12 - A feira
Já que
estamos nas proximidades da Praça do Pacificador, por que não lembrar a feira
de domingo?
Quando
fui morar em Caxias, a feira já não era mais o que fora nos anos 40. Mudara
muito e, segundo os antigos, para pior. Ouvia falar que nos tempos áureos ela
era tal e qual a feira de Caruaru. Ali se vendia de tudo, inclusive gado. Era
tipicamente nordestina; é bom lembrar que a feira de São Cristóvão ainda não
existia. Nordestino que se prezasse, fosse ele deputado da Capital Federal ou
um simples porteiro de algum edifício da zona sul do Rio de Janeiro, domingo
partia para Caxias em busca das coisas que só encontraria em suas terras de
origem: rapadura, farinha da boa, cachaça de Pernambuco ou da Paraíba, ave de
arribação, carne-de-sol, manteiga-de-garrafa
e comidinhas da Bahia: acarajé, abará, caruru, vatapá e mungunzá, feitas
por negras em alvíssimas vestimentas típicas. Também se podia escutar violeiros
fazendo desafios, cantando martelos agalopados e vendedores de folhetos que
contavam as histórias de Joãozinho e Mariquinha, de Pedro Malazarte, do Pavão
Misterioso, de Carlos Magno e os Doze Pares de França, as “pelejas” do Cego
Aderaldo com o Zé Pretinho e também os versos desconcertantes do
Zé Limeira.
Zé Limeira.
O Marechal Floriano
Antes de entrar pra
Marinha
Perdeu tudo quanto
tinha
Numa aposta com um
cigano
Foi vaqueiro vinte
ano
Fora os dez que foi
sargento
Nunca saiu do
convento
Nem pra lavar a
corveta
Pimenta só
malagueta
Diz o Novo
Testamento!
Impressionante
mesmo era ver e ouvir um sanfoneiro cego que através de uma engenhoca, muito
bem construída, se acompanhava com uma verdadeira bateria comandada pelos seus
pés. Ao lado, sua companheira ia recolhendo as moedas que os passantes lhe
atiravam.
A feira
de Caxias transcendia os estreitos limites do tempo e do espaço presentes,
projetando-se para épocas e “distâncias infinitas”, como diria Barboza
Leite. Nela, imagens atemporais poderiam surgir inesperadamente, insinuando,
caoticamente, rastros medievos, renascentistas ou futuristas. Cores, sons e movimentos
se misturavam, compondo uma ópera louca iluminada pelo sol morno da manhã.
Moleque,
ainda na adolescência, foi ali que me iniciei na numismática. Partia
religiosamente, todos os domingos, para comprar moedinhas antigas que eram
vendidas num terreno baldio que ficava em frente ao Mercado Municipal. Lá se
comercializava de tudo, inclusive pássaros silvestres (papagaios eram
disputadíssimos), tartarugas, calangos, cabritos, porcos e peixinhos de
aquário. Hoje é crime. Antes, não era; hoje, já era.
Mas a
numismática não era o único atrativo que a feira me oferecia. A barraca de
discos do Chico também me virava a cabeça.
Num desengonçado tabuleiro que ficava armado em frente as escadas da
estação ferroviária, Chico amontoava pilhas e mais pilhas de velhos discos de
78 rotações. Alguns desses discos remontavam à época das gravações mecânicas.
Ali, a freguesia se acotovelava no diminuto espaço do tabuleiro para examinar
aquelas raridades.
Num cantinho, sob a canina vigilância do
Chico, ficavam os cobiçados long-plays. Em matéria de discos, os LPs
representavam o máximo em tecnologia, eram novidade. Deles, Chico não deixava
que nos aproximássemos. Ele próprio fazia questão de exibi-los e, na medida que
mostrava os discos, fazia comentários sobre as músicas, os intérpretes a
gravadora etc. Podemos dizer que esses comentários funcionavam como uma crítica
canhestra, mas que, em muitos casos, ajudava o freguês a se decidir.
Na
outra extremidade da barraca, Vicente - um mulato magrinho, monossilábico e
sempre equilibrando uma guimba de cigarro no canto da boca – gerenciava a
“seção de 78 rotações”.
Foi
nesse saboroso ambiente de raridades e novidades que comecei a formar a minha
“discoteca”. Meu primeiro disco (meu mesmo, comprado com o curto dinheiro da
mesada) foi um 78 rotações de Glenn Miller. Era um disco de selo vermelho, se
não me engano da RCA-Victor. Realizada a compra, meti o disco debaixo do braço
e fui direto para casa. Num só fôlego
subi os três lances de escadas do edifício 25 de Agosto e, como quem vai apagar
incêndio, entrei na pequena sala de nosso apartamento. Coloquei o disco na
“aparelhagem de som” e comecei a ouvir os primeiros acordes de “Chattanooga
Choo Choo”, tocada pela famosíssima orquestra de Glenn Miller. Passei o domingo
todo escutando aquela melodia que ainda hoje trago bem guardada na memória. A
feira era isso: um mundo fabuloso, dentro de nosso pequeno mundo.
O
grande menestrel da feira de Caxias foi Barboza Leite, ele próprio nordestino,
cearense de Uruoca. Fez um folheto belíssimo intitulado “A Grande Feira de Duque de Caxias”. Aqui está um pedacinho dessa
jóia:
“A
feira é um panorama
de
efeito gigantesco
feito
de sonhos e dramas
tangenciando
o dantesco.
Também
nela o grotesco
se alia
ao maravilhoso
como o
mendigo andrajoso
que esmola
não pede, exige
e, aos
circunstantes aflige
com seu
aspecto horroroso.”

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