Saturday, June 14, 2014


13 -A cidade partida

 

Não aquela cidade do livro do Zuenir Ventura, onde de um lado está acampada a violência e do outro a sociedade civil se mobilizando para sobreviver ao crime.

 

Não, a nossa era, felizmente, partida apenas geograficamente. Melhor dizendo, era partida pela estrada de ferro Leopoldina. Isso durou até o governo do prefeito Francisco Correia, quando o viaduto da rua Paulo Lins ainda não havia sido construído. Claro que a construção de um viaduto, atravessando a linha do trem era, para a época, algo arrojado. Muitos diziam que ele não iria suportar o grande movimento de carros, ônibus e caminhões. Para provar que sua obra era segura, Chico Correia arranjou um caminhão e encheu-o com areia, pendurado no estribo do veículo, atravessou triunfalmente o viaduto que construíra. Agora a oposição não tinha mais o que falar.

 

 

                     

                                   Prefeito Francisco Corrêa

Mas antes da construção do viaduto, o lado da Praça do Pacificador se comunicava com o outro lado, o da feira, através de cancelas. No centro, essas cancelas começavam na Plínio Casado ou na Rio-Petrópolis, cruzando a linha do trem, davam acesso à Avenida Duque de Caxias ou Presidente Vargas. Da Praça do Pacificador até o cemitério, tínhamos quatro ou cinco cancelas. Havia uma, a principal, que ficava nas imediações do Bar Assunção, onde hoje está a C&A, que já foi Cine Paz.

 

Desnecessário é dizer que eram perigosíssimas. Muitos desastres ali aconteceram, alguns com perda de preciosas vidas. Um desses acidentes, e que me chocou bastante, foi o que vitimou seu Antônio, um corretor de imóveis, oriundo de Itaperuna, nosso amigo, sessentão, corpulento e muito bem humorado.

Foram muitas as desgraças acontecidas nas famigeradas cancelas. Mas o tragicômico aconteceu com Pernambuco, um peixeiro muito conhecido por suas bebedeiras. Certo dia, depois de uma de suas carraspanas, caiu na linha do trem, veio o “mata-sapo” e decepou-lhe uma das pernas. Recuperado do acidente, tomou outro porre, caiu na linha e, novamente, o “mata-sapo” arrancou-lhe a perna que sobrara. Pernambuco podia ser visto, já velho, morando de favor num dos boxes do Mercado São Miguel, onde hoje funciona o Shopping Ela. Foi essa a história que me contaram, se não for verdade...queiram me desculpar.

 

 

 

                        

                           O viaduto uniu a cidade partida.

 

Mas não só desgraças essas passagens de nível ofereciam. Uma havia, quase em frente à casa do Tenório, que desembocava no “Buraco do Bené”, um barzinho muito pequeno, mas famoso por suas comidinhas: caranguejos, tripas de porco, moelas de galinha e cachaças.

 A turma do sereno se reunia no local para degustar os crustáceos, devidamente acompanhados de “cervas” geladíssimas e de “água que passarinho não bebe” e que, em alguns momentos, tem o poder de “amansar corno”. As paredes do Buraco eram enfeitadas com cascas de caranguejos devidamente assinadas por seus degustadores. A higiene não era o ponto forte do estabelecimento. Vez por outra, um ratinho passava, fazendo a alegria da freguesia, exclusivamente masculina. Os tabuleiros com os salgadinhos, expostos à sanha dos glutões, eram freqüentemente visitados por mimosas baratinhas, muito graciosas e envernizadinhas, essas que as mulheres chamam de francesinhas.

Banheiro não havia; quando a bexiga apertava, a gente se aliviava na linha do trem. Que perigo!

 

Eu, Barboza, Menezes e outros amigos noctívagos, para fugirmos da rotina do Garoto Fluminense, algumas vezes acampávamos por lá. Era divertido. De fato, Nelson Pereira dos Santos, diretor do filme “O Amuleto de Ogum”, tinha razão ao afirmar que Caxias era a capital cultural do Brasil. Era mesmo, hoje não sei.

