Saturday, May 24, 2014


3- De Vaz Lobo para São Bento.

 

 

Chegou, finalmente, o dia da mudança. Tudo fora preparado para o bota-fora. O que não prestava foi jogado no lixo, inclusive minhas duas gatinhas - Chinha Preta e Chinha Branca -, colocadas num saco de estopa entregue ao funcionário do Departamento de Limpeza Urbana, que recolhia o lixo com uma carroça cinza, pesada, puxada por um burro sonolento, defecador e sempre coberto de moscas. Apesar das recomendações para que não maltratasse as bichinhas, o homem pegou o saco, de qualquer jeito, e pendurou na traseira da carroça cinza e infecta do Departamento de Limpeza Urbana (D.L.U.(). Meus pais me explicaram que os animais não se acostumariam com a nova casa, portanto seria melhor que fossem doados para outras pessoas. Doados? Tive minhas dúvidas, mas o que fazer?  Criança, sempre ouvi dizer, não tem vontade.

 

 

 

 

 

            

 

 

Um caminhão baú da Lusitana (aquela que dizia que o mundo girava e ela rodava) ou das Brasileiras, não me lembro exatamente qual, parou na rua Joaí e, rapidamente, foram embarcados os cacarecos: um fedorento fogão de querosene, alguns trens de cozinha, os móveis de sala, que incluía um itajer, mesa com quatro cadeiras desengonçadas, minha cama Patente Faixa Azul (hoje raridade, disputada por colecionadores) e os móveis de quarto de meus pais, onde se destacava uma penteadeira com um espelho redondo, em art déco, muito interessante, além de um balaio  contendo as ferramentas do meu pai. Apesar de nossos móveis e utensílios serem muito antigos e desgastados, o velho não abria mão do “luxo” de transportá-los em empresas famosas como as citadas acima. Alegava que elas eram eficientes e não quebravam nada. Que ironia, as poucas coisas que possuíamos já apresentavam severas marcas feitas pelo tempo. Fato comprovado por uma espetacular queda que meu pai teve ao sentar, inadvertidamente, numa das cadeiras quebradas e amarradas com barbante que, silenciosamente, aguardava sorrateira, algum desavisado. O tombo espetacular foi testemunhado por mim e um amigo do meu pai que naquele dia visitava nossa casa. Morri de vergonha... 

 

E lá fomos nós para a nova vida, em um lugar que parecia o fim do mundo, porém bem mais interessante que Vaz Lobo, um bairro pobre, feio e parecendo ser inimigo do progresso. Deixamos para trás a casinha em que morávamos, geminada com a de nosso senhorio, seu Manuel, um português de pele amorenada, estatura mediana, educado, mas marido severo e pai rigoroso, que gostava de dar uns "catiripapos” na mulher, dona Rita. Também à distância ficava o Colégio Republicano e a professora Wanda, minha primeira paixão; o Colégio Manoel Machado, com o professor Wilson, que apesar de não ter um braço escrevia à máquina com grande desenvoltura. Felizmente, nunca mais teria que assistir as aulas do professor Ildefonso, um mulato magro, calvo, sisudo, que parecia odiar os alunos. Encerrava-se, sem muitas saudades, uma etapa de minha existência. Vaz Lobo fora apenas um “acidente” em minha vida. Uma verdadeira trombada de lotação, mas que hoje me dá saudades.

 

Sei que estes comentários sobre Vaz Lobo podem dar a você, leitor, a ideia de que eu só via pontos negativos naquele local. Ledo engano. O bairro, que fica entre Madureira e Irajá, me deixou algumas lembranças gratas. Uma delas já confessei, foi a primeira paixão, a professora Wanda. Outra, era o som de uma radiovitrola, vindo da casa vizinha, que tocava, quase o dia todo, melodias que estavam nas paradas de sucesso. Uma delas me fez descobrir a “música popular brasileira”. Era cantada por Elizete Cardoso e tinha como autores Helano de Paula e Chocolate. Seu título: “Canção de Amor”. Era linda, linda, linda. Mas tinha também os circos que por lá apareciam: Olimecha, Zoo-Americano e outros que o tempo apagou da minha memória. Certo dia chegou um circo bem “mequetrefe”, mas com aquela rumbeira espetacular. Que mulher bonita e ondulante, confesso que me apaixonei pela garota de corpo escultural, esquecendo, momentaneamente dona Wanda. Acho que estava começando a despertar para as coisas do sexo. "Santo Deus", quantas fantasias, quantas besteiras passaram pela minha cabeça, que sensação de pecado.

