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Praça do Pacificador
Há
poucos metros do meu apartamento ficava a Praça do Pacificador. Quando o poeta disse que “a praça era do
povo”, acertou em cheio. Em seu perímetro e em seu entorno gravitava a vida
do município. A praça era um lugar absolutamente democrático; no mesmo espaço
conviviam pregadores evangélicos, prostitutas, pivetes, fotógrafos lambe-lambe,
artistas de rua e vendedores de remédios “fajutos”, capazes de curar todos os
males, pelo menos era o que diziam os seus propagandistas. Estes eram os mais apreciados pelo povo. Para
“empurrar” as suas panacéias, faziam de tudo, inclusive alguns se utilizavam de
uma cobra para atrair a multidão. Munidos de um microfone que se ligava ao
pequeno e distorcido amplificador, alimentado por uma bateria de automóvel, se
“esgoelavam” prometendo curas milagrosas com a banha do peixe-boi ou o óleo do
peixe-elétrico do Amazonas.
A Praça antes do
atentado a que foi submetida.
Outro
“terapeuta”, que pelas imediações também se apresentava, era o “calista”. Este
vendia um líquido amarelo, que aplicado sobre os calos ou cravos dos pés,
permitia que eles fossem retirados sem dor, com o auxílio de uma gilete, claro.
O grotesco e nojento ficava por conta do material retirado, que sobre um
caixote de maçã era exibido ao público. Ali, na hora, o candidato à
demonstração “cirurgica”, retirava o sapato e a meia, colocando o seu pézinho
sobre o tal caixote de maçã. O “terapeuta”, aplicava as tais gotinhas mágicas
sobre a região a ser extirpada e, munido da lâmina de barbear, cortava o mal
pela raiz. Barbaridade!
Quando
cheguei na terra de Lima e Silva, a praça podia ser dividida em duas partes. No
lado voltado para a Plínio Casado, havia uma rodoviária de madeira muito feia e
ensebada pelo óleo que era derramado pelos ônibus. Ali paravam os coletivos que
iam para o Distrito Federal: Praça Mauá, Praça da Bandeira e Penha. O outro
lado, limitado pela Rio-Petrópolis, era o lado bonito da Praça do Pacificador,
com jardins, chafariz, muitas casuarinas e pinheiros. Aliás, o chafariz era um
indicador da troca de prefeito. Se o chafariz estava funcionando, a gente sabia
que um novo prefeito havia assumido. Mas o chafariz tinha outras utilidades.
Quando o guarda municipal “bobeava”, a pivetada mergulhava em suas águas
turvas.
Na bifurcação
da Rio-Petrópolis com Plínio Casado havia uma bica d’água que atendia à
população humilde, principalmente a do “mangue”. A água era recolhida em latas
de banha e rola-rolas (um barril que rolava deitado, sendo puxado por grossos
vergalhões). As latas e rola-rolas ficavam enfileirados, esperando a vez de
serem abastecidos, e como demorava. A imagem, sempre presente, de uma Caxias
sem água, levou o prefeito Hydekel de Freitas Lima a prestar uma justa
homenagem à nossa população; próximo ao Cine Paz foi colocado um conjunto
escultórico que lembrava as primitivas formas que a população utilizavou para
transportar o “precioso líquido”. A escultura era composta por uma mulher tendo
ao colo uma criança, na cabeça uma lata d’água, sua mão esquerda segurava a mão
de um menino que puxava um rola-rola. Era um belo conjunto, mas aos poucos foi
sendo depredado. Ciente de sua própria inoperância, a Prefeitura retirou o
conjunto escultórico. Durante algum tempo ele esteve recolhido na garagem da
municipalidade. Hoje só resta um dos braço da mulher e o menino do rola-rola,
expostos na entrada do Instituto Histórico da Câmara Municipal. Quem não sabe o
que aconteceu ao monumento, imagina tratar-se de obra de arte moderna.
O Cine
Paz e o Bar Assunção eram os pontos onde se reunia a “juventude transviada” da
Caxias de antigamente. Conhecida como “turma do esculacho”, esses rapazes
costumavam colocar a cidade em polvorosa com suas brincadeiras de mau gosto,
cruéis e até criminosas. Vinham de todas as classes sociais, mas os que
lideravam o grupo eram oriundos da alta classe média ou quase. Possuíam bons
carros, Lambrettas (motonetas), garçonnière
e freqüentavam os melhores clubes da cidade: Recreativo, Quinhentos e Aliança.
Mas
nossa “juventude transviada”, ao contrário daquela do filme estrelado por James
Dean, era escrachada, por isso, justamente, denominada de “turma do esculacho”.
Provocavam pessoas; terminavam com festas de
casamento roubando o bolo dos noivos; quando desejavam fazer uma boa farra,
saiam “caçando” porcos, galinhas e cabritos nos bairros da periferia;
seqüestravam prostitutas e as soltavam na Rio-Magé, totalmente nuas; praticavam
curras e, num determinado momento, passaram a reprimir movimentos de massa,
como o famigerado quebra-quebra de 1962. Algumas vezes promoviam tiroteios em
locais públicos. Foi o caso de um, acontecido na Boate Tropicana, que
funcionava num sobrado da rua Mariano Sendra dos Santos, esquina com Rio-Petrópolis.
Muitos
dos seus membros, com o passar dos anos, foram assumindo cargos importantes
dentro da cidade ou mesmo fora dela. Alguns se dedicaram à política, outros ao
comércio ou se integraram à burocracia dos serviços públicos. Acabaram se
tornando respeitáveis senhores.
Me
lembro que uma das brincadeiras mais inocentes era feita com a ajuda de um
anão, espécie de mascote da turma. Na hora do “rush” colocavam um
paralelepípedo na calçada, coberto por uma caixa de sapatos emborcada.
Logicamente, quando o primeiro desavisado via a caixa, se preparava e dava um
chute na dita. Era aquela “porrada” seguida da dor e da raiva, claramente
demonstradas com um solene palavrão. Nesse momento o anão começava a rir do
otário que havia “bicado” o paralelepípedo, pensando estar chutando apenas a
caixa de sapatos. Para se vingar, o “artilheiro-otário” partia para cima do
anão. Era quando os salvadores dos “frascos e comprimidos” corriam para
defender o pobre anãozinho e, para isso, davam um tremendo cacete no
“artilheiro”.
Mas nem
todos os membros da “turma do esculacho” eram violentos. Existia um,
perfeitamente pacífico, que ficava parado próximo ao Cine Paz, tirando a maior
“chinfra”. O gajo era a cara do James Dean e para ser mais admirado pelas
garotas, usava camisas muito justas. O cara se achava. A “turma do esculacho”
merece um estudo mais aprofundado...
Ao
longo dos anos, a Praça foi se modificando. Chegou a ser denominada, pasmem,
queridos leitores: Praça da Bíblia. Quanta demagogia. Isso graças a um prefeito
que, em bom momento, se convertera ao credo de Lutero. Aí a praça foi salpicada
com placas cheias de versículos.
Recentemente
aquele espaço sofreu outra intervenção, agora radical, perpetrada pelo vetusto
arquiteto Oscar Niemeyer. Foi um verdadeiro atentado urbano-paisagístico urdido
por quem não deveria cometê-lo. Mas a elite caipira ficou deslumbrada com
aquela demonstração de “bom gosto” e modernidade. E lá se foram as casuarinas,
os canteiros, o chafariz e toda a memória que envolvia a praça.
Hoje, como disse o poeta, a praça é apenas
“uma fotografia na parede, mas como dói....”

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