pela política
econômica adotada no país, além das tarifas postais defasadas.
Ao final dos anos 50, as
telecomunicações viviam, aqui, uma situação que beirava o caos. O Departamento
de Correios e Telégrafos era uma instituição completamente desacreditada. Sobre
a “eficiência” dos seus serviços corriam as mais variadas piadas. A imprensa
não se cansava de divulgar notícias que beiravam o absurdo. Na edição do dia 4
de março de 1957, da Folha da Cidade, na página 4, podia se ler a seguinte
manchete:”O doente já estava enterrado
quando chegou o telegrama a São Paulo”. O tal telegrama levara quatro dias
para chegar, comunicando a morte do infeliz. Na edição de 27 de outubro de
1957, do mesmo jornal, estava escrito: “Telegrama
demorou 12 dias para chegar a Niterói”.
Quando se desejava um serviço que merecesse confiança só havia uma
solução: apelar para a Western.
Mas sem uma infraestrutura confiável nas
telecomunicações, como atingir o binômio: desenvolvimento e industrialização,
tão perseguido pelos planos econômicos de então (SALTE, governo Dutra e Metas
de Juscelino Kubitschek)?
Devemos lembrar que o momento político
vivido no Brasil dos anos 50 era de quase xenofobia econômica. As empresas
estrangeiras eram vistas com desconfiança. Assim, a aplicação de capitais
multinacionais no setor das telecomunicações, considerado prioritário para a
segurança nacional, não parecia ser uma solução adequada para o momento. Mas,
por outro lado, o governo não tinha condições, naquele momento, de solucionar o
problema com recursos próprios.
Como complicador, tínhamos ainda uma
legislação conflitante e contraditória. Vários ministérios detinham algum tipo
de atuação na área das telecomunicações.
Outra questão para ser resolvida era a
tecnológica. Apenas as Forças Armadas detinham alguma tecnologia capaz de nos
permitir caminhar, mesmo claudicantemente, com os próprios pés. E eram elas que
entendiam ser as telecomunicações essenciais para a segurança nacional.
Efetivamente, as primeiras preocupações do
governo com a defesa da segurança nacional do Estado tem suas raízes plantadas
no fim dos anos 20, com a criação do Conselho de Defesa Nacional (Decreto nº
17.999, de 29 de novembro de 1927). Este Conselho foi constituído pelo
Presidente Washington Luís e seus Ministros de Estado; tinha como objeto
coordenar a produção de conhecimentos sobre questões de ordem econômica,
financeira, bélica e moral, relacionadas com a defesa do Estado.
No período varguista (1930/1945), mais
que em momentos anteriores, cuidou-se de erigir uma estrutura jurídica e
institucional que garantisse a legalidade e efetividade das ações destinadas à
salvaguarda do Estado. Assim, em 10 de janeiro de 1933, é criada a Delegacia
Especial de Segurança Política e Social, através do Decreto22.332. Em 4 de
abril de 1935, foi promulgada a primeira “Lei de Segurança Nacional” e, como
consequência dela, o Tribunal de Segurança Nacional (1936), diretamente
subordinado à Justiça Militar.
O
fim da Segunda Guerra Mundial, com o consequente advento da Guerra Fria, fará
aumentar a preocupação dos militares com a segurança nacional, diante do
bicho-papão do comunismo. Dessa forma, o Brasil procura se identificar com os
interesses hegemônicos dos Estados Unidos. Oficiais brasileiros passam a
frequentar cursos ministrados em escolas militares norte-americanas: National Security People, National War
College e Industrial College of the Armed Forces.
Entre as principais estratégias para a
execução de uma política que garantisse a segurança nacional - sempre tutelada
pelos militares -, as telecomunicações ocupavam lugar de destaque. Mas, na
prática, elas continuaram precárias. O governo Dutra, com o Plano SALTE (saúde,
alimentação, trabalho, energia), pouco ou nada fez pelo setor. Aliás poucos
foram os benefícios trazidos por esse Plano que acabaria sendo abandonado. No
segundo governo de Vargas a situação pouco se modificou.
O salto qualitativo das telecomunicações
no Brasil terá início no governo JK, através do “Código Brasileiro de
Telecomunicações”. O Código (Lei 4.117) - cuja elaboração e discussão se
iniciara no governo de Juscelino, mas seria promulgado pelo Congresso Nacional
em 1962, no governo de João Goulart – era o documento legal que consolidava e
regulamentava o setor das telecomunicações e radiodifusão no Brasil.
A Radiotransmissora do Sarapuí seria
inaugurada num momento em que o Brasil, embalado pelo “desenvolvimentismo” do
governo JK, se lançava, num esforço hercúleo, para avançar 50 anos em 5.