 

 

 

 

 

          

   



 

 

 

Alguns amiguinhos também me trazem boas recordações. Mas a lembrança que talvez tenha deixado em minha consciência a impressão mais profunda foi a descoberta da ação transformadora do homem sobre a natureza. Explico: certo dia, caminhando por uma rua em cuja esquina havia um posto de gasolina, observei os empregados descarregando um caminhão-tanque enorme. Foi um verdadeiro “estalo de Vieira”. Naquele instante percebi que quase tudo à minha volta era produto do trabalho humano. Na inocência de meus 8 anos, nunca tinha pensado que as casas, os carros, o pão, as roupas e tudo mais, eram coisas fabricadas por gente igual a mim. Percebi que o outro existia independente de mim ou da minha consciência. Descobri que eu era parte do mundo e não este parte de mim. Entrava, assim, no “estágio operatório concreto”. Será que estou falando besteira?

 

Seria ingrato se não citasse, com uma pitada de saudade, o Cine Vaz Lobo como local de boas lembranças. Foi nesse “poeira” que assisti, pela primeira vez, e em companhia de minha mãe, um arremedo de “programa de auditório” que os artistas da Rádio Nacional “mambembavam” pelos bairros cariocas. O rádio era o máximo e a televisão ainda engatinhava. Poucos tinham condições financeiras para comprar um aparelho - crediário era uma coisa feito cabeça de bacalhau, muito rara -, além de tudo a recepção era péssima e os programas improvisadíssimos. A tv. não tinha a menor credibilidade. O que imperava mesmo era o rádio, através das ondas da Nacional, da Tupi, da Mayrink Veiga. Claro, estas emissoras não eram as únicas, mas, certamente, as mais importantes. Tempo bom...bom?

 

Recordações menos nítidas me vêm à consciência: o bondinho que ligava Irajá a Madureira, parecendo andar pela calçada, pois seus trilhos ficavam no mesmo nível desta. O famoso Mercado de Madureira, o Teatro de Zaquia Jorge (pioneira do teatro nos subúrbios) e o Império Serrano. Tudo isso redimia Vaz Lobo.

 

O bondinho deixou na minha cabeça, durante muito tempo, uma imagem sinistra. Certo dia, numa curva muito fechada, saltou dos trilhos e esmagou uma estudante da minha escola contra o muro diante do qual a jovem passava. Foi uma tragédia, a consternação foi geral no meu colégio.

 

                 

                                        

 

 

 

 

 

  

 

 

 

Ir ao Mercado de Madureira era uma festa para mim. Aquele era um dos poucos passeios que eu podia fazer. Acompanhando minha mãe, percorria todos os boxes. A “coroa” era exigente quanto ao preço e à qualidade daquilo que comprava. Afinal, a responsabilidade de esticar o minguado orçamento doméstico era de d. Cleia. Mas, em alguns momentos, demonstrando liberalidade, coisa raríssima, permitia que eu levasse para casa um cachimbinho de barro, um pião ou um pintinho recém-nascido, que durava pouco mais de dois dias. 

                

 Mas voltemos para São Bento. Um mugido rouco e prolongado me acordara naquela manhã ensolarada. Curioso, fui até a janela do quarto para saber quem era o “atrevido” (ou atrevida) que interrompera o meu sono naquela primeira noite passada em nossa nova casa de São Bento.

 

Postada, pachorrentamente, bem embaixo da janela do meu quarto estava a autora do inconveniente mugido. Era uma esquálida, porém simpática, vaquinha holandesa chamada Cozinheira. Cheia de bernes e carrapatos, Cozinheira parecia, com seu mugido rouco e prolongado, desejar dar as boas vindas para a pequena família que agora fazia da casa da Estação Receptora de São Bento o seu novo lar.

 

 

 


              

 

 

Depois de tomar o café, engolido apressadamente, fui explorar as imediações de nossa casa. O que vi naquela manhã era completamente diferente do que vira e vivera até então. Tudo me parecia sem limites, o quintal, as terras da estação rádio-receptora, toda espetada com antenas para captar os sinais de ondas curtas que nos ligavam com o mundo. Até um rio eu tinha à minha disposição, com peixes e “frangos d’água”. São Bento, pelos idos dos anos 50, guardava alguns vestígios dos tempos em que a caça e a pesca ainda testemunhavam um passado de abundância, ecologicamente quase correto. O Núcleo Colonial possuía ainda muitos pássaros, tatus, alguns jacarés, bastante preás, cobras , muitos morcegos e uma variedade incrível de insetos. Quando seu Abílio varria as calçadas da “rádio”, recolhia dezenas de besouros, de todos os tipos e tamanhos. Ali tudo era diferente dos demais lugares que eu tinha visto até então, um verdadeiro paraíso. Muito verde, árvores frutíferas, gado pastando juntinho de nossa casa, o rio Iguaçu, que passava a poucos metros do fundo de nosso quintal. Tudo com dois aromas especiais: do mato e do gado que era criado por seu Abílio, um pernambucano magrinho, de pele muito branca e que era o servente da “radio”. Esse primeiro contato com o meu pequeno paraíso foi verdadeiramente fascinante. Fantasiava os futuros passeios de bicicletas e, talvez, quem sabe, memoráveis cavalgadas. São Bento era tudo aquilo que qualquer garoto sonhava.

