Monday, July 24, 2006

A Fabrica do Corte Oito

O historiador Stélio Lacerda está ultimando o capítulo final do livro "A Fábrica de Tecidos do Corte Oito". A obra, a ser lançada brevemente, aborda as origens, o desenvolvimento e o triste final da Companhia União Manufatora de Tecidos. A CUMT, como era conhecida, produziu os famosos linhos Braspérola. Vou transcrever um pequeno trecho do trabalho:
"A periferia das grandes cidades atraiu indústrias, como o foi o caso - no Rio de Janeiro – do Andaraí, Gamboa, São Cristóvão, Madureira, Bangu... As fábricas contribuíam ao povoamento das áreas suburbanas – a Companhia Progresso Industrial do Brasil, ao inaugurar sua fábrica de tecidos em Bangu, em 1889, incentivou o povoamento daquela região. Em Duque de Caxias, na década de 1940, instalaram-se duas grandes empresas: a FNM (Fábrica Nacional de Motores), em Xerém; e a Companhia União Manufatora de Tecidos, no bairro Centenário. Nos anos seguintes, o perfil industrial se acentuou com a chegada de fábricas de menor porte – metalúrgicas, produtos alimentícios, material de limpeza... Nos anos 1960, consolidou-se a industrialização da cidade com o Pólo Petroquímico - a REDUC (Refinaria Duque de Caxias)."