Em sua edição de 1º de setembro de 1956
(1º caderno, página 5) o jornal ” A Noite”
trazia a seguinte chamada: “3 Milhões de Telegramas por Dia”. A
informação divulgada pelo jornal, afirmava que, quando estivesse pronta, a
Estação Rádiotransmissora do Sarapuí poderia permutar até 3 milhões e duzentos
mil telegramas diários com os seus correspondentes de todo o Brasil. Elogiava o
edifício, considerado moderno, belo e funcional, plantado sobre uma área
pantanosa de 1 milhão e 600 mil metros quadrados. Ao final, a reportagem
esclarecia que: “Para execução dessa tarefa, que é a de colocar o
DCT em condições de cumprir seus múltiplos encargos, foi criada, por portaria
ministerial de 1949, a Comissão Executiva do Plano Postal Telegráfico, formada
por um órgão deliberativo, três escritórios (Telecomunicações, Postal e
Administração) e uma Seção de Construção Civil”.
No dia 10 de dezembro de 1957, uma
terça-feira, o Presidente Juscelino Kubitschek se deslocava do Palácio do
Catete em direção a Duque de Caxias.
Vinha inaugurar, às 18 horas e 30 minutos, aquela que seria a maior
Rádiotransmissora as América Latina e uma das maiores do mundo, com capacidade
para transmitir 1 milhão e 66 mil mensagens por dia.
“O Semanário”, jornal dirigido por
Oswaldo Costa, com posições intransigentemente nacionalistas, na edição de 26 a
2 de janeiro de 1958, apresentava num “box”, na primeira página, a seguinte
chamada: “A Central de Sarapuí é a
resposta aos derrotistas empenhados em só encontrar soluções alienígenas para
os problemas brasileiros.” Coronel Alberto Bittencourt.
Juscelino, no mesmo tom nacionalista e
otimista, afirmava: “Um dos passos mais
avançados que dá o Brasil no seu sistema de comunicações”.
Abrindo a grande reportagem, os
redatores de “O Semanário” escreveram:
“Referimo-nos
em nosso número anterior, à inauguração da Central de Sarapuí, no Município de
Duque de Caxias, dissemos que o Brasil havia dado, com ela, um passo gigantesco
na solução do seu problema de telecomunicações. No momento em que trustes
estrangeiros – ou mais precisamente, a International Telegraph & Thelephone
Corporation, controlada pelo Grupo Morgan – tentam apossar-se dêsse sistema,
através de manobras da Western Telegraph Company, o acontecimento a que aludimos se reveste da
maior importância e por isso deve ser saudado com efusão por todos os
brasileiros. Dêle se ocupou, na Câmara, o deputado Sérgio Magalhães, chamando a
atenção de seus pares para o fato digno de nota, dêsse empreendimento estatal
coincidir, felizmente, com o andamento, naquela casa do Congresso Nacional, do
Código de Telecomunicações.”
E o redator, em seu texto, desmentia a
frase de Oswaldo Aranha, que dizia ser o Brasil um deserto de homens e idéias.
O vigoroso nacionalismo que se propagava por todo o país vinha desmentir parte
dessa assertiva pessimista. Enaltecia o Presidente JK pela escolha do coronel
Alberto Bittencourt para dirigir o Departamento de Correios e Telégrafos, não
só por sua capacidade, mas pela crença do ilustre militar no poder de
realização do Estado brasileiro. Também lembrava que a Central do Sarapuí fora
inteiramente planejada e construída por técnicos brasileiros. Mais adiante,
reportou as palavras do deputado Sérgio Magalhães em discurso na Câmara, quando
dizia que outros serviços, como o dos telefones, deveriam estar a cargo do
departamento especializado dirigido pelo coronel Bittencourt; pois, se assim
fosse, estariam em perfeito funcionamento.
Em sua fala o coronel Bittencourt lembrou
a promessa do Presidente Kubitschek em relação às telecomunicações:
“Se
eleito Presidente da República, convocarei uma equipe de técnicos nacionais e
estrangeiros para no período de seis meses estudar o II Plano Postal
Telegráfico e uma completa remodelação de métodos e serviços no Departamento de
Correios e Telégrafos. Farei questão de dar à minha velha casa de trabalho (JK foi telegrafista dos Correios, o
grifo é nosso) uma atenção carinhosa e de
garantir ao Brasil um serviço de comunicações a altura das necessidades do seu
progresso.”
Finalizando o seu discurso, o coronel
Alberto Bittencourt pedia ao Ministro Lúcio Meira para que solicitasse ao
Presidente Juscelino dar início à inauguração
da Central Radiotransmissora do Sarapuí. Em rápidas palavras o
Presidente congratulou-se com todos os telegrafistas do país, considerados como
“companheiros de luta”, pois também
exercera essa profissão.
A leitura deste texto pode dar a ideia
que as obras da Rádiotransmissora do Sarapuí tiveram início no governo de JK.
Consultando o Diário Oficial da União de 26/11/1953, podemos observar que nele
existe, em nome daquela repartição do DCT, um edital de concorrência pública
para a construção de uma estrada que desse acesso às instalações do conjunto
arquitetônico. Também na página 10 de ” A Noite”, edição de 16 de agosto de
1952 (cinco anos antes da inauguração, ainda no governo de Vargas), já se
falava da Rádiotransmissora como “pedra angular” para a execução do Plano
Postal Telegráfico. A reportagem informava ainda que as obras estavam sendo
chefiadas, pessoalmente, pelo engenheiro Píndaro Camarinha, Diretor de Material
do DCT. Como se vê, o grande mérito de JK, tudo indica, foi o de dar
continuidade e celeridade à obra, iniciada no governo anterior.