 

O Núcleo Colonial de São Bento estava subordinado ao Ministério da Agricultura. Suas terras, antes pertencentes aos padres beneditinos, haviam sido adquiridas pela União com a finalidade de se implantar um projeto agro-pecuário. A empreitada parecia não ter vingado, porém deixou no local uma infra-estrutura capaz de dar sustentação a um conjunto habitacional com fortes características rurais. As habitações eram padronizadas, amplas e com um traçado simples, porém formavam um conjunto gracioso.  Contribuía para isso os jardins gramados e a ausência de muros separando as residências. Parecia coisa de cinema americano.

 

Um comprido e largo caminho de terra batida, ladeado por perfumados eucaliptos, ligava o Núcleo à antiga estrada Rio-Petrópolis. Nesse ermo, o silêncio só era quebrado pelo canto dos bem-te-vis, pelo ronco do trator do “japonês”, por alguma carroça ou pelo barulhento motor do “fordeco 29” que entregava um pão horroroso – nem é bom lembrar - que comíamos no café da manhã. Não é tarefa muito fácil estabelecer os limites geográficos do Núcleo Colonial. Mas não custa tentar: do lado esquerdo da estrada que seguia em direção às casas dos funcionário  do Ministério da Agricultura, ficava o trecho de uma ferrovia desativada ou quase; do lado direito a “defesa vegetal” e o Centro Pan-americano; depois do São Bento Esporte Clube vinham as choupanas dos japoneses, que terminavam quase na “parada da Leopoldina”. Fato curioso era o modo de vida desses emigrantes. Eram discretos e viviam isolados, pouco se relacionando com os demais moradores. Vendiam ovos, principalmente, mas possuíam pequenas áreas cultivadas pelas imediações. Fato curioso era um determinado tipo de ovo vendido por eles, possuía duas gemas.

 

 

 

 

 

 

          

    



 

A administração do Núcleo Colonial - naquele tempo dirigida por um funcionário rigoroso, apelidado de Timoshenko, em alusão ao famoso e duro general russo, herói da Segunda Guerra Mundial - ficava na antiga sede da Fazenda de São Bento, vetusta construção do século 18. Ali, segundo a crença de muitos moradores, habitavam fantasmas de padres e escravos. Era com um certo temor que a criançada para lá se dirigia, movida pelo desejo de furtar laranjas e jabuticabas. Bem menos assustador e mais fácil seria burlar a canina vigilância de “seu” Cezar” - um telegrafista que passava a maior parte dos dias do mês dentro da “rádio” fazendo “gronga” (trabalhar no lugar de um colega mediante remuneração deste) - e surrupiar mangas dos terrenos da “rádio”, nome pelo qual se conhecia a estação rádio-receptora do Departamento de Correios e Telégrafos. Seu Cezar se achava o dono das mangueiras que cercavam a “rádio”.

 

A rádio-receptora despertava em mim um certo orgulho. Afinal, era ali que o meu pai trabalhava, com o pomposo título de “assessor de eletrônica”. Era através da “rádio” que o Brasil se ligava com o mundo, recebendo telegramas e notícias das agências internacionais. Isso, numa época em que as comunicações se faziam através de ondas curtas, e não por satélites, como hoje. Foi pela “rádio” que - talvez antes mesmo do presidente da República – os pacatos moradores de São Bento ficaram sabendo do fim da Segunda Guerra Mundial. Essa história, quase inacreditável, era contada por João do Caio, que jurava estar junto com os radiotelegrafistas quando a noticia foi transmitida em código Morse.

 

 

 

   

  

         

 

 

Importante local de lazer para aquela pequena comunidade era o São Bento Esporte Clube. Ali, aos sábados e domingos, próximo das 19 horas, começava a esperadíssima seção de cinema. Uma surrada máquina projetora de 16 milímetros rodava velhos filmes que, de tão cortados e emendados, não mais apresentavam lógica em seus roteiros. Mas o que fazer? A televisão ainda estava muito distante de nossas possibilidades de consumo. O forte do clube era mesmo o futebol. O campo do São Bento conheceu tempos gloriosos, com a presença de grandes craques em seu gramado. Em diferentes épocas ali jogaram Garrincha e Roberto Dinamite.

                      

      

 

 

 

 

 

 

                  

                                     

 

Mas independente da presença de famosos jogadores, o campo de futebol do clube era, aos domingos pela manhã, ponto de reunião obrigatória do público masculino que cultivava o viril esporte bretão ou ia para torcer pelo time local.

 

Dependendo do adversário, a partida poderia assumir a feição de um verdadeiro “clássico”. Nesses momentos, o clube se engalanava com a presença maciça da população. Foi num desses “clássicos”, onde os ânimos geralmente se exaltam, que saiu um grande conflito entre as torcidas do São Bento e do Pau Grande. A porrada comeu solta e só foi terminar quando o pessoal do Pau Grande correu para o ônibus e se mandou; mesmo assim, debaixo de apupos, pedradas e pauladas. Essa história até hoje ainda é lembrada pelos mais velhos com um maroto orgulho, revelado num risinho sardônico.