A Morte do Estudante

A Morte do Estudante


Rogério Torres


Anoitecia quando os primeiros alunos do Curso de Formação de Professores para o Ensino Normal começaram a chegar. Como faziam todos os dias, os estudantes se dirigiram para o portão principal do Instituto de Educação Governador Roberto Silveira, tentando entrar no estabelecimento para as aulas que em alguns minutos teriam início. Entretanto, foram impedidos. Aquela noite seria diferente, não haveria aula. Componentes da diretoria do Centro Acadêmico Euclides da Cunha, que tinham chegado antes dos demais colegas, após rápida e sumarrísima reunião, resolveram paralisar as atividades do CFPEN.
Houve um início de tumulto, pois alguns colegas não concordavam com a suspensão das aulas. Mas a diretoria do Centro Acadêmico se mostrava intransigente e, através de uma peroração desordenada e passional, tentava demover os colegas que desejavam furar a paralisação. Liderando os que forçavam a entrada no estabelecimento de ensino estavam duas conhecidas e respeitadíssimas madres do Colégio Santo Antônio, também alunas do curso. As irmãs do Santo Antônio, antigas professoras de muitas das alunas do Curso de Formação de Professores, detinham ainda grande poder sobre as suas ex-alunas e assim incentivavam estas a não aderir ao movimento paredista. Muito conservadoras, “apolíticas” e intransigentes, não podiam e nem queriam entender as razões que levaram a diretoria do CAEC a deflagrar a “greve”. Até mesmo uma professora de didática tentou, em vão, demover os intransigentes diretores do CAEC, Argumentou que o curso ainda não era reconhecido e poderia sofrer sanções por parte das autoridades do Ministério de Educação. Mas nada disso adiantou, as aulas foram suspensas.
Mas qual seria o verdadeiro motivo para tal celeuma? As razões, certamente, vinhas estampadas em letras garrafais na primeira página dos principais jornais brasileiros. Elas anunciavam que um estudante fora morto pela polícia no Restaurante do Calabouço.
Tudo começou quando os estudantes que freqüentavam o Restaurante do Calabouço - que funcionava onde hoje está localizado o trevo rodoviário próximo do Aeroporto Santos Domont - começaram um movimento de protesto contra o aumento das refeições e o mau funcionamento do estabelecimento. A polícia, ciente do fato, como de hábito, partiu para a imediata repressão. O que prometia ser mais uma escaramuça entre estudantes e policiais acabou se transformando numa tragédia. A violência da repressão traria como saldo o espancamento brutal dos estudantes e a morte de Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos, estudante paraense fuzila do com um tiro de pistola calibre 45, disparado pelo tenente que comandava a tropa. Este fato trágico inseria-se numa série de confrontos entre o movimento estudantil e o governo ditatorial imposto pelo golpe de 1964.
Desde 1967a temperatura política vinha se elevando entre o governo e o movimento estudantil, pois as manifestações vinham sendo reprimidas com violência. Os estudantes protestavam não apenas contra a ditadura, mas também contra a política educacional que o governo vinha realizando. Contribuiu para isso a extinção da União Nacional dos Estudantes (UNE) e das Uniões Estaduais de Estudantes (UEEs), a realizações de congressos clandestinos, os protestos dos excedentes e o polêmico acordo do Ministério da Educação e Cultura com a United States Agency for International Development (acordo MEC/USAID). O acordo MEC/USAID objetivava a privatização do ensino e o seu direcionamento para a formação de mão-de-obra especializada a ser aplicada nas empresas capitalistas. O ensino deveria ser exclusivamente técnico, desconsiderando-se totalmente os seus aspectos humanísticos. Naquele momento os estudantes eram talvez a única força, ainda disponível, capaz de responder de forma clara e corajosa aos que solertemente, através de Atos Institucionais, demoliam o que restara das instituições democráticas. A morte de Edson Luís foi uma espécie de “morte anunciada”, se me permitem o clichê.
Após ser baleado, o estudante Edson Luís foi conduzido por seus colegas para a Santa Casa da Misericórdia, não muito longe do Calabouço. Mas nada mais poderia ser feito, o estudante já estava morto. Revoltados, seus companheiros, num dramático cortejo, conduziram o corpo sem vida em direção à Assembléia Legislativa. A multidão que acompanhava o cortejo, aos gritos de “polícia assassina”, invadiu o Legislativo e lá permaneceu até a madrugada velando o corpo do infeliz estudante. As autoridades e a polícia tudo fizeram para evitar o velório,que transformara-se num gigantesco ato de protesto, tudo em vão. Do lado de fora da Assembléia estudantes faziam inflamados discursos e atiravam pedras na polícia, que reagia com golpes de cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo. O massacre de 28 de março de 1968 transformara-se numa crise política de proporções nacionais. Os teatros da Guanabara foram fechados e os artistas, solidários com os estudantes, anunciaram luto de três dias. O luto estendeu-se às escolas, diretórios e á própria Assembléia Legislativa, as aulas foram suspensas em todo o Estado da Guanabara.
O governador Negrão de Lima, eleito pela oposição, tentando minimizar a crise, reuniu-se com seus secretários. Na busca de uma saída honrosa para o governo demitiu auxiliares, mandou prender o tenente assassino e comprometeu-se a custear o enterro de Edson Luis. O comandante do I Exército, percebendo a extensão da crise, anuncia a prontidão em todas as guarnições da Guanabara. De Brasília, através de seu secretário de imprensa, Costa e Silva declarava já ter sido informado, pelo Ministério da Justiça, dos acontecimentos da Guanabara e que o seu governo estava se empenhando em manter a ordem.
No dia seguinte ao assassinato do estudante, mais de 50.000 pessoas, aglomeradas na frente da Assembléia, aguardavam o momento de levar o corpo do estudante para o Cemitério São João Batista. O cortejo fúnebre deixou a Assembléia às 16 horas e 20 minutos, seguiu pela Avenida Beira-Mar, indo em direção à Praia do Flamengo. Em frente a extinta sede da UNE o cortejo parou e os estudantes queimaram uma bandeira norte-americana. Tumultos e quebra-quebra continuaram durante toda a caminhada até o cemitério. Às 18 horas e 20 minutos o cortejo chegou ao São João Batista. Diante da multidão que se aglomerara na entrada da necrópole, os estudantes que conduziam o caixão tiveram de permanecer por mais de uma hora, à espera de que a massa fosse retirada do local. Finalmente, às 19 horas e 20 minutos o corpo de Edson Luis foi sepultado. Extinguira-se uma vida, mas nascia agora uma nova e cruenta etapa da luta entre os estudantes e a ditadura.
Tinha razão a diretoria do CAEC em sua indignação. Justificava-se a suspensão das aulas naquela noite no Instituto de Educação Roberto Silveira. Éramos jovens, sonhadores e politizados.
Barboza Leite não se omitiria diante da luta dos estudantes. Em “Chão dos Caminhos”, sensibilizado pelo trágico acontecimento, escreveria um poema intitulado “O Grito da Juventude”, cuja última estrofe trazia os seguintes versos:




Um moço perdeu a vida
fulminado num instante,
quando as agulhas cortaram
o seu grito de estudante.
Mesmo assim pelas esquinas
desta ou de outra nação,
outros jovens estão gritando
e jamais se calarão.



