A Morte do Estudante
Rogério Torres
Anoitecia quando os primeiros alunos do Curso de Formação de Professores para o Ensino Normal começaram a chegar. Como faziam todos os dias, os estudantes se dirigiram para o portão principal do Instituto de Educação Governador Roberto Silveira, tentando entrar no estabelecimento para as aulas que em alguns minutos teriam início. Entretanto, foram impedidos. Aquela noite seria diferente, não haveria aula. Componentes da diretoria do Centro Acadêmico Euclides da Cunha, que tinham chegado antes dos demais colegas, após rápida e sumarrísima reunião, resolveram paralisar as atividades do CFPEN.
Houve um início de tumulto, pois alguns colegas não concordavam com a suspensão das aulas. Mas a diretoria do Centro Acadêmico se mostrava intransigente e, através de uma peroração desordenada e passional, tentava demover os colegas que desejavam furar a paralisação. Liderando os que forçavam a entrada no estabelecimento de ensino estavam duas conhecidas e respeitadíssimas madres do Colégio Santo Antônio, também alunas do curso. As irmãs do Santo Antônio, antigas professoras de muitas das alunas do Curso de Formação de Professores, detinham ainda grande poder sobre as suas ex-alunas e assim incentivavam estas a não aderir ao movimento paredista. Muito conservadoras, “apolíticas” e intransigentes, não podiam e nem queriam entender as razões que levaram a diretoria do CAEC a deflagrar a “greve”. Até mesmo uma professora de didática tentou, em vão, demover os intransigentes diretores do CAEC, Argumentou que o curso ainda não era reconhecido e poderia sofrer sanções por parte das autoridades do Ministério de Educação. Mas nada disso adiantou, as aulas foram suspensas.
Mas qual seria o verdadeiro motivo para tal celeuma? As razões, certamente, vinhas estampadas em letras garrafais na primeira página dos principais jornais brasileiros. Elas anunciavam que um estudante fora morto pela polícia no Restaurante do Calabouço.
Tudo começou quando os estudantes que freqüentavam o Restaurante do Calabouço - que funcionava onde hoje está localizado o trevo rodoviário próximo do Aeroporto Santos Domont - começaram um movimento de protesto contra o aumento das refeições e o mau funcionamento do estabelecimento. A polícia, ciente do fato, como de hábito, partiu para a imediata repressão. O que prometia ser mais uma escaramuça entre estudantes e policiais acabou se transformando numa tragédia. A violência da repressão traria como saldo o espancamento brutal dos estudantes e a morte de Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, estudante paraense fuzila do com um tiro de pistola calibre 45, disparado pelo tenente que comandava a tropa. Este fato trágico inseria-se numa série de confrontos entre o movimento estudantil e o governo ditatorial imposto pelo golpe de 1964.
Desde 1967a temperatura política vinha se elevando entre o governo e o movimento estudantil, pois as manifestações vinham sendo reprimidas com violência. Os estudantes protestavam não apenas contra a ditadura, mas também contra a política educacional que o governo vinha realizando. Contribuiu para isso a extinção da União Nacional dos Estudantes (UNE) e das Uniões Estaduais de Estudantes (UEEs), a realizações de congressos clandestinos, os protestos dos excedentes e o polêmico acordo do Ministério da Educação e Cultura com a United States Agency for International Development (acordo MEC/USAID). O acordo MEC/USAID objetivava a privatização do ensino e o seu direcionamento para a formação de mão-de-obra especializada a ser aplicada nas empresas capitalistas. O ensino deveria ser exclusivamente técnico, desconsiderando-se totalmente os seus aspectos humanísticos. Naquele momento os estudantes eram talvez a única força, ainda disponível, capaz de responder de forma clara e corajosa aos que solertemente, através de Atos Institucionais, demoliam o que restara das instituições democráticas. A morte de Edson Luís foi uma espécie de “morte anunciada”, se me permitem o clichê.