 

São Bento tinha outros heróis, além dos heróis de chuteiras. Um deles, famoso por sua valentia, se consagrara perante a crédula garotada através de um feito que misturava fantasia e realidade. Na verdade mais fantasia que realidade, melhor dizendo: acho que era só fantasia mesmo. Era voz corrente a existência de um misterioso túnel ao pé da colina que ficava próxima do centenário prédio da Fazenda de São Bento. Ninguém se aventurava penetrar nessa misteriosa galeria que, para alguns, servira, nos tempos da escravidão, para dar fuga aos negros cativos.  

 

 

 

Certo dia, Pedro Sinal – esta era a alcunha do herói – resolveu acabar de vez com o mistério que envolvia o escuro e profundo túnel. Afinal queríamos saber o que havia lá dentro e onde terminava aquela medonha gruta. Munido de sua natural coragem e de uma lanterna elétrica, foi penetrando, cautelosamente, nas entranhas do assustador buraco. Já havia percorrido uma distância razoável, quando a lanterna que portava se apagou sem motivo aparente. Impossibilitado de prosseguir e um pouco assustado, Pedro Sinal retrocedeu, deixando atrás de si, sepultados definitivamente, os mistérios do túnel dos escravos e a sua fama de valente. Depois desse fato, ninguém se atreveu a repetir a façanha daquele herói admirado e invejado pela criançada do local.

 

Outra figura inesquecível era a de um homem – prefiro omitir o seu nome – de meia idade, negro, magro, alto e com olhos esbugalhados. Corria a boca pequena, entre a garotada, ser ele um lobisomem. Tínhamos verdadeiro pavor dessa criatura, apesar de ser uma pessoa bem educada e de atitudes simpáticas. Não sei como a lenda surgiu, mas, para nós, moleques crédulos, tudo era verdade.

 

Histórias de lobisomem, padres-fantasmas, mulas-sem-cabeça e saci-pererê, povoaram a infância daqueles que viveram entre o rio Iguaçu e a velha fazenda dos padres beneditinos. Afinal éramos crianças, inocentes e felizes.

 

A “rádio” era uma espécie de enclave dentro de São Bento. O pessoal do Ministério da Agricultura tinha uma espécie de rivalidade, bem disfarçada, em relação aos servidores do DCT, mas nada que pudesse perturbar as relações entre as famílias deste ou daquele órgão.

 

Apesar de São Bento ser quase um paraíso, tinha lá seus pontos negativos. Não existia comércio próximo, tudo era comprado num dos raros armazéns do Lote 8, um local que ficava quase em frente ao Núcleo Colonial de São Bento. Neles só eram encontrados os gêneros básicos e de qualidade apenas sofrível, mas caros pra cacete. Água encanada também não havia, a que tínhamos era de poço e geralmente salobra. Os telegrafistas e os moradores das casas da “radio” bebiam uma água que a caminhonete do DCT apanhava na Cidade das Meninas. A condução também era escassa, irregular nos horários, com ônibus velhos e mal cuidados, excetuando o da empresa que fazia a linha Caxias-Mantiquira, a Duque de Caxias Ltda. E tinha mais um agravante, os coletivos passavam na Rio-Petrópolis, o que obrigava o pessoal do Núcleo Colonial a caminhar pelo menos um quilômetro até o ponto mais próximo. Ir ou voltar para o Colégio Duque de Caxias, onde eu estudava, era algo complicado. Na ida, a condução demorava muito, mas na volta a coisa piorava.  No horário do almoço, os ônibus ficavam estacionados nos pontos próximos da estação ferroviária e do Edifício 25 de Agosto com seus motores ligados, e nós, pobres passageiros, dentro deles esperando, num calor de rachar, não raro, mais de uma hora, até que partissem. Na verdade, poucas eram as empresas organizadas. Geralmente, organizadas mesmo, eram aquelas que ligavam Caxias ao antigo Distrito Federal. Talvez assim fosse devido à fiscalização mais severa que se fazia na capital do país. Interessante é lembrar que os ônibus tinham duas placas, uma de Duque de Caxias e outra do Distrito Federal.

 

Mas nem só de ônibus esculhambados dependiam os moradores de São Bento. Algumas vezes pegávamos uma providencial carona nos carros oficiais ou particulares. Eu, por exemplo, era useiro e veseiro em pegar carona na ambulância Studebaker do Ministério da Agricultura. Ela não carregava doentes, o que era raro em São Bento, mas estudantes, filhos de funcionários que, como eu, seguiam para as suas escolas. O responsável pelo transporte da garotada era o João do Caio. Dirigindo muito bem, João ia voando pela Rio–Petrópolis até Caxias. Adorávamos o modo como ele pilotava a ambulância. João era o nosso Ayrton Senna. Naquele tempo ninguém estava preocupado com limite de velocidade, não havia “pardais”, cinto só para segurar as calças e “lei-seca era coisa de filme de Al Capone.

