Tuesday, June 03, 2014


10 - Os sons da cidade
 
 
 
Fato digno de nota era o serviço de alto-falantes do jornalista Zoelzer Poubel. Os ditos “falantes” ficavam sobre o telhado do edifício Melo - na esquina de Nunes Alves com Plínio Casado - e faziam propaganda de casas comerciais e prestadores de serviços. Os ditos falantes funcionavam praticamente o dia todo. Quando a noite chegava e a cidade diminuía sua agitação, eles podiam ser ouvidos até no Periquito, segundo nos afirmou o jornalista Eldemar de Souza que ali residia.
        Se olhássemos com atenção as cornetas dos alto-falantes, não seria difícil perceber que estavam todas furadas por balas, disparadas, possivelmente, por pessoas irritadas com a zoada que eles faziam. Hoje, passados os anos e sossegados os espíritos, até que gostaria de ouvir alguns divertidíssimos jingles que neles eram tocados. Lembro um que enaltecia as qualidades de um alfaiate. Não recordo o nome do tal alfaiate mas o versinho era assim: “...o alfaiate, faz roupa todo o dia, pois ele é o melhor do município de Caxias”. A composição era capenga, mas a musiquinha era até balançadinha.
 
Não era só o publicitário-deputado Zoelzer Poubel que explorava o serviço de alto-falantes. Existiam também os serviços móveis. Genival Rodrigues, com sua bonita voz e locução impecável, numa caminhonete percorria a cidade anunciando tudo para todos.
Porém o mais interessante de todos foi Serra Cardoso. Serra Cardoso era um homem de pequena estatura e muito magro, mas nem por isso desprovido de coragem e verve de autêntico tribuno da plebe. Contam que certa vez, por criticar Tenório em um folheto, tomou uma surra dos “amigos” do deputado. Pois bem, nosso tribuno não se intimidou e com a ajuda de amigos, durante os primeiros anos da ditadura implantada em 1964, alugava uma caminhonete provida de som e saia distribuindo, em cada esquina, seus ditirambos para louvar a “Redentora”. Tendo numa das mãos um microfone - que ele borrrifava com perdigotos - e na outra o pavilhão nacional - desbotado e amarfanhado – que agitava nervosamente, Serra Cardoso conclamava o povo a apoiar o golpe que livrara a família brasileira do solerte perigo vermelho. Era um espetáculo grotesco, quase “felliniano
 Era gozadíssimo ver o Serra Cardoso metido num surrado terno cinza, exaltadíssimo, vermelho e suando mais que tampa de chaleira, despejar aquela catilinária anti-bolchevista. Na época eu ficava puto, hoje acho tudo muito engraçado.
Em posição oposta estava Otacílio Dias de Lacerda. Também munido de um microfone, mas do lado de fora de um carro emprestado pelos donos das Lojas Preferidas, vociferava contra os poderosos. Algumas vezes ele conseguia reunir à sua volta um razoável número de populares que se deliciavam com sua pregação socialista e de defesa das riquezas nacionais. Era um político honesto e corajoso. Acabou sendo perseguido e “exilado” de Duque de Caxias.
 
Todos esses sons que invadiam a Caxias de antigamente eram fichinhas se comparados com o barulho dos possantíssimos trios elétricos de hoje”, verdadeiramente assustadores. Quando um deles passava pelo “Elite”, ensurdecendo todos aqueles que estavam nas proximidades,  Lauriano Cardoso dizia, indignado, que naquele momento gostaria de ter um 38, para meter bala no brutamonte.
Mas não era só isso. A maioria das casas comerciais, para chamar a atenção da freguesia, colocava, próximo de suas portas, barulhentas e distorcidas caixas de som. Um improvisado locutor dirigia o espetáculo, oferecendo aos passantes as mais variadas mercadorias, junto, claro, com suas piadinhas. Era uma verdadeira guerra de decibéis entre os estabelecimentos comerciais. Mas ainda persiste na Caxias de hoje esse tipo de poluição. Virgem Maria!
 
 
 
 
 
 

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