Mas todo esse esforço para se construir
a maior Central Rádiotransmissora da América do Sul não resultou no que se
esperava. O sistema de transmissão em ondas curtas estava com os seu dias
contados. Em breve, os satélites artificiais dominariam os espaços e logicamente
as telecomunicações. Os soviéticos com o seu Sputnik (satélite, companheiro de viagem), lançado no
dia 4 de outubro de 1957, aproximadamente dois meses antes da inauguração da
Transmissora do Sarapuí, haviam dado início a uma nova era. O Sputnik era uma
esfera de aproximadamente 58,5 cm. Pesando 83,6 kg. Sua função básica era
transmitir um sinal de rádio intermitente (bip) que podia ser sintonizado por
qualquer radioamador. No auge da Guerra Fria, isso era algo inadmissível nos
Estados Unidos. Mas ali estava a pequena lua soviética passando 15 vezes por
dia, com o seu “irritante” bip, bip, sobre a cabeça dos norte-americanos.
Curiosa e paradoxalmente, o sinal do
Sputnik, que parecia anunciar o curto reinado da maior radiotransmissora da
América do Sul, era captado em Caxias por um radioamador da rua Capitão
Damasceno, segundo Folha da Cidade na edição de 13/10/1957:
“Ouvido em Caxias sinal do satélite. Radio-amador Francisco Ponce, de Caxias, captou os
sinais emitidos pela “lua mirim” lançada ao espaço pela Rússia – Um dos (radioamadores N. do A.) mais antigos do Brasil – A Rússia tomará
conhecimento.”
Duas questões ainda persistem:
Quando a Radio Transmissora do Sarapuí
encerrou definitivamente as suas atividades?
Quem foi o arquiteto que projetou o seu
moderno e funcional edifício?
Não sei, exatamente, a destinação que foi
dada à edificação, sei apenas que ela ainda pode ser vista do Google Earth.
Diziam alguns que havia sido invadida.
Ouros afirmavam que fora depredada. Vista do Google, a Radiotransmissora parece
abandonada, sepultada numa favela paupérrima, dormindo o sono dos mortos. Mas
tudo poderia ser diferente se o Prefeito Renato Moreira tivesse conseguido
vencer a pesada burocracia oficial. Quem explica o fato é o professor e
historiador Stélio Lacerda, na época, seu Secretário de Educação:
Quando era diretor do Departamento de
Educação e Cultura da municipalidade, acompanhei o prefeito Renato Moreira da
Fonseca (1975-79) em jornada de trabalho a escolas municipais do 2º distrito,
especialmente no Parque Fluminense e Parque Comercial, que integravam o
programa de reforma de prédios escolares – corria o ano de 1976.
No retorno daquela visita de inspeção às obras, na altura de Sarapuí, o
prefeito resolveu conhecer as dependências da Estação Radiotransmissora do
outrora Departamento de Correios e Telégrafos. Soubera que era um dos símbolos
da modernidade tecnológica dos anos 1950, quando as comunicações não se
realizavam via satélite, e que se encontrava praticamente desativada.
Assim que a viatura oficial estacionou no pátio da estação,
um funcionário veio receber os visitantes – era o zelador daquele patrimônio
público. Receptivo, mostrou as instalações e áreas adjacentes, ainda
razoavelmente conservadas. Era uma construção de grande porte, localizada
relativamente próxima ao centro de Duque de Caxias, e cujo desuso levaria à
degradação.
Impressionado com o que vira, o prefeito
comentou que se o governo federal concedesse à prefeitura – por este ou aquele
instrumento legal – aquele patrimônio, ali instalaria a sede do Executivo.
Assim, a administração municipal evitaria a dispersão de seus departamentos e
demais órgãos como vinha ocorrendo à medida que a cidade crescia - era preciso
agrupar os órgãos públicos municipais de modo a propiciar mais eficiência na
prestação de seus serviços.
Além
disso, diante da proximidade ao centro, haveria facilidade de acesso à
administração e, com os setores ali concentrados, rapidez no atendimento aos
pleitos comunitários. Sabia o prefeito, porém, que seria uma empreitada de
longo prazo, sujeita à burocracia das esferas de governo. Infelizmente, para a
cidade, foram infrutíferas as tentativas de conseguir a cessão de uso da antiga
Estação Radiotransmissora do DCT à municipalidade.
Fica o registro daquele episódio, guardado no fundo da memória. Decorridas
quase quatro décadas fica a pergunta: o que foi feito daquele grandioso acervo
público, testemunha da época anterior à revolução tecnológica nas comunicações?
Teresópolis, janeiro/2013
Selo comemorativo da
inauguração da Rádio Transmissora

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