 

. Um dia, entusiasmado com o sucesso do “Buraco”, Bené resolveu mudar o estabelecimento para um lugar maior, menos escondido e que pudesse oferecer mais conforto à sua fiel clientela. Não prestou, perdeu a graça, virou mais uma dessas lanchonetes horrorosas. Aí o povo, na sua inteligente crueldade, começou a chamar o local de “Buracão do Bené”. Não durou muito, em pouco tempo o “Buracão” fechou.

Naquele tempo Caxias era assim, de repente aparecia um bar novo, com uma “cenografia” diferente que iria atrair os noctívagos, boêmios e afins. Bares e restaurantes tinham charme, reuniam gente interessante, com papo-cabeça. Hoje vejo essas lanchonetes “chinesas”, horrorosas, com o pessoal se espremendo para comer aquele pastel cheio de óleo, espalhando gordua para todos os lados. Nesses estabelecimentos ninguém se conhece, não sabemos quem é o dono e o funcionamento obedece ao horário comercial. Neles não há lugar para o noctívago, para aquele que deseja apenas fazer hora. Só uma coisa me faz perdoar esses exóticos estabelecimentos: é o combate que dão aos “festifudes” tipo “Maquidonalde”- ainda mais burocráticos e frios -, que hibernam nas praças de alimentação dos shoppings.

Fato curioso, também, são os funcionários, chineses e cearenses se esfalfando para empanturrar a clientela com pastéis, coxinhas de galinha, joelhos de porco, caldo de cana, Coca-Cola e água de coco. Esse reencontro étnico, entre antigos e novos migrantes da Ásia, dentro de uma lanchonete, só poderia mesmo acontecer no Patropi.

 

Claro está que hoje temos casas oferecendo shows, mas tudo muito comercial, carregado de decibéis, luzes ofuscantes e com menininhos e menininhas de classe média exibindo aquelas tatuagens breguíssimas. Hoje quem passa pelas imediações do Shopping Center ou da UNIGRANRIO vê aquele montão de gente comendo, bebendo em meio a música funkeira, esporrenta, vinda dos falantes dos carros dos alunos. 

Aquele local onde rolava o papo-cabeça, onde se curtia uma espécie de solidão acompanhada e onde todas as noites derrubávamos o governo, desapareceu. Tudo mudou, nem ditaduras explícitas temos mais para derrubar. As lanchonetes, com seus incômodos banquinhos e “ficha no caixa”, iriam tomar o lugar dos aconchegantes botequins, com suas mesas, garçons e contas no “pendura”.

 Aqui, a “era” das lanchonetes parece ter começado com a inauguração da Las Vegas, que ficava de cara para a Praça do Pacificador. A novidade foi muito bem aceita pelo público. A Las Vegas obedecia a uma “racionalidade” típica dos grandes centros e dos novos tempos. Tudo muito bem iluminado, funcionários uniformizados, as mercadorias expostas em tabuleiros lembrando um jogo de xadrez. As coisas eram arrumadinhas e tão quadradinhas quanto a clientela que freqüentava o estabelecimento para saborear o misto quente, o sundae e a banana split. O clima que ali reinava não permitia longos papos; bebida, só acompanhada de comida. Quem desejasse “fazer hora” que fosse para fora do estabelecimento. Nem mesmo próximos de suas portas a presença de grupinhos era bem vista.  Mas elas foram vencendo e assim surgiu a “Mexicana”, o Solmar e outras mais. Os grandes restaurantes, como o Oceano e o Cruz de Malta acabaram banidos pela “racionalidade” dos “festifudes”.

Nos anos 70, durante o governo Renato Moreira, foi construído o viaduto do Centenário, unindo a cidade partida e acabando definitivamente com as perigosas cancelas.

0 Comments:

Post a Comment

<< Home