13 -A
cidade partida
Não
aquela cidade do livro do Zuenir Ventura, onde de um lado está acampada a
violência e do outro a sociedade civil se mobilizando para sobreviver ao crime.
Não, a
nossa era, felizmente, partida apenas geograficamente. Melhor dizendo, era
partida pela estrada de ferro Leopoldina. Isso durou até o governo do prefeito
Francisco Correia, quando o viaduto da rua Paulo Lins ainda não havia sido
construído. Claro que a construção de um viaduto, atravessando a linha do trem
era, para a época, algo arrojado. Muitos diziam que ele não iria suportar o
grande movimento de carros, ônibus e caminhões. Para provar que sua obra era
segura, Chico Correia arranjou um caminhão e encheu-o com areia, pendurado no
estribo do veículo, atravessou triunfalmente o viaduto que construíra. Agora a
oposição não tinha mais o que falar.
Prefeito Francisco Corrêa
Mas
antes da construção do viaduto, o lado da Praça do Pacificador se comunicava
com o outro lado, o da feira, através de cancelas. No centro, essas cancelas
começavam na Plínio Casado ou na Rio-Petrópolis, cruzando a linha do trem,
davam acesso à Avenida Duque de Caxias ou Presidente Vargas. Da Praça do
Pacificador até o cemitério, tínhamos quatro ou cinco cancelas. Havia uma, a
principal, que ficava nas imediações do Bar Assunção, onde hoje está a C&A,
que já foi Cine Paz.
Desnecessário
é dizer que eram perigosíssimas. Muitos desastres ali aconteceram, alguns com
perda de preciosas vidas. Um desses acidentes, e que me chocou bastante, foi o
que vitimou seu Antônio, um corretor de imóveis, oriundo de Itaperuna, nosso
amigo, sessentão, corpulento e muito bem humorado.
Foram
muitas as desgraças acontecidas nas famigeradas cancelas. Mas o tragicômico
aconteceu com Pernambuco, um peixeiro muito conhecido por suas bebedeiras.
Certo dia, depois de uma de suas carraspanas, caiu na linha do trem, veio o
“mata-sapo” e decepou-lhe uma das pernas. Recuperado do acidente, tomou outro
porre, caiu na linha e, novamente, o “mata-sapo” arrancou-lhe a perna que
sobrara. Pernambuco podia ser visto, já velho, morando de favor num dos boxes
do Mercado São Miguel, onde hoje funciona o Shopping Ela. Foi essa a história
que me contaram, se não for verdade...queiram me desculpar.
O viaduto uniu a cidade partida.
Mas não
só desgraças essas passagens de nível ofereciam. Uma havia, quase em frente à
casa do Tenório, que desembocava no “Buraco do Bené”, um barzinho muito
pequeno, mas famoso por suas comidinhas: caranguejos, tripas de porco, moelas
de galinha e cachaças.
A turma do sereno se reunia no local para
degustar os crustáceos, devidamente acompanhados de “cervas” geladíssimas e de
“água que passarinho não bebe” e que, em alguns momentos, tem o poder de
“amansar corno”. As paredes do Buraco eram enfeitadas com cascas de caranguejos
devidamente assinadas por seus degustadores. A higiene não era o ponto forte do
estabelecimento. Vez por outra, um ratinho passava, fazendo a alegria da
freguesia, exclusivamente masculina. Os tabuleiros com os salgadinhos, expostos
à sanha dos glutões, eram freqüentemente visitados por mimosas baratinhas,
muito graciosas e envernizadinhas, essas que as mulheres chamam de
francesinhas.
Banheiro
não havia; quando a bexiga apertava, a gente se aliviava na linha do trem. Que
perigo!
Eu, Barboza,
Menezes e outros amigos noctívagos, para fugirmos da rotina do Garoto
Fluminense, algumas vezes acampávamos por lá. Era divertido. De fato, Nelson
Pereira dos Santos, diretor do filme “O
Amuleto de Ogum”, tinha razão ao afirmar que Caxias era a capital cultural
do Brasil. Era mesmo, hoje não sei.