 

            

                      

 

 

João do Caio, sobre quem já falei, era uma pessoa muito interessante. Se fôssemos “eleger” um cronista para São Bento, sem dúvidas, sairia vencedor. Sabia tudo sobre o Núcleo Colonial, mas tinha uma característica que o impedia de assumir a “historiografia-oral-local”: era um tímido inveterado. Fora, inclusive, motorista de ministros, mas isso não abalava o seu jeitão acanhado. Só uma coisa fazia João alterar o seu ânimo e o tom de voz; era quando falava do PTB, partido que amava de verdade. Era um petebista doente. João morreu recentemente, levando consigo páginas memoráveis da história de São Bento. Uma pena...

         

Agora, carona que eu gostava era a que me oferecia o motorista que servia a um dos donos da Indústria Rei. Além do carro, que era um Tatraplan T603, super aerodinâmico, vinha em seu interior, linda, leve e solta, a louríssima estudante Érika, uma garota muito bonita. A família Engels, dona da Indústria Rei, fabricava chuveiros elétricos e fogões, vivia numa bela casa cercada por muito verde e que possuía uma bela piscina no terraço. O fundo da piscina era de vidro, um vidro muito grosso, vindo da Alemanha. De dentro da casa podia se ver as pessoas nadando no aquário de luxo. Hoje, tudo isso desapareceu e o local foi favelizado, aliás, como foi também São Bento e o Centro Pan-americano de Febre Aftosa.

          

                       

             

 

 

 

 

 

 

 

 

2-Lalú e Benedicta

 

 

        Eram meus avós maternos. Nasceram e viveram, boa parte da vida, na Paraíba do Sul. Ele dentista prático licenciado, ela costureira. Ele conseguindo conciliar kardecisno e comunismo. Ela católica, apostólica, romana; praticante radical, uma verdadeira xiita.

Mas não pensem que essas, aparentemente inconciliáveis, diferenças ideológicas perturbavam a vida do casal. Nada disso, viviam muito bem. Acredito que se amavam verdadeiramente. Não aquele amor meloso, roliudiano, egoísta, cheio de palavras bonitas, mas vazias. Se amavam, simplesmente, mesmo com visões diferentes de ser e viver. A humanidade - para ele, comunista, e para ela, católica –, era a razão verdadeira de suas existências.

        Tiveram cinco filhos de sangue e criaram seis adotivos. Viviam modestamente, mas provendo o lar de tudo aquilo necessário para uma vida modesta, mas digna.

        Não sei exatamente porque resolveram sair da Paraíba e vir para o antigo Distrito Federal. Aqui passaram a morar no Méier. Ele continuou exercendo a profissão de dentista, ela a de costureira.

         Vitimado por uma cirrose hepática, Lalú se foi, deixando na casa da rua Hermengarda a sua Benedicta com os filhos ainda solteiros, Saulo, Aldail e Maria Justina. Por essa época, Célia e Cleia já estavam casadas.

        Certo dia, minha mãe, que depois de casada passou a morar com os sogros, resolveu voltar comigo para o lar paterno. A mistura nora e sogra produz, quase sempre, algo explosivo. Aí, fomos viver com a minha avó, trocando Todos os Santos pelo Meier.

        Tenho poucas lembranças da casa dos meus avós paternos, um imóvel bem cuidado, com jardim cheio de flores, vários cômodos, grande quintal abrigando pés de jamelão e oferecendo um porão cheio de coisas velhas que me encantavam. Uma antiga “vitrola” que tocava discos de Dorival Caymmy, completam essas escassas reminiscências.

        A casa da vovó Benedicta também era grande, com quatro quartos espaçosos, sala de bom tamanho, despensa, onde fazíamos as refeições e uma cozinha com paredes encardidas e cujos portais estavam carcomidos por cupins. Não era uma casa bonita, mas dava para abrigar, com relativo conforto, aquela grande família: vovó, minha mãe, eu, meus três tios, Rosane e Levaldina. Rosane e Levaldina eram meninas que d. Benedicta abrigava.

        Criar filhos de outras pessoas parecia ser uma fatalidade para minha avó. Quando se casou com Lalú, levou consigo Alcides, uma criança que pegara para criar. Vejam que coisa fora de propósito: uma moça solteira, bem jovem, responsável por uma criança que ainda engatinhava. Ao longo de sua vida foi “colecionando” menores desvalidas: Edi, Ercília, Maria Eugênia, Conceição, Levaldina, Rosane e Maria “Cachucha”, a última adotada. Com exceção de Levaldina, Rosane e Maria “Cachucha”, as demais já estavam casadas e eram mães.

                

A casa da vovó Benedicta também era grande, com quatro quartos espaçosos, sala de bom tamanho, despensa, onde fazíamos as refeições e uma cozinha com paredes encardidas e cujos portais estavam carcomidos por cupins.

