Tuesday, June 03, 2014


12 - A feira

 

 

 

Já que estamos nas proximidades da Praça do Pacificador, por que não lembrar a feira de domingo?

Quando fui morar em Caxias, a feira já não era mais o que fora nos anos 40. Mudara muito e, segundo os antigos, para pior. Ouvia falar que nos tempos áureos ela era tal e qual a feira de Caruaru. Ali se vendia de tudo, inclusive gado. Era tipicamente nordestina; é bom lembrar que a feira de São Cristóvão ainda não existia. Nordestino que se prezasse, fosse ele deputado da Capital Federal ou um simples porteiro de algum edifício da zona sul do Rio de Janeiro, domingo partia para Caxias em busca das coisas que só encontraria em suas terras de origem: rapadura, farinha da boa, cachaça de Pernambuco ou da Paraíba, ave de arribação, carne-de-sol, manteiga-de-garrafa  e comidinhas da Bahia: acarajé, abará, caruru, vatapá e mungunzá, feitas por negras em alvíssimas vestimentas típicas. Também se podia escutar violeiros fazendo desafios, cantando martelos agalopados e vendedores de folhetos que contavam as histórias de Joãozinho e Mariquinha, de Pedro Malazarte, do Pavão Misterioso, de Carlos Magno e os Doze Pares de França, as “pelejas” do Cego Aderaldo com o Zé Pretinho e também os versos desconcertantes do
Zé Limeira.

                              O Marechal Floriano

Antes de entrar pra Marinha

Perdeu tudo quanto tinha

Numa aposta com um cigano

Foi vaqueiro vinte ano

Fora os dez que foi sargento

Nunca saiu do convento

Nem pra lavar a corveta

Pimenta só malagueta

Diz o Novo Testamento!

Impressionante mesmo era ver e ouvir um sanfoneiro cego que através de uma engenhoca, muito bem construída, se acompanhava com uma verdadeira bateria comandada pelos seus pés. Ao lado, sua companheira ia recolhendo as moedas que os passantes lhe atiravam.

A feira de Caxias transcendia os estreitos limites do tempo e do espaço presentes, projetando-se para épocas e “distâncias infinitas”, como diria Barboza Leite. Nela, imagens atemporais poderiam surgir inesperadamente, insinuando, caoticamente, rastros medievos, renascentistas ou futuristas. Cores, sons e movimentos se misturavam, compondo uma ópera louca iluminada pelo sol morno da manhã.

Moleque, ainda na adolescência, foi ali que me iniciei na numismática. Partia religiosamente, todos os domingos, para comprar moedinhas antigas que eram vendidas num terreno baldio que ficava em frente ao Mercado Municipal. Lá se comercializava de tudo, inclusive pássaros silvestres (papagaios eram disputadíssimos), tartarugas, calangos, cabritos, porcos e peixinhos de aquário. Hoje é crime. Antes, não era; hoje, já era.

 

Mas a numismática não era o único atrativo que a feira me oferecia. A barraca de discos do Chico também me virava a cabeça.  Num desengonçado tabuleiro que ficava armado em frente as escadas da estação ferroviária, Chico amontoava pilhas e mais pilhas de velhos discos de 78 rotações. Alguns desses discos remontavam à época das gravações mecânicas. Ali, a freguesia se acotovelava no diminuto espaço do tabuleiro para examinar aquelas raridades.

 Num cantinho, sob a canina vigilância do Chico, ficavam os cobiçados long-plays. Em matéria de discos, os LPs representavam o máximo em tecnologia, eram novidade. Deles, Chico não deixava que nos aproximássemos. Ele próprio fazia questão de exibi-los e, na medida que mostrava os discos, fazia comentários sobre as músicas, os intérpretes a gravadora etc. Podemos dizer que esses comentários funcionavam como uma crítica canhestra, mas que, em muitos casos, ajudava o freguês a se decidir.

Na outra extremidade da barraca, Vicente - um mulato magrinho, monossilábico e sempre equilibrando uma guimba de cigarro no canto da boca – gerenciava a “seção de 78 rotações”.

 

Foi nesse saboroso ambiente de raridades e novidades que comecei a formar a minha “discoteca”. Meu primeiro disco (meu mesmo, comprado com o curto dinheiro da mesada) foi um 78 rotações de Glenn Miller. Era um disco de selo vermelho, se não me engano da RCA-Victor. Realizada a compra, meti o disco debaixo do braço e fui direto para  casa. Num só fôlego subi os três lances de escadas do edifício 25 de Agosto e, como quem vai apagar incêndio, entrei na pequena sala de nosso apartamento. Coloquei o disco na “aparelhagem de som” e comecei a ouvir os primeiros acordes de “Chattanooga Choo Choo”, tocada pela famosíssima orquestra de Glenn Miller. Passei o domingo todo escutando aquela melodia que ainda hoje trago bem guardada na memória. A feira era isso: um mundo fabuloso, dentro de nosso pequeno mundo.

 

O grande menestrel da feira de Caxias foi Barboza Leite, ele próprio nordestino, cearense de Uruoca. Fez um folheto belíssimo intitulado “A Grande Feira de Duque de Caxias”. Aqui está um pedacinho dessa jóia:

 

“A feira é um panorama

de efeito gigantesco

feito de sonhos e dramas

tangenciando o dantesco.

Também nela o grotesco

se alia ao maravilhoso

como o mendigo andrajoso

que esmola não pede, exige

e, aos circunstantes aflige

com seu aspecto horroroso.”

 

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