Após ser baleado, o estudante Edson Luís foi conduzido por seus colegas para a Santa Casa da Misericórdia, não muito longe do Calabouço. Mas nada mais poderia ser feito, o estudante já estava morto. Revoltados, seus companheiros, num dramático cortejo, conduziram o corpo sem vida em direção à Assembléia Legislativa. A multidão que acompanhava o cortejo, aos gritos de “polícia assassina”, invadiu o Legislativo e lá permaneceu até a madrugada velando o corpo do infeliz estudante. As autoridades e a polícia tudo fizeram para evitar o velório,que transformara-se num gigantesco ato de protesto, tudo em vão. Do lado de fora da Assembléia estudantes faziam inflamados discursos e atiravam pedras na polícia, que reagia com golpes de cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. O massacre de 28 de março de 1968 transformara-se numa crise política de proporções nacionais. Os teatros da Guanabara foram fechados e os artistas, solidários com os estudantes, anunciaram luto de três dias. O luto estendeu-se às escolas, diretórios e á própria Assembléia Legislativa, as aulas foram suspensas em todo o Estado da Guanabara.
O governador Negrão de Lima, eleito pela oposição, tentando minimizar a crise, reuniu-se com seus secretários. Na busca de uma saída honrosa para o governo demitiu auxiliares, mandou prender o tenente assassino e comprometeu-se a custear o enterro de Edson Luis. O comandante do I Exército, percebendo a extensão da crise, anuncia a prontidão em todas as guarnições da Guanabara. De Brasília, através de seu secretário de imprensa, Costa e Silva declarava já ter sido informado, pelo Ministério da Justiça, dos acontecimentos da Guanabara e que o seu governo estava se empenhando em manter a ordem.
No dia seguinte ao assassinato do estudante, mais de 50.000 pessoas, aglomeradas na frente da Assembléia, aguardavam o momento de levar o corpo do estudante para o Cemitério São João Batista. O cortejo fúnebre deixou a Assembléia às 16 horas e 20 minutos, seguiu pela Avenida Beira-Mar, indo em direção à Praia do Flamengo. Em frente a extinta sede da UNE o cortejo parou e os estudantes queimaram uma bandeira norte-americana. Tumultos e quebra-quebra continuaram durante toda a caminhada até o cemitério. Às 18 horas e 20 minutos o cortejo chegou ao São João Batista. Diante da multidão que se aglomerara na entrada da necrópole, os estudantes que conduziam o caixão tiveram de permanecer por mais de uma hora, à espera de que a massa fosse retirada do local. Finalmente, às 19 horas e 20 minutos o corpo de Edson Luis foi sepultado. Extinguira-se uma vida, mas nascia agora uma nova e cruenta etapa da luta entre os estudantes e a ditadura.
Tinha razão a diretoria do CAEC em sua indignação. Justificava-se a suspensão das aulas naquela noite no Instituto de Educação Roberto Silveira. Éramos jovens, sonhadores e politizados.
Barboza Leite não se omitiria diante da luta dos estudantes. Em “Chão dos Caminhos”, sensibilizado pelo trágico acontecimento, escreveria um poema intitulado “O Grito da Juventude”, cuja última estrofe trazia os seguintes versos:
Um moço perdeu a vida
fulminado num instante,
quando as agulhas cortaram
o seu grito de estudante.
Mesmo assim pelas esquinas
desta ou de outra nação,
outros jovens estão gritando
e jamais se calarão.
Para atenuar o desconhecimento de algum acadêmico atabalhoado, que aos circunstantes acusa de cooptados, ficam aqui registradas essas “mal traçadas linhas”, cometidas por um “memorialista” que não confunde o lirismo (real) de um poema e seu autor (Barboza Leite) com um pseudo e esporádico engajamento de uma autoria “ar ranhada”, anedótica e pouco representativa. No dia 29 de março de 1968, estávamos na porta do Instituto de Educação Roberto Silveira, junto com meia dúzia de colegas que recusavam-se a aceitar a apatia e a omissão de alguns companheiros alienados e (ou) acovardados. A postura corajosa e desafiadora da direção do CAEC – diante dos acontecimentos de 1968 - iria trazer para os seus componentes muitos dissabores; mas isso é uma outra história.