 

 

 

 

Um dia a mãe de Rosane, depois de se aprumar na vida, levou a menina. Aí, Levaldina passou a ser minha única companheira de folguedos naquela casa grande e cheia de gente adulta. Era quase uma irmã, durante certo período estudamos na mesma escola. Escola, não é bem o termo, uma escolinha, que funcionava na casa de duas irmãs no Engenho de Dentro. Ali as duas velhotas amontoavam as crianças que, entre reguadas e puxões de orelhas, iam sendo alfabetizadas. O encanto de estudar na escolinha de d. Isaura e d. Isabel ficava por conta da viagem de bonde, nós adorávamos. Mas não só isso, as duas mestras vendiam uma bala de leite que era o sonho da garotada. Quando uma das mestras abria o pote onde ficavam guardadas as balas, a garotada parava e ficava olhando encantada para aquela guloseima e imaginando quem poderia estar adquirindo a preciosidade. Só os bem aquinhoados tinham acesso as cobiçadas balas. Naquela improvisada escola, ficávamos sentados em desconfortáveis bancos de madeira que se espalhavam pelas dependências da velha casa do Engenho de Dentro. Só aqueles que estavam fazendo as tarefas escolares sentavam na grande mesa da sala. O restante da criançada ficava mesmo ociosa, esperando a vez para ser chamada e exibir os trabalhos escolares. A escola tinha também os seus tabus. Um deles era se falar do filho de uma das professoras, que morrera precocemente. 

        Mas viver com a vovó tinha também os seus sacrifícios. Sendo católica praticante “fundamentalista”, não se levantava sem antes rezar muito, percorrer todas as continhas do terço e beijar, uma a uma, as imagens dos santinhos que guardava no seu missal. Aos domingos não tinha jeito, todas as crianças eram obrigadas a acompanhá-la à missa. Quando voltávamos da igreja era aquele ritual macabro: vovó matava a galinha que seria servida no almoço domingueiro. Jamais deixou que assistíssemos ao sacrifício da “penosa”. O único galináceo que escapou da faca ninja de d. Benedicta foi um galo branco, muito brabo, que dava esporadas até na sombra. 

Vovó não admitia palavrões, gente sentada à mesa sem camisa e espelho descoberto em dia de trovoada. Quando os coriscos começavam a riscar o céu, ela pegava palha benta e queimava. Era a forma mais eficaz que conhecia para aplacar os elementos.

        Os domingos da nossa infância eram especiais; pela manhã a missa, na hora do almoço era servida a macarronada com galinha assada, tudo devidamente acompanhado pelas melodias cantadas por Francisco Alves, “O Rei da Voz”. O programa tinha Lúcia Helena como apresentadora, que, com aquela voz maravilhosa, grave e pausada, assim anunciava o cantor: “Ao soar o carrilhão as doze badaladas, ao se encontrarem os ponteiros no meio dia, os ouvintes da Rádio Nacional também se encontram com Francisco Alves, o Rei da Voz”. Era um negócio muito bacana, emocionante.

        Após o almoço, meu pai vinha nos visitar. Algumas vezes íamos para a Quinta da Boa Vista, em outras ocasiões para o Jardim do Méier. Eu adorava colocar barquinhos de papel no laguinho do parque e assistir ao teatrinho de marionetes, que sempre acabava do mesmo jeito, com todos os bonecos brigando. O passeio  terminava no Bar Imparcial, já à noitinha, onde comíamos um super sanduíche de salame e o velho mergulhava num douradíssimo e borbulhante chope. 

Eram assim os domingos da minha infância passados na casa de Lalú e Benedicta. Mas isso até mudarmos para Vaz Lobo. Aí começava uma nova fase na vida daquela pequena família que, durante os anos de vacas magras, vivera na casa dos sogros.

               

1- Caxias de antigamente,

       primeira impressões

 

 

 

 

 

 

Inicio estas linhas tentando explicar, se for possível, o significado da palavra antigamente, ao menos como eu a entendo. Antigamente é algo que passou, um quadro pendurado na “parede da memória”. Antigamente pode ser uma coisa que aconteceu há cinco, dez, cem ou mil anos. Como se vê, antigamente é coisa imponderável, que não pode ser medida, que não tem exatidão.

 

É de uma Caxias de antigamente que pretendo falar. E o meu antigamente situa-se, mais ou menos, entre os anos 50 e 80 do século que passou. Acho que é isso.

 

Pisei pela primeira vez o solo da terra disputada pelo Pacificador, por Tenório e Joãozinho da Goméia no início dos anos 50.

 

                        

                      

 Vinha com o meu pai para conhecer São Bento, local onde iríamos morar. Na época, estava com uns 10 ou 11 anos. Não me lembro bem. Lembro, porém, que mudaríamos de Vaz Lobo para São Bento acompanhando o meu velho, transferido dos Correios da Praça 15 (hoje Paço Imperial) para a estação rádio receptora do DCT, que ficava no Núcleo Colonial de São Bento, bem em frente da velha fazenda dos padres beneditinos.