Para atenuar o desconhecimento de algum acadêmico atabalhoado, que aos circunstantes acusa de cooptados, ficam aqui registradas essas “mal traçadas linhas”, cometidas por um “memorialista” que não confunde o lirismo (real) de um poema e seu autor (Barboza Leite) com um pseudo e esporádico engajamento de uma autoria “ar ranhada”, anedótica e pouco representativa. No dia 29 de março de 1968, estávamos na porta do Instituto de Educação Roberto Silveira, junto com meia dúzia de colegas que recusavam-se a aceitar a apatia e a omissão de alguns companheiros alienados e (ou) acovardados. A postura corajosa e desafiadora da direção do CAEC – diante dos acontecimentos de 1968 - iria trazer para os seus componentes muitos dissabores; mas isso é uma outra história.

Eu e a fábrica

EU E A FÁBRICA

Rogério Torres


Das imagens mais caras que guardo da infância, boa parte me vem de São Bento, onde morei por pouco mais de um ano. Nos anos cinqüenta do século que se foi, o Núcleo Colonial de São Bento era um local muito bonito, quase um paraíso. De imediato, chamava a atenção do visitante a grande e pesada porteira de madeira que separava a Rio-Petrópolis da comprida estrada que dava acesso às casas dos colonos. Essa estrada, de terra batida, era guarnecida por pés de eucaliptos que estavam sempre a perfumar o local. Quinhentos ou seiscentos metros mais adiante, surgia imponente e muito alva a centenária fazenda que pertencera aos beneditinos, na época bem tratada ajardinada e que servia de sede ao Núcleo Colonial. As casinhas dos funcionários do Ministério da Agricultura eram padronizadas e embora simples, eram graciosas e confortáveis. Não possuíam muros ou cercas e na frente ostentavam um belo gramado, parecia coisa de filme norte-americano.
Mas essa não era a única imagem que me tocava, existiam outras e dentre elas a Rio-Petrópolis. Essa estrada octogenária era na época pouco movimentada. Em suas margens havia muita vegetação e pouquíssimas construções. De São Bento para o centro de Caxias poderíamos citar, como pontos de especial interesse, a Indústria Rei, o Centro Pan-americano de Febre Aftosa, a casa das bombas, no rio Sarapuí, a Estação Transmissora do Departamento dos Correios e Telégrafos e, já bem próximo da cidade, o imponente e austero prédio da Companhia União Manufatora de Tecidos. Na ignorância de minha puberdade, jamais imaginei a importância daquele estabelecimento para a economia do município ou mesmo para a do Brasil. Apenas duas coisas ali mexiam com a minha cabeça: uma era o “bicicletário” dos operários, repleto de “magrinhas” “Philips”, “Hercules” e “Monarcks”, eu era vidrado em bicicletas; a outra coisa que me deixava curioso eram as quatro letras em azul, pregadas no torreão da fábrica e que formavam o acrônimo CUMT. Na minha cabecinha púbere, já perturbada pelos hormônios, e estimulado pelos livrinhos de Carlos Zéfiro, aquele CUMT me lembrava sacanagem. E todo dia, quando o ônibus que me levava para a escola passava pela fábrica de tecidos, eu não podia deixar de olhar com admiração e malícia para aquele CUMT.
O tempo foi passando, eu amadureci e a fábrica envelheceu. O modelar estabelecimento que outrora produzira um dos melhores linhos do mundo, o Brasperola, sucumbira diante das novas tecnologias têxteis e das fibras sintéticas.
Do passado opulento sobraram apenas lembranças e o imponente edifício, agora com suas quatro letras desbotadas e maculado pelas horrorosas pichações grafadas em sua fachada.
No governo do prefeito Washington Reis a Secretaria de Cultura anunciou que a área seria desapropriada, o prédio reformado e ali criado um espaço dedicado às artes. Seria uma espécie de alternativa mais inteligente e barata ao inoperante “Monstrengo Cultural” parido pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Acreditamos, mas fomos enganados. Da noite para o dia, sem estardalhaço, sem uma placa indicando qualquer coisa ( tipo de obra, engenheiro responsável et cetera.), o local foi tomado por operários e máquinas que praticamente já derrubaram tudo. Foi uma violência contra uma cidade que vê, sem nada poder fazer, os efeitos “da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Pegou mal, prefeito.