. Um
dia, entusiasmado com o sucesso do “Buraco”, Bené resolveu mudar o
estabelecimento para um lugar maior, menos escondido e que pudesse oferecer
mais conforto à sua fiel clientela. Não prestou, perdeu a graça, virou mais uma
dessas lanchonetes horrorosas. Aí o povo, na sua inteligente crueldade, começou
a chamar o local de “Buracão do Bené”. Não durou muito, em pouco tempo o
“Buracão” fechou.
Naquele
tempo Caxias era assim, de repente aparecia um bar novo, com uma “cenografia”
diferente que iria atrair os noctívagos, boêmios e afins. Bares e restaurantes
tinham charme, reuniam gente interessante, com papo-cabeça. Hoje vejo essas
lanchonetes “chinesas”, horrorosas, com o pessoal se espremendo para comer aquele
pastel cheio de óleo, espalhando gordua para todos os lados. Nesses
estabelecimentos ninguém se conhece, não sabemos quem é o dono e o
funcionamento obedece ao horário comercial. Neles não há lugar para o
noctívago, para aquele que deseja apenas fazer hora. Só uma coisa me faz
perdoar esses exóticos estabelecimentos: é o combate que dão aos “festifudes”
tipo “Maquidonalde”- ainda mais burocráticos e frios -, que hibernam nas praças
de alimentação dos shoppings.
Fato
curioso, também, são os funcionários, chineses e cearenses se esfalfando para
empanturrar a clientela com pastéis, coxinhas de galinha, joelhos de porco,
caldo de cana, Coca-Cola e água de coco. Esse reencontro étnico, entre antigos
e novos migrantes da Ásia, dentro de uma lanchonete, só poderia mesmo acontecer
no Patropi.
Claro
está que hoje temos casas oferecendo shows, mas tudo muito comercial, carregado
de decibéis, luzes ofuscantes e com menininhos e menininhas de classe média
exibindo aquelas tatuagens breguíssimas. Hoje quem passa pelas imediações do
Shopping Center ou da UNIGRANRIO vê aquele montão de gente comendo, bebendo em
meio a música funkeira, esporrenta, vinda dos falantes dos carros dos
alunos.
Aquele
local onde rolava o papo-cabeça, onde se curtia uma espécie de solidão
acompanhada e onde todas as noites derrubávamos o governo, desapareceu. Tudo
mudou, nem ditaduras explícitas temos mais para derrubar. As lanchonetes, com
seus incômodos banquinhos e “ficha no caixa”, iriam tomar o lugar dos
aconchegantes botequins, com suas mesas, garçons e contas no “pendura”.
Aqui, a “era” das lanchonetes parece ter
começado com a inauguração da Las Vegas, que ficava de cara para a Praça do
Pacificador. A novidade foi muito bem aceita pelo público. A Las Vegas obedecia
a uma “racionalidade” típica dos grandes centros e dos novos tempos. Tudo muito
bem iluminado, funcionários uniformizados, as mercadorias expostas em tabuleiros
lembrando um jogo de xadrez. As coisas eram arrumadinhas e tão quadradinhas
quanto a clientela que freqüentava o estabelecimento para saborear o misto
quente, o sundae e a banana split. O clima que ali reinava
não permitia longos papos; bebida, só acompanhada de comida. Quem desejasse
“fazer hora” que fosse para fora do estabelecimento. Nem mesmo próximos de suas
portas a presença de grupinhos era bem vista.
Mas elas foram vencendo e assim surgiu a “Mexicana”, o Solmar e outras
mais. Os grandes restaurantes, como o Oceano e o Cruz de Malta acabaram banidos
pela “racionalidade” dos “festifudes”.
Nos
anos 70, durante o governo Renato Moreira, foi construído o viaduto do
Centenário, unindo a cidade partida e acabando definitivamente com as perigosas
cancelas.

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