 

 

 

 

Caxias me pareceu um local muito diferente de tudo aquilo que até então eu tinha visto. Nascido no Engenho de Dentro e tendo morado em Todos os Santos, Méier e Vaz Lobo, bairros do antigo Distrito Federal, estranhei muito a cidade. Tudo era diferente, começando pelo ônibus que nos levou para São Bento. Era um veículo do tipo (mas não exatamente) “Camões”, uma bem humorada alusão ao poeta português cego de um olho. O veículo tinha um dos pára-brisas recuado, o que justificava o apelido. Sua mecânica era inglesa e a carroceria fabricada pela Grassi, de São Paulo. Uma única porta servia de entrada e saída para os passageiros. Outro aspecto curioso era o grande número de carroças puxadas por cavalos e burros. O trem, que no Distrito Federal era elétrico e metálico, aqui era a vapor, maria-fumaça, com vagões de madeira, mais velhos que a Sé de Braga.

 

 

                        



 

 

 

A Praça do Pacificador abrigava uma improvisada e feia rodoviária de madeira, além de uma bica d’água onde os “rola-rola” e as latas de banha eram enfileiradas pela gente pobre que ali recolhia o “precioso líquido”. Poços e carros-pipa completavam o improvisado “sistema de abastecimento” da cidade. Entre a praça e a via férrea funcionava um parque de diversões, na verdade um “mafuá”, que abrigava jogos de azar.

    

  

 

 

A Rio-Petrópolis, a partir da praça e seguindo até a casa do Tenório, era, ao anoitecer, o território dominado pelas boates, cabarés, “hotéis de alta rotatividade”, prostitutas, “otários” e rufias. Era também na Rio-Petrópolis que ficavam as lojas que vendiam armas, munição, material para caça, pesca e fogos de artifício. Curiosamente, um desses estabelecimentos era batizado com o nome do padroeiro da cidade: Casa Santo Antônio. Porém de "santo ou santa" a casa não tinha nada. Mas existiam outras duas com os sugestivos nomes de Casa São Pedro e Casa São João, obviamente também dedicadas ao inocente comércio de fogos e armas. 

 

Lembrando o velho Sérgio Buarque, digo que o antigo Estado do Rio era “o lado debaixo do Equador”, local onde o pecado não existia. O que não se podia fazer na Capital Federal - cheia de "otoridades" civis, militares e eclesiásticas a zelar por nossa moral e bons costumes, aqui se fazia escancaradamente.

Poucas eram as ruas calçadas, a iluminação pública ficava limitada ao centro e aos bairros da classe média. Mas, assim mesmo, vez por outra, lá vinha um apagão e dos grandes.

 

 

 

 

 

                   

         O jogo do bicho funcionava escancarada e livremente em lojas unicamente restringidas por um quebra-vento. No Distrito Federal não era assim, o “escritório” do bicheiro era o poste da Light.  A loteria “Três Batutas”, do João Bicheiro, durante muitos anos imperou na Caxias de antigamente. Mas tivemos também a Paratodos Loterias, O Cravo da Sorte e Caçula Loterias.

 

Estas foram, inicialmente, as minhas primeiras impressões sobre aquela cidade estranha que, a partir daí, passaria a ser minha também.

 

                         

                     

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caparaó, a Sierra Maestra que não deu certo


       Caparaó, a Sierra Maestra que não deu certo

 

     Quem vai de Porciúncula em direção a Carangola, pela RJ 220, tem a sua atenção voltada para uma desbotada placa da rodovia que indica a entrada para Caparaó. Os que procuram naquela região os esportes ligados ao montanhismo ou ali vão por simples lazer, talvez nem saibam que aquela bela e tranquila região foi cenário da primeira insurgência armada contra o golpe de 1964.

Guardadas as devidas proporções, diríamos que Caparaó - região localizada entre a divisa de Minas Gerais e Espírito Santo - foi a nossa Sierra Maestra que não deu certo. A região do Parque Nacional de Caparaó, com o seu Pico da Bandeira, com quase 3.000 metros de altitude, era considerado por grupos de esquerda um local estratégico para a criação de focos rebeldes. Militantes da POLOP (Política Operária) já haviam estudado a região e, logo após o golpe de 1964, tentado se estabelecer ali com sargentos e marinheiros, mas o plano foi abortado. Até mesmo a Polícia Militar mineira havia treinado no local, cooptada por forças que tramavam a derrubada de Jango.

