10 - Os
sons da cidade
Fato
digno de nota era o serviço de alto-falantes do jornalista Zoelzer Poubel. Os
ditos “falantes” ficavam sobre o telhado do edifício Melo - na esquina de Nunes
Alves com Plínio Casado - e faziam propaganda de casas comerciais e prestadores
de serviços. Os ditos falantes funcionavam praticamente o dia todo. Quando a
noite chegava e a cidade diminuía sua agitação, eles podiam ser ouvidos até no
Periquito, segundo nos afirmou o jornalista Eldemar de Souza que ali residia.
Se
olhássemos com atenção as cornetas dos alto-falantes, não seria difícil
perceber que estavam todas furadas por balas, disparadas, possivelmente, por
pessoas irritadas com a zoada que eles faziam. Hoje, passados os anos e
sossegados os espíritos, até que gostaria de ouvir alguns divertidíssimos jingles que neles eram tocados. Lembro
um que enaltecia as qualidades de um alfaiate. Não recordo o nome do tal
alfaiate mas o versinho era assim: “...o
alfaiate, faz roupa todo o dia, pois ele é o melhor do município de Caxias”.
A composição era capenga, mas a musiquinha era até balançadinha.
Não era
só o publicitário-deputado Zoelzer Poubel que explorava o serviço de
alto-falantes. Existiam também os serviços móveis. Genival Rodrigues, com sua
bonita voz e locução impecável, numa caminhonete percorria a cidade anunciando
tudo para todos.
Porém o
mais interessante de todos foi Serra Cardoso. Serra Cardoso era um homem de
pequena estatura e muito magro, mas nem por isso desprovido de coragem e verve
de autêntico tribuno da plebe. Contam que certa vez, por criticar Tenório em um
folheto, tomou uma surra dos “amigos” do deputado. Pois bem, nosso tribuno não se
intimidou e com a ajuda de amigos, durante os primeiros anos da ditadura
implantada em 1964, alugava uma caminhonete provida de som e saia distribuindo,
em cada esquina, seus ditirambos para louvar a “Redentora”. Tendo numa das mãos
um microfone - que ele borrrifava com perdigotos - e na outra o pavilhão
nacional - desbotado e amarfanhado – que agitava nervosamente, Serra Cardoso
conclamava o povo a apoiar o golpe que livrara a família brasileira do solerte
perigo vermelho. Era um espetáculo grotesco, quase “felliniano”
Era gozadíssimo ver o Serra Cardoso metido num
surrado terno cinza, exaltadíssimo, vermelho e suando mais que tampa de
chaleira, despejar aquela catilinária anti-bolchevista. Na época eu ficava
puto, hoje acho tudo muito engraçado.
Em
posição oposta estava Otacílio Dias de Lacerda. Também munido de um microfone,
mas do lado de fora de um carro emprestado pelos donos das Lojas Preferidas,
vociferava contra os poderosos. Algumas vezes ele conseguia reunir à sua volta
um razoável número de populares que se deliciavam com sua pregação socialista e
de defesa das riquezas nacionais. Era um político honesto e corajoso. Acabou
sendo perseguido e “exilado” de Duque de Caxias.
Todos
esses sons que invadiam a Caxias de antigamente eram fichinhas se comparados
com o barulho dos possantíssimos trios elétricos de hoje”, verdadeiramente
assustadores. Quando um deles passava pelo “Elite”, ensurdecendo todos aqueles
que estavam nas proximidades, Lauriano
Cardoso dizia, indignado, que naquele momento gostaria de ter um 38, para meter
bala no brutamonte.
Mas não
era só isso. A maioria das casas comerciais, para chamar a atenção da
freguesia, colocava, próximo de suas portas, barulhentas e distorcidas caixas
de som. Um improvisado locutor dirigia o espetáculo, oferecendo aos passantes
as mais variadas mercadorias, junto, claro, com suas piadinhas. Era uma
verdadeira guerra de decibéis entre os estabelecimentos comerciais. Mas ainda
persiste na Caxias de hoje esse tipo de poluição. Virgem Maria!

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