PS: Quem desejar conhecer a história da Companhia União Manufatora de Tecidos, entre em contato com o Instituto Histórico da Câmara Municipal de Duque de Caxias. Lá o pesquisador encontrará um criterioso trabalho elaborado pelo professor Stélio Lacerda que faz um retrato fiel e de corpo inteiro da CUMT.

Barbaridade com a CUMT

A Mestra da Vida e o Prefeito Jubilado

Rogério Torres


Se a História, como dizia Cícero, é a “mestra da vida”, convenhamos, devemos ser péssimos alunos; aquele aluno que senta na última carteira, não faz os exercícios, não traz o material escolar e todo ano fica em recuperação. Repetimos sempre as mesmas tolices, os mesmos erros, as grandes tragédias. As guerras estão aí como exemplos inquestionáveis. Mas não quero me perder em palavrório inútil, como inútil tem sido as aulas da “mestra”. Vamos direto ao assunto. A demolição do edifício da Companhia União Manufatora de Tecidos é um desses tristes exemplos da inutilidade da História como “mestra da vida”. Para não ir muito longe, quero lembrar - neste espaço gentilmente cedido pelo jornal – o triste e gratuito episódio da demolição do Palácio Monroe.
O Monroe, um dos prédios que compunha o conjunto de edificações genericamente chamado de eclético, ficava no final da Avenida Rio Branco. Fora projetado por Souza Aguiar e construído em 1904 para servir de pavilhão na Exposição Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos. Terminada a exposição, foi desmontado e reconstruído, em 1906, na Praça Marechal Floriano na Cinelândia, Rio de Janeiro . Logo após ser remontado, sediou a 3ª Conferência Pan-Americana, sendo aí batizado com o nome de Palácio Monroe, em homenagem ao presidente americano. De 1907 a 1914 serviu como salão de festas do Distrito Federal. Em 1914, durante oito anos, abrigou a Câmara dos Deputados. Em 1922, serviu de sede para a Comissão Executiva da Exposição Comemorativa do Centenário da Independência. Para receber o Senado, em 1923, foi reformado. Quando Getúlio Vargas, em 1937, fechou o Congresso, o Monroe passou a hospedar o Ministério da Justiça, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e a Hora do Brasil. Com o fim do Estado Novo, voltou a sediar o Senado até a mudança da capital para Brasília, em 1960. A partir daí ficou praticamente abandonado.
Vítima da sanha dos falsos “profetas” do progresso e da modernidade foi derrubado no meado da década de 70 do século que se findou. Nem a importância arquitetônica ou histórica sensibilizaram o presidente Geisel que, no dia 11 de outubro de 1975, autorizou o Patrimônio da União a providenciar a demolição do Monroe. Para a derrubada do Monroe muitas coisas foram alegadas: que ele atrapalhava o traçado da linha do metrô, que a manutenção do palácio era muito cara, que atrapalhava o trânsito no local, que fazia lembrar um Brasil arcaico e corrupto, que a “Redentora” (de 1964) deveria sepultar. Tudo indica, entretanto, que por trás desses argumentos inconsistentes estava o lobby dos especuladores imobiliários.
Com a CUMT aconteceu algo parecido. Poderosos interesses econômicos derrubaram, sorrateiramente, um patrimônio que de há muito deveria ter sido desapropriado pela prefeitura. Afinal, a CUMT foi um dos pilares de nossa industrialização, ali funcionou uma verdadeira escola para a formação de profissional do setor têxtil. Foi um centro que muito contribuiu para a organização social de nossos operários. Isto sem falar nos impostos que recolheu para os cofres públicos. Quem não se lembra dos linhos Braspérola? Uma boa parte de nossa história estava contida naquelas sólidas paredes, hoje reduzidas a pó.
Havia uma promessa do prefeito Washington Reis de fazer do local um centro de artes. Aquela promessa deixou-nos felizes, pois o “urbanamente incorreto” “Monstrengo Cultural”, do arquiteto Oscar Niemeyer, jamais funcionou. Mais uma vez fomos enganados, mais uma vez perdemos. Mas, se perdeu o “cidadão-eleitor-contribuinte”, perdeu também o prefeito omisso, jubilado pela “mestra da vida”.

Iniciando

Vou começar