       Tudo aconteceu entre 1966 e 1967. Promovida pelo Movimento Nacionalista Revolucionário, liderado pelo ex-governador Leonel Brizola, a guerrilha teve o apoio financeiro de Fidel Castro e era formada majoritariamente por ex-militares expulsos das Forças Armadas, alguns treinados em Cuba. Eram eles: Amadeu de Almeida Rocha, professor do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros; Amadeu Felipe da Luz Ferreira, ex-sargento; Hermes Machado Neto, cartógrafo; Bayard Demaria Boiteux, professor de matemática do Colégio Pedro II; Avelino Bioni Capitoni, ex-marinheiro de 1ª classe; Edival Augusto de Melo, 2º sargento da Marinha; Juarez Alberto de Souza Moreira, capitão reformado pelo AI- nº1; Gregório Mendonça, instrutor militar; Araken Vaz Galvão, reformado pelo AI – nº 1 como sargento; Deodato Fabrício Batista, ex-3º sargento do Exército; Amaranto Jorge Rodrigues Moreira, marinheiro cassado pelo AI –nº 2; Jorge José da Silva, ex-cabo da Marinha; Itamar Maximiano Gomes, subtenente; Anivanir de Souza Leite, ex-sargentO cssado pelo AI – nº 1; Jelcy Rodrigues Correia, subtenente.

       O grupo de guerrilheiros começou a chegar na região em novembro de 1966, instalando-se num sítio da família do sargento para-quedista Anivanir Martins Leite, como criadores de cabras. Quando o grupo aumentou, subiu em direção ao pico da serra, para não ser visto pelo população. Os guerrilheiros possuíam fuzis, metralhadoras e dinamite. Não tinham a pretensão de derrubar a ditadura sozinhos. Acreditavam que conseguiriam resistir ao cerco do Exército até a eclosão de outros movimentos guerrilheiros, em oposição aos ditadores, que, acreditavam, viriam das cidades. Nada disso aconteceu.     

        O embrionário movimento guerrilheiro foi frustrado antes mesmo de atingir os seus objetivos. Os integrantes limitaram-se a fazer exercícios de treinamento e de reconhecimento na região, enquanto esperavam a ordem de entrar em ação. Haviam perdido o suporte financeiro de Cuba, que resolveu apoiar Carlos Marighella. Abandonados e desassistidos, os integrantes do grupo rebelde passaram a roubar e abater animais, para não morrer de fome. Nesse momento os guerrilheiros já enfrentavam conflitos internos. Nem todos concordavam com a continuação de um movimento, que, todo indicava, teria desfecho trágico.

Assustada com aquela vizinhança incômoda, a população denuncia o grupo, que é preso pela Policia Militar mineira. A resistência por parte dos guerrilheiros foi pequena, quase não houve troca de tiros entre estes e os policiais. Esgotados, famintos e debilitados pela peste bubônica, não foi difícil capturá-los.

       O grupo seria descoberto quando um dos componentes foi fazer compras no comércio local. Depois de capturados, foram levados para o presídio de Linhares, em Juiz de Fora, onde foram torturados e, em consequência disso, um deles veio a falecer.

Muitos moradores da região foram também detidos, para averiguação, acusados de colaborarem com o MNR.

Após a desarticulação da guerrilha, as Forças Armadas tentaram desqualificar o movimento, criando para ele a imagem de bando de criminosos comuns e não de revolucionários. Mas a polícia mineira provou que os rebeldes eram ex-militares. Diante disso, o Exército e a Força Aérea realizaram uma grande operação visando capturar os demais guerrilheiros que possivelmente estivessem escondidos na serra. Mas ninguém foi encontrado. A operação serviu como uma grande demonstração de força e poder.  Essa demonstração de força e poder deixou a população  apavorada, isto porque alguns moradores foram torturados para que confessassem a participação no movimento rebelde.

Conta o professor Bayard Demaria Boiteux -  ex- dirigente do Partido Socialista e comandante do MNR no Rio de Janeiro, autor do livro “A Guerrilha de Caparaó e outros relatos” – que o Exército, a Aeronáutica e o CENIMAR realizaram um espetáculo grandioso com aviões e helicópteros roncando os seus motores, tanques exibindo os ameaçadores canhões; os aviões bombardeando indiscriminadamente as populações indefesas. Nesse “espetáculo” figuravam 10.000 militares contra 14 guerrilheiros.

 Para acalmar e conquistar o apoio da população, os militares passam a oferecer serviços na área de saúde: vacinação, consultas médicas, extração de dentes, distribuição de remédios e até o fornecimento de alimentos. Em Espera Feliz, a banda musical do 11° Batalhão da Polícia Militar fez apresentações para a população, foram promovidos bailes e até seções de cinema em praça pública. Os caminhões do Exército ofereciam carona para os moradores da zona rural e veterinários se apresentavam aos fazendeiros da região para tratamento dos animais doentes ou que necessitassem de vacina.

As crianças da escola local mereceram especial atenção por parte dos militares. Algumas foram levadas para passeios de sobrevoo de avião pela serra. A distribuição de balas e organização de brincadeiras também não faltaram.  Palestras sobre o “perigo do comunismo” foram ministradas nas escolas, igrejas e praças públicas.

Quando os militares deixaram o local, uma sensação de insegurança se apossou daquela gente simples do Caparaó, que agora tinha pelo comunismo um grande pavor.

Nossa Sierra Maestra, efetivamente, não dera certo.